Porque toda história é a história da loita de classes, e um povo que perdeu a dimensom revolucionária da loita de classe, vê-se obrigado a umha perda da sua história, é um povo ao que se lhe roubou a consciência de sim próprio, é dizer, a sua dignidade”.

Carta escrita por Ulrike Meinhof em favor da liberaçom de Andreas Baader.

Ulrike foi assassinada por encarrego do Estado.

O 9 de maio de 1973 aparecia morta na sua cela, na prisom de Stammheim.

O corpo de Ulrike apareceu sem vida colgado dos lençóis do seu catre utilizados a jeito de forca.

A morte era o único destino para a dissidência política na Alemanha ocidental.

As autoridades alemás afirmaram que se suicidara, mas todos os membros das RAF presos aparecerom mortos antes que o tribunal que os julgava ditara a sentença.

Contudo o caso de Ulrike bateu com especial força nas consciências da RFA. O caso desta militante comunista reúne umhas características que fizerom abalar especialmente à sociedade alemá. De família cristá, Ulrike foi desde a infância umha estudante formal e exemplar que também tocava o violino. Já de adulta, despois de formar-se em filosofia, pedagogia, alemám e sociologia alcançaria prestigio como jornalista. Era umha intelectual reconhecida e bem valorada, mae de duas filhas pertencente à classe media acomodada em umha das potencias do centro capitalista, e que portanto, gozava dos privilégios de umha boa posiçom social. Que umha mulher da sua posiçom decidisse dar o passo à clandestinidade para empreender a luita armada contra o sistema significou tal perturbaçom que o próprio Estado alemám chegou a extrair-lhe o cérebro na sala de autópsia e guardá-lo em um frasco, sem autorizaçom família nenhuma, para estudá-lo. Outro experimento nazi, mas agora abraçado pola nova socialdemocracia europeia.

Ulrike foi desde mui nova umha militante de esquerda, implicada no movimento pacifista e anti-nuclear, que militou em diferentes organizaçons políticas como foi o KPD (Partido Comunista de Alemanha, ilegal na RFA) e a Federaçom Socialista Alemá de Estudantes, que apoiou a APO (Oposiçom Extra-parlamentária), e empregou o seu posto de redatora na revista política Konkret para dar-lhe apoio. Mas passar desta militância política a viver nas margens, passar de disfrutar de uns direitos e empreender a luita armada contra o Estado e o Capital por que nom todo o mundo desfrutava deles, há um abismo. Superar este abismo, ir além deste limite supunha nom volver atrás, implicava opor-se com todo o seu ser à cotidianidade das injustiças.

Mas antes de dar o salto à luita armada, experimentou umha evoluçom política que fica de manifesto nos escritos que publicou durante os anos 60 na revista Konkret. Em 1964 escreve um artigo titulado “Mal menor” onde chega a afirmar que “o SPD (Partido Socialdemocrata) nom é o mal menor, é umha necessidade” para frear à direita. Pouco tempo despois, no ano 1967 escreve estas palavras na mesma revista: “A institucionalizaçom do descontentamento adormece a gente mais do que a mobiliza, dá-lhes a sensaçom de que já há outros que amanharám as cousas, dá-lhes boa consciência, os dispensa de atividade e responsabilidade próprias, renova o miragem de que é inevitável ser umha pelota com a que jogam outros, justifica para muita gente o seguir pechados na vida privada, consolida a ignorância da funcionalizaçom do comportamento privado para fins públicos”. E evoluçom ideológica é clara.

Decide unir-se à Fraçom do Exercito Vermelho (RAF polas suas siglas em alemá) em um clima de mobilizaçom constante, de greves à margem da burocracia sindical, de manifestaçons contra as leis de exceçom, de atos contra a guerra de Vietnam. Decide dar o salto num momento em que se discutia nos movimentos obreiros e estudantís a necessidade da luita armada como estratégia revolucionária para vencer ao sistema capitalista. Ela provavelmente fora consciente de que umha vez que dera o passo, o seu fim mais provável fora a prisom, o exilio ou a morte. E assim foi.

Estas palavras, longe de querer ser umha análise da sua vida ou do seu pensamento, querem ser só umha simples lembrança a umha mulher que luitou até as ultimas consequências, umha homenagem à coerência política e à dignidade.