(Imagem: Praza Pública) Transmitida desde a noite dos tempos, a regueifa chamou a atençom dos primeiros galeguistas, que a vinculárom com a potência oral das nossas devanceiras. Carré Aldao, na sua ‘Geografia General del Reino de Galicia’, afirmou : ‘a aseveraçom imemorial de historiadores e geógrafos romanos conta que, no país galaico, as fémias levam a palma em improvisar cantigas e tanguer’. Em pleno século XXI, a regueifa volta com novo pulo, e precisamente com um especial protagonismo da mulher.

Na realidade, ‘regueifa’ é um dos termos que se refere à tradiçom de desafio oral típico da nossa Terra, e presente em outras muitas culturas ancestrais do nosso contorno. Irmanda-se com os ‘cantares a desafio’ portugueses e o bertsolarismo basco. Os regueifeiros som também conhecidos como ‘repentistas’ ou ‘brindeiros’ noutros pontos do nosso território.

Tensons, desafios e coesom

Os estudiosos apontam a umha etimologia árabe da palavra. A regueifa denominava originariamente umha bola de farinha triga, ovos, manteiga e açúcar que se oferecia como trofeo nas vodas. Para consegui-la, encetavam-se cantos de desafio que iam subindo em dureza e carga crítica, por vezes sostidos numha luita que durava horas. Finalmente, o ganhador ficava com a regueifa e repartia-a entre os solteiros presentes na cerimónia. Com em todas as sociedades premodernas, as classes populares utilizavam a festa como umha forma de coesom comunitária. E desde que a vida das comunidades, nomeadamente aquelas marcadas pola pobreza, está cruzada de tensons internas e contradiçons, a cultura popular topou forma de canalizá-las civilizadamente, evitando a sua proliferaçom caótica.

Testemunho histórico da ancestral ‘dança da regueifa’

Repente galego

O músico e estudioso viguês Ramom Pinheiro Almuinha debruçou no fenómeno no livro ‘Repente galego’, editado por aCentralFolque em 2016. Pinheiro mergulhou na raiz do fenómeno e entendeu-no numha dimensom internacional. Além dos vencelhos conhecidos do repente galego com outros combates orais da nossa contorna europeia, Pinheiro chamou a atençom sobre a mais que provável influência galega no repentismo do nordeste brasileiro. Conhecemos com fondura os vencelhos galego-portugueses, mas ainda temos muito que estudar da pegada galaica no Brasil, ‘como apontara Paz Andrade’, manifestou Pinheiro numha entrevista para Sermos Galiza.

O desafio oral galego desenvolveu-se em duas zonas centrais, Bergantinhos e a montanha oriental das comarcas dos Ancares e o Courel. Enquanto na primeira área, segundo explica o autor, a regueifa sobreviviu ao fim da civilizaçom rural galega, reconvertendo-se numha actividade semi-profissional em vodas e eventos e salas de festas desde as décadas de 50 e 60, no interior esmoreceu imparavelmente, pois considerava-se apenas umha mostra sem valor da cultura local e doméstica. Quando as celebraçons familiares e comunitárias se deslocárom da velha casa labrega aos estabelecimentos de hostelaria profissionalizados, os brindeiros da montanha perdêrom o seu espaço.

Associativismo e recuperaçom

A história da Europa desde a Idade Moderna é também a história do desprezo da cultura oral em privilégio da letrada. O repentismo, em todas as suas versons étnicas e nacionais, foi reduzido ao contentor das culturas subalternas. É certo que na Galiza o mundo das corais de primeiros do século XX dirigiu as suas vistas à regueifa, mas o grosso da cultura galeguista foi letrada e erudita.

É a finais do século XX quando um novo movimento associativo se decide a pôr a regueifa no lugar que lhe corresponde, e a dar-lhe umha dimensom de maior alcanço que os espaços comarcais onde sobrevivia. Músicos populares como Pinto d’Herbón ou Luís O Caruncho tivérom um papel precursor. A finais da década de 90, a associaçom ORAL (Oralidade, Rima, Arte e Língua de Galicia) dá um impulso importante na sua promoçom, que ainda continua online no twitter @Chioregueifeiro.

Em 2009, o mundo urbano e o rural, a música profissional e amadora, encontrárom-se na Parrilhada Paredes, em Samos. Foi a primeira homenagem realizada por ORAL aos brindeiros das montanhas, nomeadamente a Antonio Rio, ‘Ribeira de Louzarela’, um vizinho de Pedrafita célebre polo seu talento regueifeiro.

Por sorte, e graças ao trabalho voluntário, existem abundantes documentos online deste labor recuperador.

Mulher, mocidade, reivindicaçom

Até o momento, a vindicaçom repentista baseava-se fundamentalmente no resgate de velhas tradiçons, representadas por pessoas idosas. Na segunda década de século, e graças ao voluntarismo de certos centros educativos, como o IES Marco de Cambalhom em Vila de Cruzes, ou o IES Maximino Romero de Zas, a regueifa reencontrou-se com as mais novas. Nas Cruzes, com o papel dinamizador de Séchu Sende, pujo-se em andamento a disciplina ‘Regueifa e improvisaçom oral em verso’, que formou novas geraçons de repentistas. Projectos como ‘Regueifesta’, na Costa da Morte, ou Enreguéifate (promovido polos concelhos de Compostela, Ames, Teo e Carvalho) servírom para coordinar os membros da comunidade educativa envolvidos nesta forma de arte.

Nenos a regueifar num centro educativo de Ames (Imagem: Galicia Confidencial)

Num destes encontros, a regueifa foi reclamada como ‘um arma de construçom massiva’. A expressom nom é um exagero. Várias confluências azarosas davam força a este ressurgimento. A popularidade do rap na mocidade, por umha banda, fai a juventude receptiva a esta forma de expressom autóctone; o seu potencial para recuperar a língua fai-na umha ferramente ainda pouco explorada para o movimento normalizador; e finalmente, o auge feminista deu umha nova dimensom à regueifa. Esta desenvolveu umha fasquia especificamente feminina e reivindicativa. Grandes nomes do repentismo som nomes de mulher (Sara Marchena, Alba Maria, Lara do Ar, Silvinha…), e a sua potência de denúncia pujo-se em primeiro plano. Nos anos 2017 organizárom-se, também em Vila de Cruzes, o I e o II Encontro de Mulheres Repentistas na Galiza.

Nas páginas do Novas da Galiza, Xiám Naia tem analisado o processo que leva a regueifa a se ligar com movimentos sociais de reivindicaçom linguística e social. O repentismo hoje constitui um movimento devedor da tradiçom e, ao mesmo tempo, vive plenamente em consonáncia com os traços dumha sociedade muito distinta àquela onde a regueifa tinha sobrevivido: urbana e audiovisual, tecnológica e individualista; mas também, quanto menos nalguns dos seus sectores, rebelde contra o patriarcado e disposta a aproveitar o melhor do passado, incluindo a língua, para um futuro melhor.