“Se queres que o carro ande / forte a un tempo e velaínho, / bota-lhe o eixo de freixo / e as treitoiras de sanguinho” (popular)

Se em semanas passadas viajávamos, contra o tópico, pola Galiza mais mediterránea, hoje voltamos às rotas atlánticas e orientamos a nossa olhada cara o Mar Céltigo que vindicava Paz Andrade. Nas nossas caminhadas de Outono, especialmente se decorrem do Ulha para o norte, começamos a ver grandes manchas amarelas na paisagem. Som as folhas do freixo prontas para caerem. De forma lanceolada e perfeito alimento para o gado, farám-se nestes dias manto de humus. O freixo é umha árvore lançal de tronco prateado, nom muito longeva mas de grande altura, ofereceu aos nossos devanceiros umha madeira dúctil e aproveitável. Cercana sempre à auga, o mundo grego, céltico ou escandinavo vírom nela os poderes criadores e destrutores dos eternos ciclos naturais.

Nestas datas, as fragas do oriente galego vestem-se de amarelo e nota-se ao longe a presença do freixo

Etimologia e hábitat

Chamamo-la ‘freixo’ por herança greco-latina; ‘Fraxinus excelsior’, procedendo ‘fraxinus’ de ‘fraxus’, isto é, sebe. ‘Excelsior’ deve-se à grande altura que alcança, e significa ‘o mais grande.’Com freixos erguiam-se valados naturais na antiguidade, pois constituem um muro formidável contra o vento. No sul da Galiza nom existe, embora no surleste ourensao abrolhe o seu parente ‘Fraxinus angustifolia’, de nome ‘freixa’. Difícil de distinguir do irmao do norte, as suas gemas som castanhas e nom pretas.

Os exemplares mais impressionantes alcançam os 40 metros, como um prédio de cinco andares. Os mais deles rondam os 20 metros, mas a sua feiçom alongada e o seu tronco liso dá sempre sensaçom de altura e esbelteza. Vivem relativamente pouco -cem anos, como um ser humano mui longevo-, mas o povo apreciou-nos por outras virtudes. Especialmente pola sua madeira, doada de trabalhar, e acaída para trebelhos agrícolas diversos. ‘O meu carro é cerna dura, sabe-se carvalho e freixo’, cantava Fujam os Ventos com palavras de Manuel Maria na sua cançom-hino. Também foi aproveitada a sua folha como laxante e diurética, e a sua cortiça para a curaçom das febres.

É difícil vê-lo em colectivo, os freixedos som escassos. Adapta-se perfeitamente, porém, ao bosque de ribeira, e é também um dos habitantes senlheiros das fragas. Atura climas frios ou mornos, mas precisa em qualquer caso humidade e morreria por umha seca prolongada. Dos 0 aos 1000 metros, os regatos, as lameiras e as branhas som o seu hábitat. Da sua extensom dá conta a toponínia: freixos, freixedos, freixeiros, freixins, freixas, inçam o território galego. No catálogo de árvores senlheiras da Junta da Galiza, dous freixos, um em Sobrado dos Monges, e outro em Monforte, representam esta espécie no conjunto dos nossos tesouros naturais.

O freixo nas memórias ancestrais

Na tradiçom oral galega sobrevive a associaçom do freixo com as fadas. Onde se topam freixo, carvalho e espinho, estes seres naturais fariam apariçom. Trata-se dos restos inconexos dumha veneraçom velhíssima de raiz indoeuropeia. Já os gregos davam culto ao freixo associando-o o Poseidom, deus dos mares, e vincando nessa associaçom entre freixo e auga. Na mitologia escandinava, o freixo é sem dúvida a árvore primordial, ‘axis mundi’ que artelhava o mundo dos humanos e animais. Os povos do norte criam que o universo se organizava por volta de Ygdrassil, um freixo que dividia três reinos (celestial, terrestre e infernal); cada umha das suas raízes baixaria a umha regiom sobrenatural, num total de nove. No mais fundo das raízes, dormitava o mal, representado polo dragom das mil invejas; no cúmio, a águia solar. Acarom da árvore pastoreava a cabra Heidrum, que tirava das suas folhas a capacidade de produzir, em forma de leite, o elixir da imortalidade.

O freixo Ygdrassil, ‘a árvore do mundo’, numha gravura do século XIX

Nom conhecemos fontes escritas sobre o freixo na cultura dos galaicos, mas si há abondosa informaçom sobre o seu papel na Irlanda. No século VII, a vitória cristá sobre o paganismo celebra-se na ilha curtando cinco árvores mágicas; três delas eram freixos. Representava o mês de fevereiro no alfabeto druídico, e portanto a parte mais fria e chuvinhenta do ano. Desde que era a árvore da auga, os celtas davam-lhe condiçom de talismám contra os afogamentos. Sabemos que muitas irlandesas e irlandeses que fogiam da peste da pataca no século XIX, rumo a América, levavam no peto um anaco de cortiça de freixo.

Mas longe da visom ingénua e superficial do ecologismo urbano de hoje, para os antigos a natureza era bençom e ameaça, protecçom e perigo. Exprimia, como a vida, as fasquias mais contraditórias. Obviamente, também o freixo. Se nas Ilhas Británicas protegia os meninhos da doença, também era a ‘árvore das viúdas’ (as suas ponlas caem com facilidade e tenhem matado muitos homens); as suas raiganhas abafam as árvores das vizinhas, o que fala dumha árvore cruel, cuja sombra dana também as colheitas. Viver com a natureza, pensavam sabedorias como a céltica, supom conhecer polo miúdo os seus segredos, sempre cheios de respeito. Por isso os escandinavos chamavam o freixo ‘árvore do terror’ e destacavam que se o fundo das raízes acobilha vermes e podrémia, no cimo da copa brilha umha águia dourada. Correteando de cima para baixo, um esquio, Ratatoskr, trazendo e levando mensagens entre ambos os mundos.