A crítica usual da objetividade é que ela nom existe. Desde o primeiro minuto que um se senta para escrever a primeira linha de umha história, está fazendo juízos de valor, selecionando e omitindo cousas. Além disso, a própria natureza da percepçom faz dela umha experiência predominantemente subjetiva. Nós nom somos apenas receptores passivos que absorvem um fluxo de imagens e informaçom. A percepçom converte estímulos organizados e dados em unidades compreensivas. Em umha palavra, a percepçom em si é um ato de ediçom seletiva.

As diferenças e distorçons que surgem som devidas nom apenas a preconceitos de percepçom, mas estám enraizadas na sua própria fisiologia. Foi recentemente relatado que algumhas pessoas, cegas de nascimento, foi-lhes restaurada a sua visom por médio de novas técnicas cirúrgicas. Um dos resultados inesperados foi que, embora os mecanismos fisiológicos da visom tenham sido reconstruídos, os pacientes ainda nom conseguiam ver demasiado. Podiam adivinhar formas vagas e sombras, mas nom podiam distinguir objetos específicos e imagens. Os investigadores chegaram à conclusom de que nom vemos cos nossos olhos, mas cos nossos cérebros, e os cérebros dessas pessoas privadas de visom nom desenvolveram a sua capacidade de organizar a percepçom visual.

Também em contra das manifestaçons fáceis de objetividade está o entendimento de que todos nós temos a nossa própria maneira de ver as cousas. Todos nos parecemos uns a outros em algumas cousas básicas, mas nom há duas pessoas exatamente iguais. Há umha parte da nossa experiência perceptiva que é formada de maneira idiossincrática, localizada exclusivamente dentro de nós mesmos.

Mas isto nom deveriamos subestimá-lo. Mesmo nesta era de hiperindividualismo, a percepçom nom é inteiramente, ou mesmo principalmente, idiossincrática. Os seletores e filtros mentais que usamos para organizar a nossa entrada, geralmente nom som nossa criaçom. A maioria das nossas percepçons aparentemente pessoais som formadas por umha variedade de cousas externas a nós, como a cultura e a ideologia dominante, as crenças éticas, os valores sociais, as informaçons disponíveis, a nossa posiçom dentro da estrutura social e os nossos interesses materiais. Em relaçom à influência dos nossos interesses materiais nas nossas percepçons, podemos recordar a cita de Upton Sinclair: “É difícil para um homem entender algo quando o seu salário depende de que nom o entenda”.

Em 1921, Walter Lippmann sinalou que gram parte da percepçom humana é culturalmente pré-configurada. “A maioria de nós nom vemos primeiro e depois definimos, primeiro definimos e depois vemos. Na florescente e retumbante confusom do mundo exterior, nós recolhemos o que a nossa cultura já definiu para nós, e tendemos a perceber que o que temos recolhido de umha forma estereotipada para nós, é pola nossa cultura”. As ideias e percepçons que sustentam o clima de opiniom dominante som mais fáceis de serem aceitas como objetivas, enquanto as que chocam com ela geralmente as consideramos como algo além dos limites e carecem de credibilidade. Portanto, mais frequentemente do que imaginamos, aceitamos ou rejeitamos umha ideia dependendo da sua aceitabilidade dentro da cultura dominante. De modo semelhante a Lippmann, Alvin Gouldner escreveu sobre as “presunçons de fondo” da cultura, que som os fatores mais importantes de nossas percepçons. A nossa vontade de aceitar algo como verdadeiro, ou rejeitá-lo como falso, descansam menos nos seus argumentos e evidências e mais sobre como se alinha com as ideias preconcebidas incluídas nas ideias dominantes, presunçons que interiorizamos devido à sua exposiçom contínua. Na nossa cultura, entre os que configuram a corrente dominante, esta unanimidade de sesgo implícito considera-se “objetividade”.

Hoje, raramente nos referimos às presunçons de sesgo de Gardner, mas um termo equivalente pode ser o “paradigma dominante”. Um paradigma é umha estrutura teórica científica básica a partir da qual podem ser derivadas e testadas hipóteses-chave. Na maneira de falar popular o paradigma dominante simplesmente se refere à ortodoxia que predetermina os conceitos e etiquetas que tenhem credibilidade e quais nom. É a ortodoxia da pessoa educada.

Se o que passa por ser objetividade é pouco mais que um entorno simbólico de auto-confirmaçom culturalmente definido, e se a verdadeira objetividade, qualquera que puidera ser, é inatingível, pareceria que estamos presos em um subjetivismo em que um paradigma é tam crível (ou incrível) como outro. Enfrentamo-nos com a infeliz conclusom de que a investigaçom para a verdade social supom pouco mais do que escolher entre umha variedade de configuraçons simbólicas ilusórias. Como David Hume argumentou há dous séculos, o problema do que constitui a realidade nas nossas imagens nunca pode ser resolvido, porque as nossas imagens apenas podem ser comparadas com outras imagens e nunca com a verdadeira realidade.

Podemos pensar algumha vez que umha opiniom subjetiva, imperfeita, é melhor que outra? Sim, embora seja umha regra grosseira; as opinions dissidentes que som menos confiáveis desde o punto de vista do paradigma dominante som mais propensas a serem postas em dúvida energicamente. As pessoas consideram a opiniom heterodoxa com ceticismo, assumindo que nunca terá possibilidades de ser ouvida. Tendo sido condicionados a maioria das suas vidas pola ortodoxia da corrente principal, estám menos inclinados a prestar o seu interesse de forma automática e sem pensa-lo a umha análise que nom lhes é familiar, que nom encaixa co seu entorno. Entom tornam-se em auto-censores e desconectam. Se houver a eleiçom a considerar umha nova perspectiva ou usar velhos argumentos contra ela, é notável como rapidamente as pessoas escolhem os velhos argumentos. Tudo isto provoca que dissentir seja muito mais difícil, mas muito mais urgente.

A gente que nunca se queixa da ortodoxia da sua educaçom política é a primeira em queixar-se da “correiçom política” dogmática de qualquer pessoa que a ponha em dúvida. Longe de procurar umha diversidade de opinions, defendem-se de serem expostos a tal diversidade, preferindo deixar inamovíveis as suas opinions políticas convencionais.

Umha vez dei um curso para pessoas de classe média na Universidade de Cornell. No médio do curso, alguns alunos começaram a reclamar de que apenas viam um lado, umha perspectiva. Eu apontei que na verdade as discussons em classe incluiam umha variedade de perspectivas e algumhas das leituras eram do mais comuns. Mas o certo era, há que admiti-lo, que o conteúdo predominante das aulas e as leituras que lhes encarregava eram substancialmente críticas cos médios de comunicaçom da corrente principal e co poder das corporaçons em geral. Entom, perguntei-lhes: “Quantos de vos têm estudado estas perspectivas nos seus muitos outros cursos de ciências sociais?” Dos quarenta estudantes -a maioria eram veteranos que tinham recebido muitos outros cursos de ciência política, economia, história, sociologia, psicologia, antropologia e comunicaçom de massas- ninguém levantou as maos (umha medida do nível de diversidade ideológica de Cornell). Entom perguntei: “Quantos de vos se queixarom aos outros professores que só viam um lado? Novamente nom se levantou nenhuma mao, o que animou a dizer: “Portanto, o seu protesto nom é realmente porque só vejamos um lado, mas porque, pola primeira vez, estám saindo dum lado e estám sendo submetidos a outros ponto de vista, e nom gostam disso”. A sua petiçom nom era investigar a opiniom heterodoxa, mas isolar-se dela.

Desprovido das presunçons do seu entorno e do sistema de crenças dominantes, o punto de vista que se desvia soa a demasiado improvável e demasiado controvertido como para ser considerado umha ideia equilibrada ou umha opiniom confiável. As visons convencionais encaixam tam confortavelmente no paradigma dominante que se consideram afirmaçons sem discussom, como “a natureza das cousas”. A verdadeira eficácia da manipulaçom da opiniom reside no fato de que nom sabemos que estamos sendo manipulados. As formas mais insidiosas de opressom som aquelas que se insinuam no nosso universo de comunicaçons e nos recessos das nossas mentes sem darmos conta de que estám agindo sobre nós. As ideologias mais poderosas nom som as que sobrevivem a todos os ataques, som aquelas que nunca som atacadas, porque, na sua onipresença, aparecem apenas como umha verdade nua e crua.

Umha opiniom nom ortodoxa oferece a oportunidade de provar a ortodoxia dominante. Abrenos a argumentos e informaçom que aqueles que mantenhem o paradigma dominante malinterpretarom ou ignorarom completamente. A opiniom divergente nom é apenas umha opiniom entre muitas. A sua tarefa refuta a ideologia vigente e amplia as fronteiras do debate. A funçom da opiniom estabelecida é exatamente o oposto, mantendo os parâmetros do debate o mais estreitos possíveis.

Fragmento do livro “The culture Struggle”. Traduçom do galizalivre.com