Jonas Schreiber, professor de Economia de ensino médio na Alemanha, declarava há uns dias nos meios empresariais que boa parte do alunado de hoje “prefere reprovar umha matéria antes do que passar polo esforço de estudá-la”. Tratar com o estudantado atual é, em boa parte, interatuar com corpos “que estám presentes fisicamente, e mais nada”. Numha retroalimentaçom negativa, nom é infrequente os docentes reproduzirem esta atitude com os pupilos, pois ante a passividade massiva, umha certa indiferença resulta protetora.
É esta umha reflexom isolada? Pensamos que qualquer professora galega pode suscrevê-la, e mais se dá aulas a alunado da classe obreira. Nom se trata, tampouco, dumha cavilaçom restrita às escolas, nem tampouco exclusiva de gentes com sensibilidade esquerdista, proclives à crítica. Na economia neoliberal, desde que umha universidade de Texas acunhara o conceito há 16 anos, fala-se em “quiet quitting”, isto é, abandono silencioso das empresas: toda umha vaga de desleixo no mundo do trabalho que pode adoptar umha forma leve -a negligência laboral e a pretensom de fazer o mínimo possível -, mas também umha expressom mais notória: a desapariçom do trabalho, nalguns casos mesmo sem dar explicaçons cara a cara aos responsáveis, considerando que a média de permanência de novos profissionais qualificados nas empresa nom passa dos 24 meses. A IES Business School da Universidade de Navarra, um bastiom que forma elites do sistema, já educa em diretrizes de como “pôr em prática estratégias de retençom de empregados.” A divisa “reter talento” está-se a converter num lugar comum na gestom capitalista dos recursos humanos. Fora de ocidente, e numha versom radicalizada, a China viveu um fenómeno semelhante como o movimento “tao ping” (deitado) logo do covid, quando jovens esgotados polo ciclo inesgotável trabalho-lazer tecnológico protestárom com umha manifestaçom massiva de inaçom.
Reagimos assi tam só ante os gigantes burocráticos, como a escola, ou ante os entramados empresariais a quem dedicamos tantas horas da nossa vida? Ao que parece, nom só. Essa mestura de tristura, insatisfaçom, inexpressividade e distáncia empapa também as relaçons entre pares, e aquele termo inglês que nomeava desapariçons silenciosas dum parceiro amoroso (“ghosting”) é aplicável agora a boa parte do trato entre as pessoas. Os encontros físicos escasseam, os debates som julgados como impertinentes, as diferenças agrandam-se e as distáncias expressam-se, mais que com a crítica, com um silêncio desacougante.
A política revolucionária da que procedemos sente-se a vontade no confronto, e até podemos dizer que um choque penoso nos é mais familiar que o mutismo. Formamo-nos num ambiente de debates de alta voltagem, seitarismo e agressividade verbal; estamos afeitos a que a imprensa nos insulte e os inteletuais nos ridiculizem, a que as forças policiais nos espiem, nos espanquem ou nos enviem a prisom; em definitiva, temo-nos movido com mais soltura na crispaçom que na depressom, e por isso o independentismo foi tam remisso até hoje a analisar o enorme repto antropológico que encaram hoje, no capitalismo decadente, os movimentos coletivos. Aliás, dado que o nacionalismo maioritário é relativamente forte no nosso país, e mantém umha certa tensom mobilizadora, podemos minusvalorar o alcanço da crise, esquecendo que se esse movimento mantém o seu ritmo e volume é mormente por umha nutrida rede de libertados (sostido por fundos públicos e quotas de representaçom institucional), que nom pola viçosidade dumha verdadeira rede de voluntariado popular.
Temo-nos movido com mais soltura na crispaçom que na depressom, e por isso o independentismo foi tam remisso até hoje a analisar o enorme repto antropológico que encaram hoje, no capitalismo decadente, os movimentos coletivos.
Qualquer observador equánime do galeguismo, em todas as suas correntes, concordará na valoraçom: como a escola, como a empresa, ou como os grupos de amigos e as parelhas, a nossa causa enfrenta a doença da desídia: falta de energia e compromissos efémeros, dificuldade para o debate, défice de atençom e formulaçom nebulosa de propósitos (falar com imprecisom é quase sempre mostra dum pensar impreciso). Umha canseira patológica, porque nom procede do esforço, e nom é, nesse sentido, um necessário reconstituinte antes de voltar a umha tarefa, senom um derivado da falta de sentido e de inspiraçom em valores transcendentes.
Franco Berardi “Bifo”, teórico da velha autonomia italiana, entende na sua obra recente “Desertemos” que o massivo deslocamento às margens do trabalho, do consumo ou da adiçom tecnológica é o único traço emancipatório do nosso tempo. Se bem a tese ajuda a pensar e pode previr-nos contra o exagero moralista da extrema direita e a a sua recuperaçom da “cultura do esforço” em favor do Estado e da guerra, a aposta do pensador é sinistra e demasiado unilateral: desenha um modelo para a total desesperança (“o único futuro para o século XXI é a extinçom no inferno climático ou na guerra nuclear”, declara), umha forma de transicionar serenamente para a fim da civilizaçom e quiçá da sociedade, como a pessoa idosa que, tranquila e satisfeita, aguarda polo fim. Esquece, também, que as pessoas deixárom de fornecer a sua energia nom apenas às estruturas da autoridade, senom a todas aquelas redes de base, cooperativas e construtivas, que nos últimos séculos fixérom a vida digna de ser vivida, da vizinhança ao partido, passando pola família. Portanto, antes de chamar à deserçom, haveria que concretizar a pergunta e esclarecer de que cumpre desertar exatamente.
Podemos superar um problema tam enorme? Podemos, de partida, assinalá-lo e nomeá-lo, que é o primeiro passo que damos os seres humanos para encarar um repto; podemos também considerar como um mal nos nossos coletivos aqueles comportamentos que favorecem a insolidariedade com o grupo, que danam a planificaçom a longo prazo e entronizam os interesses e os caprichos privados; e devemos, sem dúvida, restringir no possível nas nossas vidas esse ecossistema que fijo medrar a incomunicaçom e danou as habilidades do convívio e do debate: o ecossistema virtual e, singularmente, as redes sociais. Possivelmente Bifo seja realista, mas o nosso Carvalho Calero soubo que, além de ser pragmáticos, cumpria agir também de jeito inspirador e entusiasta: “Há que esperar contra toda esperança. Porque mentres nom decidamos suicidar-nos como povo (e agora podemos acrescentar nós: como espécie) temos que confiar na possibilidade de rectificar a história e a história, por suposto, tem que ser rectificada.”