A Revoluçom Galega de 1846 foi considerada historicamente polo galeguismo e o soberanismo como ponto essencial da nossa narrativa nacional. Porém, esta mesma importância para o sujeito “povo galego” na modernidade foi a que provocou a sua tergiversaçom e minorizaçom interesseira polo espanholismo de toda caste. No canto de abraiar com um poder civil galego independente que se constituiu em governo soberano o 15 de Abril, dirigido polo independentista Faraldo, focam a questom na parte militar (espanhola liberal) que fracasou no pronunciamento em todo o Estado de 2 de Abril. Destarte, procuram minimizar o impacto do movimento sobre o país e isolá-lo do contexto internacional e das causas económicas e sociais que o abeirárom.

Assim, desvinculam-no da peste da pataca de 1845 que arrasou Irlanda e que provocou a revoluçom de Maria da Fonte no Norte de Portugal no mesmo 1846. Ou que foi causa também das revoluçons da Primavera dos Povos de 1848. Para a historiografia académica/espanholista isto nada tem a ver cos acontecimentos da Galiza. Contodo, ainda o 23 de Agosto de 1856, dez anos depois e apenas 3 após a gram fame de 1853, La Oliva apanha:

<<A fame fai mal, e por isso dizia Carlos III que coa fame nom queria rem. Que o digam senom os motins de 1846 em todas as vilas do litoral da Galiza mália a pressom militar que daquela se experimentava e o carácter dócil e pacífico dos seus habitantes.>>

Coa intençom de apresentá-la como umha tolémia romântica de quatro arroutados, também se xebra a nossa revoluçom da reforma tributária de Mon-Santillán de 1845. Esta empobrecia ainda mais os labregos galegos e duplicava o que Galiza lhe tinha que pagar ao Estado. Endebém, a sua extinçom constituía um dos objetivos manifestos do governo de Faraldo. No artigo 5º do Junta Revolucionária do Governo da Galiza de 16 de Abril aparece:

<<Fica abolido o sistema tributário. Todo funcionário público ou qualquer pessoa que infringir esta disposiçom, há ser castigado com o quádruplo das quantidades que perceber para além da pena à que está sujeito polo art. 19.>>

De facto, ainda em 8 de Setembro de 1893 a Gaceta de Galicia lembrava com um ultra-espanholista artigo intitulado Paz:

<<Houvo um dia em que com motivo da aplicaçom do sistema tributário, origem de luitas, catástrofes e perturbaçons das que hoje se esquecem os que hoje apreciam com sistemático pesimismo o alcance e os efeitos das atuais reformas económicas, ergueu-se em som de rebeldia meia Espanha e a Galiza toda. Sublevárom-se as mais das cidades do Noroeste: Compostela, Lugo, Betanços, Ponte-Vedra, Vigo(…)

Um exército de perto de 8000 homens dispujo-se à resistência e por primeira vez ao berro de “Galiza independente!”, borborinhado por Romero Ortiz e proclamado a vozes em vibrantes programas polo ilustre escritor Antolim Faraldo, secretário da Junta Central de Compostela.>>

Seguramente, se Bolívar e San Martín nom dessem independizado a América do Sul, a história espanholista havia-os inserir nos movimentos liberais espanhóis com um toque americanista. Assim é como nos apresentam os revolucionários galegos do 1846, mália que desde a própria Cuba independentista de 27 de Abril de 1884, Waldo Álvarez Ínsua escrevesse em El Eco de Galicia:

<<Considerou-se mais que um pronunciamento militar em reclamaçom dumha reforma política, um levantamento provincial em contra da metrópole. E no fundo nom se carecia de verdade ao fazer tal suposiçom. A Junta Superior de Santiago, composta na sua maioria por afervoados e decididos democratas filhos da Galiza, viu um meio para reivindicar para ela a preponderância e, numha sesom acalorada, ouvindo a cada pouco os disparos da fusilaria e canhom das tropas que se batiam, acordou guindar-lhe umha proclama ao país, cuja síntese era “nom queremos ser mais que galegos.”>>

Mas o carácter arredista desse governo, ainda recolhendo no meio do seu manifesto as demandas dos militares liberais em chave espanhola que garantiam a defesa imediata e justificavam a origem do movimento, aparece claro em várias publicaçons:

<<Pergunta-nos La Región de onde tiramos que o regionalismo é novo na Galiza e para provar-nos a sua antiguidade di-nos que a Junta Central quijo há mais de quarenta anos proclamar a independência da Galiza e que em 1846 a Junta de Compostela, dizia “nom queremos ser umha colónia da Corte”.>>

El Correo Gallego, 15 de Dezembro de 1886

<<“Nom queremos ser mais que galegos” -dixo-se daquela. E os que o dixérom dam-lhe ao silêncio as suas palavras e nom possuem apenas umha para lhes lembrar aos vencedores de hoje aqueles tempos em que eram vencidos.>>

Manuel Murguia. La Oliva, Abril de 1856

<<Galiza estava perdida para o governo.>>

Juan Do Porto: Reseña histórica de los últimos acontecimientos políticos de

Galicia, Madrid, 1846

<<Nem restos ficavam daquela formosa mocidade literária que escrevera na sua bandeira pola mao de Antolim Faraldo: “abaixo as regras, as escolas e os mestres!” e que pelejaram bravamente em 1846, já nom polo regente Espartero, senom pola independência da Galiza.>>

El Heraldo Gallego, 5 de Abril de 1880.

<<(…)fijo brotar na cabeça de Faraldo a ideia dumha nacionalidade galega e da caneta do redator de El Porvenir de Santiago aquelas frases em que lhe chamava a Madrid “garamelo em que constantemente pom a cabeça algum povo para ser decapitado” e comparava o berro que deviam dar os galegos co dos varsovianos contra os russos.>>

Amador Montenegro. A Monteira, Março de 1890

E se minguada foi esta visom arredista dos factos, já nom digamos o apoio britânico ao movimento revolucionário galego, paralelo ao que receberam as independências latino-americanas. Era a tentativa do novo hegemon, o Reino Unido, por controlar definitivamente o Atlântico. Quando Tettamancy y Gaston, autor de La Revolución Gallega de 1846, escreve em El Correo Gallego sobre o tema, já em 8 de Fevereiro de 1904, ilustra a questom:

<A nova da sublevaçom da esquadrinha, solenizou-se com verdadeira fruiçom em todo o território galego; porque este acontecimento agoirava que o vapor aguardado em Vigo, carregado de fusis procedentes de Londres nom encontraria o menor obstáculo para a entrega.>>

Assim e todo, o maior esforço na distorçom histórica dirigiu-se à minorizaçom do peso destes factos na populaçom galega, na Galiza real. Para a narrativa espanhola e regionalista, todo ficou cingido a Compostela e pouco mais. Daquela, um pergunta-se como pudo ser afastado do seu cargo o alcaide de Moranha em Setembro de 1846 por dar apoio aos “acontecimentos políticos de Abril”, pondo um exemplo próximo. Ou como Júlio Ávila, um emigrante de Narom, pudo publicar isto em Buenos Aires, em Setembro de 1901, no Almanaque Gallego:

<<Entre os muitos papéis que aparecérom arrecunchados na morte de meu pai, encontramos um caderno manuscrito e em verso de 63 páginas feito aló polos anos 1847-1850, em que descreve as mágoas passadas polos doze amigos (assim se intitula o folheto) nas suas aventuras para lhe ajudar ao movimento revolucionário iniciado em Lugo e cuja Junta de Governo, da que era alma dom Antolim Faraldo, residia em Compostela. Desde ali guindárom o célebre decreto de Abril de 1846 declarando nulos todos os atos do governo de Madrid desde o seguinte dia.>>

Quiçá cumpra atender mais ao que di Murguia, testemunha direta dos factos, e algo menos ao regionalismo e ao espanholismo académicos: <<Faraldo pudo um dia proclamar a completa autonomia, numha palavra, a independência da Galiza.>>

Se queres conhecer mais sobre a Revoluçom Galega, escuita o programa de Lembra que lhe dedicamos:

https://www.ivoox.com/lembra-programa-1-a-revolucom-galega-1846-audios-mp3_rf_34977784_1.html