Entrevistamos a Pedro Rodríguez López, ativista da Plataforma “Salvemos O Iríbio”, mestre reformado do CEIP de Samos, amante e divulgador do património natural e cultural galego e trabalhador incansável a prol da construçom dum sistema educativo público auto-centrado na realidade nacional, sócio-cultural e económica do nosso país.

A sua fala fai ressoar nas consciências um canto de saberdoria popular, versos que espem aos soberbos Deuses do progresso e do consumo, ideias que abrolham das fontes e que talham caminhos silandeiros que falam com o exemplo, olhar de dignidade feito do lume herdado por séculos de resistência à força bruta do Leviatám hispano.

Pedro Rodríguez López

Diversas entidades e associaçons ambientalistas, culturais, vizinhais e políticas constituístes a plataforma “Salvemos O Iríbio” para defenderdes o património natural e arqueológico da Serra do Iríbio do impacto destrutivo causado polo projeto de instalaçom dum parque eólico. Como valoras o percurso da Plataforma até o presente?

A Plataforma “Salvemos O Iríbio”, no seu breve período de existência, nasce depois de que algumhas pessoas e associaçons mui implicadas e com um alto grau de generosidade e compromisso ético na defesa dos valores naturais e culturais presentes na Serra do Iríbio, trabalhassem arreio dando a cara em solitário, pugessem em evidência a falta de implicaçom e aguilhoassem consciências sobre a perentória necessidade de parar a brutal desfeita no Iríbio; sabendo, ademais, que os Concelhos de Triacastela e Samos e boa parte da sua vizinhança, em vez de defender o património local tiravam pedras contra o seu próprio telhado.

A Serra do Iríbio fai parte da Zona de Especial Conservaçom Ancares-Courel (ZEC), da Rede Natura 2000, e está situada dentro dum espaço que é Bem de Interesse Cultural (BIC) Caminho de Santiago Francês. Como é possível que durante 5 meses de denúncias perante os Concelhos de Samos e Triacastela, assim como perante a Direcçom Geral de Energia e Minas e doutros organismos, nom figeram nada para preservarem os valores naturais, culturais e paisagísticos desta Serra?

Vários precedentes ajudam a compreender o atual atentado contra o património natural e histórico-arqueológico da Serra do Iríbio. O parque eólico Serra do Iríbio foi reconhecido ao abeiro da Orde do 22 de janeiro de 2004, mediante Resoluçom do 6 de maio de 2004 da Conselharia de Innovaçom, Indústria e Comercio.

O 19 de maio de 2005, a Delegaçom Provincial da Conselharia de Innovaçom e Indústria de Lugo informou favoravelmente o projeto de execuçom do Parque Eólico Serra do Iríbio. O 12 de agosto de 2005, a Direçom Geral de Qualidade e Avaliaçom Ambiental formulou a declaraçom de impacto ambiental dando-lhe luz verde à criaçom do parque eólico Serra do Iríbio, que se publicou no Diário Oficial da Galiza do 16 de novembro de 2005.

O 17 de outubro de 2006, a empresa promotora apresentou perante a Direçom Geral de Indústria, Energia e Minas cópia dos acordos alcançados com as comunidades de montes de afetados polo projeto do parque, quer dizer, as comunidades de montes vizinhais em mao comum de Abradelo, Passantes, Gundriz, Santa Marinha e Queijadoiro. A Conselharia de Innovaçom e Indústria aprova o projeto de execuçom Parque Eólico Serra do Iríbio, assinado polo engenheiro industrial Cástor Casas Tojo e visado polo Colégio Oficial de Engenheiros Industriais de Santiago de Compostela.

É lamentável que a desastrosa iniciativa do PP fosse apoiada polo bipartito, da mao do PsdG-PSOE e do BNG, fazendo parte este último partido da Plataforma “Salvemos o Iríbio”, mas com um escaso grau de implicaçom, talvez por ter apoiado imcomprensivelmente no ano 2007 um projeto eólico numha serra de grande valor natural e histórico-arqueológico, como é a Serra do Iríbio.

Que consequências tivo a construçom do parque eólico na Serra do Iríbio?

As aberrantes decisons políticas enumeradas levaram já à destruiçom do Caminho Real pola parte alta do Iríbio, que unia a XIX Via Augusto com Monforte, e que agora está sepultado nos brutais recheos dos acessos ou virtualmente pendurado no baleiro das trincheiras. O que era um originalíssimo perfil de cumes alombados harmonicamente pola natureça durante milhares e milhares de anos, a desfeita eólica arrasou nuns meses cimas inteiras em riba da grande Devesa do Iríbio, fazendo-as desaparecer literalmente do mapa ou desfazendo-as com trincheiras.

Além disto, destruiu turbeiras de grande importância biológica, eliminou delicadas goladas com horribeis recheos, desolou largacios chaos soidosos com explanaçons devastadoras, profanou até as entranhas a memória devanceira na Medorra do Fial e afetou a outros monumentos megalíticos. A erosom arrastará, Devesa do Iríbio abaixo, materiais soltos arrincados dos tesos cumes, por cima de uzes, arandeiras, bidueiros, carvalhos ananos, capudres, xardons, rebolos, teixos, freixos, pradairos e um longo et cétera de espécies vegetais e animais.

A sala do contencioso administrativo nº 3 do Tribunal Superior de Justiça da Galiza deu-vos a razom, no passado 21 de outubro, em relaçom à necessidade de paralisar as obras por nom estar atualizada a Declaraçom de Impacto Ambiental do ano 2005. A empresa e os concelhos envolvidos no conflito estám a cumprir a sentença judicial?

Os Concelhos esperarom uns dias até que nom tiverom mais remédio e, para mais, apoiam o sector caciquil para se mobilizarem a favor da implantaçom do aberrante parque eólico no Iríbio. Nom há mais que ver umha foto publicada na prensa, na qual aparece em cabeça da concentraçom a prol do parque eólico o próprio alcalde de Samos, ignorando totalmente que representa a todo o Concelho e que deveria defender o património natural e cultural do município, ainda que apenas fosse como a grande fonte sustentável de riqueza económica que potencialmente é, se as insensatas decisons políticas nom se interpugessem para tentar acabar com um rural tam senlheiro; mas outros interesses alheios e espúrios primam nos diferentes níveis da Administraçom.  

Que perspetivas tendes para o futuro a respeito duma nova Declaraçom de Impacto Ambiental da empresa, levando em conta que poderia ser incompatível com a escolha da Serra do Iríbio como Reserva da Biosfera?

Parece que umha nova declaraçom de impacto ambiental com as leis atuais semelha bastante dificil, o que impediria continuar com as obras do parque eólico, mas vendo as irregularidades cometidas até o presente e as obras ilegais realizadas pode esperar-se qualquer cousa dumha máfia de terrorismo ambiental, na qual a Administraçom se esforça por dar cobertura legal ao espólio depredador do salvagem capitalismo. Levando isto em conta, compromete-se a declaraçom da Serra do Iríbio como Reserva da Biosfera e, pior ainda, destrui-se património num espaço natural singular em que se desenvolveu durante séculos umha rica cultura rural, da qual é boa prova o dialeto louzarinho, as cantgas de Martim de Padrozelos ou os poemas de Fiz Vergara Vilarinho.

Que necessidades tendes atualmente como plataforma e como podem ajudar as pessoas, associaçons ou partidos na vossa luita pola preservaçom da Serra do Iríbio?

Na luita contra o poder destrutivo necessita-se toda a ajuda possível. É preciso organizar-se para acudir ao Iríbio, conhecê-lo, valorizá-lo e defendê-lo. Como símbolo de luita contra a barbárie depredadora capitalista, que atenta contra os nossos valores como povo galego, tam presentes no Iríbio, ao ascendermos às suas goladas, cimas; mergulhar-nos nas devesas, nos acenos antropológicos, na memória devanceira megalítica, no abeiro da Lóuzara Xabreira… entenderemos bem o que cumpre fazer fronte tanta agressom. Qualquera pessoa ou coletivo que quiger luitar na defesa do património natural e cultural do Iríbio pode contatar com a plataforma através do correio eletrónico: salvemosoiribio@riseup.net.

Resta muito por fazer até conseguirmos a anulaçom definitiva do projeto com umha sentença firme e até que se desmantelem todas as instalaçons do parque eólico, se devolvam ao seu lugar os materiais geológicos deslocados, se restaurem as partes afetadas polos danos sofridos e se imputem as responsabilidades penais correspondentes.

Membros da Plataforma Salvemos O Iríbio

Como mestre de escola reformado em Samos, que papel deveria ter esta instituiçom a respeito da defesa do território e dos seus valores culturais, naturais e históricos associados?

A Escola de Samos, situada num meio rural com um grande património natural e cultural, tem que estar solidamente inserida neste privilegiado contexto, convertendo-o em soporte pedagógico para um fundo enraizamento de aprendizagens significativas, capazes de fazer abrolhar as potencialidades do próprio território local. A escola tem que abrir portas e janelas e sair dos seus quatro muros, num exercício de coeducaçom com a comunidade educativa, para se fundir com a cultura rural que lhe dá sentido e razom de ser.

Levando isto em conta, a escola deve trabalhar a prol dum Projeto Educativo do Centro e dum currículo de Ed. Infantil e Primária arraigado neste contexto específico da cultura rural, para um desenvolvimento sustentável integral baseado nos valores da vida comunitária, da coeducaçom permanente, da ecologia, do gozo intergeracional, da vivência do património natural, literário, histórico, arqueológico, antropológico, arquitectónico popular.

Se falarmos dumha Escola Rural (e nom simplesmente construida no rural) esta deve luitar contra os condicionantes do sistema educativo autonómico-estatal, ao serviço do capitalismo, e espalhar a prática da democracia directa, a ideia do decrescimento, da soberania e da sustentabilidade em todos os âmbitos, através do compromisso com a língua e com a cultura rural.

A dependência nacional que sofre a Galiza fai com que, apesar de sermos excedentários no plano energético (exportamos um terço da energia produzida), pagamos uma das faturas mais altas do Estado. Neste contexto, necessita o nosso país mais parques eólicos?

O negócio depredador dos eólicos, como acontece com o monocultivo de eucaliptos e pinheiros, torna-se noutra praga nos nossos montes e terras, e atua em conivência com o goberno autonómico-estatal.

O nosso país necessita recuperar saberes e modos de vida tradicionais que aumentem a nossa soberania, sustentabilidade e autosuficiência. Se nos decatarmos de que é possível umha melhor qualidade de vida consumindo menos energia, que é possível obtê-la utilizando apenas modos ecológicos de produzi-la, que pode fazer-se um uso mais eficiente e racional dela rejeitando de entrada o sistema capitalista e os partidos políticos que os sustentam, produzindo com qualidade o necessário, optando por cooperativas de produtoras/es comsumidoras/es de alimentos frescos de proximidade, pondo o nosso rural a produzir na ampla diversidade ecológica que aproveite as vantagens de contarmos com tantos microclimas, partindo dos saberes tradicionais nas construçons bioclimáticas da arquitectura popular, recuperando identidade como povo ao asentar-se e trablhar de novo no rural nas numerosas entidades de populaçom, hoje abandonadas ou semiabandonadas.

Com estas e outras propostas necessitaríamos muita menos energia por contar com objectos e máquinas mais duráveis, reduçom importante do transporte ao viver perto do lugar de trabalho, e produzir a maioria dos alimentos e outros bens de consumo o mais perto possível de onde se consomem. Fechariam numerosas industrias desnecessárias e poluintes, minas incluídas, e poderiam desmantelar-se parques eólicos instalados em espaços naturais.

Nos últimos anos, a prática organizativa do nosso povo contra o espólio dos recursos (de mineraçom, energéticos, etc.) tornou-se referencial para outras plataformas da península ibérica que ser reuniram no mês de março no Museu do Povo Galego no IV Encontro de “Contraminacción”. Que valoraçom geral fas da organizaçom popular contra os interesses espúrios das grandes multinacionais?

Quantas mais pessoas e coletivos formos para defender a nossa Terra do espólio mineiro-eólico, melhor. É mui necessário estender o mais possível a rede solidária em defesa do rural galego fronte à mineraçom e a sua implantaçom destrutiva, procurando também alianças fora da Galiza. Há que difundir por toda a sociedade galega, e mesmo nom galega, os atentados contra o património natural e cultural causados por estas más práticas: destruiçom, poluiçom, perigos para a vida e a saúde, insustentabilidade, precariedade, despedimentos, abandono, etc. Nom queremos umha Galiza infestada de barragens com metais pesados que ameaçam com a rutura e a catástrofe.

Arruinam-se famílias ao acabar com o seu meio de vida. As terras contaminadas ficam no abandono e acarretam um grave risco para a saúde. Agricultura, gandaria, marisque, pesca, silvicultura, artesanato, turismo, etc. esmorecem e acabam desparecendo. Contra toda a lógica racional sustentada na ética, as decisons políticas da Administraçom, colocadas ao serviço de imorais interesses especultativos, levam a esgotar recursos naturais non renováveis, a contaminar terra fértil, a queimar grandes quantidades de combustíveis fósseis e de energia, a contaminar grandes quantidades de água com metais pesados e tóxicos químicos.

A Administraçom oculta e dificulta o aceso à informaçom, pretende introduzir material tendencioso e falso nas escolas, etc. Para que continuar, o que se necessita com urgência é a organizaçom popular fronte tantas injustiças e desastres provocados, cujas consequências som muitas vezes dramáticas e irreversíveis.

Tribo minha, refolga rexamente,

ergue na man a fouce e mailo arado

e arromba esse salouco penitente.

Fiz Vergara Vilarinho