Trabalhador da automoçom viguês, filiado à CIG, filho e neto de cenetistas, Víctor Oia publicou recentemente “Pulso de Galicia. Reagrupamento, agregacións e conflitividade libertária na comarca de Vigo (1950-1962)” (Bastiana), umha achega aos anos menos historiados da ditadura, e um resgate dos focos de resistência anarquista no sul da Galiza, habitualmente escurecidos no relato dominante. Falamos com Víctor do que supom pesquisar fora da academia e desde a classe obreira, da memória libertária do país, e da herança dumha cultura militante soterrada por profundas mudanças sociais.

Como nasceu o teu interesse polo anarquismo?

Pois da maneira mais natural do mundo, através da transmisom oral. Sempre soubem da pertença do meu avô materno à CNT, e também do envolvimento de meus pais e tios nesta organizaçom nos finais dos 70. De maneira que sempre foi doado para mim, na memória familiar, a famosa greve de 1962, que trato no livro, sempre estivo aí. Com o tempo xurdiu-me esta inquedança: esta greve tam conhecida em Vigo, da que tanto se fala, mas com traços algo difusos, vagos, que foi na realidade? Esta foi, entre outras, umha motivaçom funda da pesquisa.

É um interesse inteletual ou prático, militante também?

Ambas cousas. Eu sempre gostei da história, e logo, quando comecei a participar nos movimentos sociais de Vigo, a presença da história sempre me ajudou a ganhar perspetiva, a compreender o momento vivido.

Durante décadas foche trabalhador de Citroen. Como se combina esta condiçom com a pesquisa?

Pois imagina: aproveitando tempos mortos entre quenda e quenda, nas férias, abrindo ocos para aproveitar oportunidades. No que diz respeito aos arquivos de Vigo e Ponte Vedra ainda se pode arranjar, mas quando se trata de ir a Madrid, Salamanca, Barcelona…o esforço é grande e supom aliás dedicar o teu dinheiro. Mas os atrancos foram vencidos com interesse pessoal e curiosidade e porque nom a determinaçom por dar forma ao tempo investido com a ediçom dum livro. Sempre tivem claríssimo que a história nom devia ser um objecto estranho nas militáncias, e entom cumpria dedicar-lhe o que merecia.

Falemos entom de “Pulso de Galicia”. Como te decides a encetar esta obra?

Temos que remontar-nos bem atrás no tempo, por volta de primeiros dos 2000. Eu na altura militava na CNT, editávamos o Terra de Ninguém, e fixera unha primeira biografia sobre o militante libertário Víctor Francisco Cáceres, estremenho que recalou no sul da Galiza na posguerra. Ao ordenar a vida desta pessoa aparecem ocos, aparecem nomes, e formulo a possibilidade de algo mais importante, de maior dimensom. E assi a cousa foi medrando, atopo documentaçom, fago as primeiras entrevistas, a importáncia da imprensa histórica, logo conheço o investigador Eliseo Fernández, e assi acelera-se tudo… contudo houvo momentos de inactividade próprios da vida das pessoas.

Militantes anarquistas da posguerra. Imagem: Víctor Oia

Quando pesquisas, dás com umha bagagem historiográfica do anarquismo na Galiza. Qual era esse estado da investigaçom?

Há um trabalho acumulado muito importante, nomeadamente de mao de Dionisio Pereira e Eliseo Fernández, for individualmente, for em equipa. Há muito trabalho sobre o anarcosindicalismo -mais do que do anarquismo especificamente – e está muito bem investigado a sua relaçom com o mar. Que acontece? Que um movimento desta dimensom nom pode ser abordado apenas por duas pessoas, entom quem repassar a produçom verá que é um conhecimento muito centrado no norte do país, em Compostela, Corunha, nas Rias Altas…o sul ficou escurecido, e desde que Vigo foi umha cidade sempre hegemonizada polo socialismo, mais que polos libertários, pois restava e resta trabalho por fazer. Vigo é umha cidade difícil em muitos sentidos e a historia havia ser menos.

Falas dum Vigo e dumha Galiza nom demasiado abordada pola historiografia. O dos anos 50, onde nom se registam aqueles episódios mais sanguinhentos da década anterior, nem tampouco a eclossom resistente do tardofranquismo. Que cidade era aquela?

Obviamente, um Vigo marcado pola desarticulaçom da guerra, no que se combina aquele recuo social com umha expansom geográfica e demográfica. Umha cidade em constante crescimento. Pensa que Vigo incorporara Bouças em 1904, e no 1941 incorpora Lavadores. Esta área da periferia, junto com outras, nutre com mao de obra toda a explossom fabril do núcleo da cidade. Voltamos ao protagonismo que relatava o historiador Isidro Román, um proletariado simbiótico de origem rural mas envolvido num ambiente puramente urbano como o da sidero-metalúrgica, que é o setor que melhor exemplifica as contradiçons capital trabalho do momento.

O sul ficou escurecido, e desde que Vigo foi umha cidade sempre hegemonizada polo socialismo, mais que polos libertários, pois restava e resta trabalho por fazer. Vigo é umha cidade difícil em muitos sentidos e a historia havia ser menos.

Como vive o anarquismo esta jeira?

A história do movimento libertário, neste ponto, é muito semelhante a de outros territórios. Vimos dumha primeira metade dos anos 40 onde todo o trabalho clandestino visa a queda do Regime, com a esperança das potências ocidentais, ao rematar a Grande Guerra, intervirem contra a ditadura. Nom foi assi, já o sabemos, e para mais, desde o 45-47 entramos numha jeira, a da guerra fria, que pom o foco na tensom entre duas potências, e o anarquismo fica fora deste campo de jogo. Afinais dos 40 dam-se fortes rusgas que golpeam o movimento libertário, a cissom entre ortodoxos e possibilistas, o debalar da CNT… e começamos no tempo que narra o livro. Uns anos sombrios, tristes, marcados pola saída de prisom de veteranos militantes, polas dificultades de todo tipo, pero também polas oportunidades para reagir, como assim foi. Neste contexto chega Víctor Francisco Cáceres a Vigo.

Quem era este militante?

Unha persoa de orixe estremenha que se alistou como voluntário no Exército de África, destinado en Melilla durante a II República, onde mesmo chegou a acadar o grao de cabo. A particularidade da súa militancia provém do feito de ter-se incorporado ao movimento libertario estando preso en Ceuta após o golpe de estado. Umha vez en liberdade as condiçons económicas e sociais do novo Réxime forçam o seu translado, primeiro a Euskal Herria e ao pouco a La Rioja, mas sempre organizado nas fileiras do anarcosindicalismo histórico. Por razons tanto familiares como laborais, chega a Vigo en 1949, e envolve-se a fundo na reorganizaçom libertária.

Que logros organizativos constatas no livro?

Enormes, certamente. Reorganiza-se um comité local, abrem-se contatos nas indústrias, incorpora-se juventude do mundo fabril e chega a ativar-se umha frente juvenil que pretende ser de massas -o Frente Juvenil Democrático-, retomam-se os contatos com o exílio e com a direçom no interior. Mesmo dá-se um caso paradoxal como é a presença de cenetistas no sindicato vertical, mas a diferença do PCE esta decisom nom é fruto dumha táctica premeditada que tinha na inflitraçom na OSE a súa razóm de ser. Pola contra a CNT -falo do caso de Vigo- aplicou o que poderiamos chamar o princípio de realidade atendendo a umha práctica que já se estaba a dar de jeito natural e que redundaria nun importante trabalho de massas en diferentes centros de produçom. Neste aspecto é de salientar as eleccións sindicais de 1954, com a introduçom dos jurados de empresa e certa modernizaçom do modelo de relaçons laborais baixo o franquismo, abrem-se físgoas para a oposiçom. Nom menos importante é a circulaçom de literatura e imprensa libertária, que recebem de Toulouse em grande medida, aínda que também de Nova York, México DF e Bos Aires graças aos nucleos de exiliados confederais, nalguns casos de origem galega como os do continente americano. Pensemos que isto se dá nas condiçons daquela época, que bebendo exclusivamente de pessoas da classe obreira, com as dificultades de todo tipo que poidamos imaginar.

Repressom contra a CNT recolhida na imprensa da época. Imagem: Víctor Oia

Sem isto nom se pode entender a greve do 62, certo? Umha greve de quinze dias que começa em Vulcano, a primeira desde 1936…

Obviamente. Umha das teses fortes do livro é que, contra o que diz o tópico, a CNT fijo trabalho sindical, nom apenas ideológico, e que aproveitou com inteligência estas reformas no aparelho laboral do franquismo. Lembremos que o passo da jeira mais “azul”, falangista, à tecnocracia, leva, entre outros aspectos, à lei de convénios coletivos do 58. É a primeira vez que se diz que a patronal tem que negociar com os trabalhadores, dentro do vertical, obviamente, mas tem que fazê-lo. E abrem-se possibilidades. Acontece entom que se dam mobilizaçons mineiras em Astúries, na siderurgia em Euskal Herria, que mudam o contexto, mas há também uma consciência de certa força e capacidade negociadora da classe obreira. Todo começou no asteleiro Vulcano com a negociaçom do primeiro convénio sindical coletivo e a combinaçom entre o trabalho legal do jurado de empresa e o trabalho ilegal dos militantes clandestinos, que tem como resultado umha mobilizaçom nunca antes imaginada e veiculada através da convocatória de paros. De feito o próprio vertical reconhece que pola vez primeira desde a guerra civil o incremento salarial foi superior à elevaçom dos preços.

O mundo do PCE e CCOO nunca souberam explicar a greve de 62, porque claro, nom cadrava com o seu discurso monocorde do protagonismo absoluto destas forças. O nacionalismo tampouco a explicou, porque na altura nom tinha umha capacidade organizativa forte abondo para construir um discurso de seu.

Esta greve permaneceu na memória coletiva viguesa?

Si, mas dumha maneira bem vaga. Como o acontecimento que da lugar ao moderno movimento obreiro na cidade. Simbolicamente falava-se dela, como aquele episódio que introduziu no antifascismo umha nova geraçom. Mas que havia por trás? O mundo do PCE e CCOO nunca a souberam explicar, porque claro, nom cadrava com o seu discurso monocorde do protagonismo absoluto destas forças. O nacionalismo tampouco a explicou, porque na altura nom tinha umha capacidade organizativa forte abondo para construir um discurso de seu. Entom o meu livro afunda nessa carência, dizendo que a greve vai muito além de supor o nascimento em Vigo das CCOO. Havia um trabalho de fundo do anarcosindicalismo, há já libertários na actividade clandestina, no sindicato vertical, há contatos com o exterior, afortala-se o esforço proselitista, há afiliados em Vulcano, em Barreras, em Álvarez. O golpe repressivo de 1962, uns meses depois da greve, desbarata todo aquilo, e bloqueia a possibilidade que alguns sonhavam de reorganizar a CRG, e por extensom do anarquismo no ámbito galego. Esta dinámica viguesa do anarcosindicalismo deu-se noutros lugares? Ainda nom podemos dizê-lo.

Fechas o livro com umha cita categórica de Víctor Francisco Cáceres, umha exaltaçom da militáncia que passa polas provas de lume da prisom e da clandestinidade, dos “desenganos, das contrariedades e das traiçons”, e que deslegitima “os que vivérom pracidamente e sem luita”. Que resta deste legado?

Penso que esta reflexom é filha do seu tempo e a distáncia permite-nos entendê-la em toda a a sua dimensom. Som palavras que venhem dumha geraçom filha do esforço e do trabalho, curtida nos anos 20 e 30. A reorganizaçom libertária dos 70, também na Galiza, já vem atravessada por maio do 68, por chaves muito diferentes, por outra relaçom com o trabalho, por outras teorias e outras maneiras. E tanto o anarcosindicalismo como anarquismo nom foram quem ainda de aceder a umha memória propia daquilo, ficou numha recriaçom mais bem difusa, num lugar comum da luita antifranquista que resposta melhor ao papel jogado após a morte de Franco. Às dificultades por construir unha alternativa de seu e às urgências do momento. Este trabalho de investigaçom tenta resgatar aquel espisódio de superaçom pessoal e colectiva desde o máis profundo respeito mas também desde a crítica construtiva.