Temos o dever com as futuras geraçons para garantirmos que nossa revoluçom nom seja reescrita

“Quando as mulheres jovens foram presas durante todo o conflito, neste estado, na Grã-Bretanha e nos seis condados, elas sabiam que estavam seguindo os passos das mulheres de 1916. Nós éramos republicanas nos moldes de Markievicz. Nós éramos o que éramos. Nós somos o que somos. Republicanas jamais avergonhadas e sem arrependimento; até hoje e para sempre. “

Fum convidada para falar neste evento porque sou uma mulher ex-PoW.

Na minha opiniom, nom há nada de extraordinário nisso, porque eu sou apenas umha entre muitas. Há centenas de mulheres em todo o país que suportaram o encarceramento por causa de seu republicanismo – e que carregam esse passado com orgulho.

Há mulheres ao nosso redor hoje que demonstraram bravura que seria considerada bem acima do seu dever em qualquer outra andaina da sua vida. E há milhares que viveram quietamente suas vidas e nunca contaram a ninguém as cousas que fizeram para promover o republicanismo.

E hoje estamos aqui para homenagearmos a memória de Constance Markievicz, umha das mulheres republicanas mais famosas da história recente da Irlanda; umha mulher reverenciada igualmente por historiadores e revisionistas, e umha mulher que acreditava e participava do republicanismo da força física.

Constance Markievicz nom pensou duas vezes em pegar em armas e declarar guerra ao Império Britânico. Tampouco tinha dúvidas sobre ensinar jovens membros do Fianna a luitar e portar armas. E ela é justamente aclamada como umha heroína por assumir essa posiçom; mas as mesmas pessoas que a reverenciariam, em um piscar de olhos, condenariam alguém como mim e a outras como fum eu, e desprezariam essas mulheres por nosso papel republicano de honra, e afirmariam mesmo que há umha diferença.

Mas eu me pergunto se eles poderiam me dizer a diferença entre Constance Markievicz, que declarou em 1915 que:

Ultimamente as coisas parecem estar mudando… entom, novamente, umha forte onda de liberdade parece estar vindo em nossa direçom, inchando e crescendo e carregando diante de si todos os postos avançados que mantêm as mulheres escravizadas, e levando-as triunfalmente à vida da naçom à qual elas pertencem.”

E as palavras da voluntária Mairéad Farrell quando afirmou em 1986:

Sou oprimida como mulher… sou oprimida como irlandesa. Todos neste país som oprimidos e, no entanto, só podemos acabar com a nossa opressom como mulheres se acabarmos com a opressom da nossa naçom como um todo. E as mulheres de hoje já passaram tantas que nom deixam as cousas acontecerem mais. Espero que ainda esteja viva quando os britânicos forem expulsos, depois a luita recomeça.

E adoraria que os revisionistas, que elogiaram Constance Markievicz e condenam Mairéad Farrell, me explicassem a diferença entre as circunstâncias que levaram os republicanos em 1916 a atacar o Império Britânico e os republicanos em 1969 e 1970 que pegaram em armas para defenderem pequenas comunidades como a minha – apanhadas nas margens do lealismo a leste de Belfast, submetidas a pogroms sectários, ignoradas por um governo britânico e forçadas a viver sob um estado que nom nos quis ou aceitou.

Marie Moore, natural de Clonard, umha veterana da luita republicana e a primeira vice-prefeita de Sinn Féin em Belfast, falando de sua vida de republicanismo, é cá lembrada;

A comunidade em que nasci sofreu o crime de separaçom e foi mantida por discriminaçom e medo sectários… umha pequena minoria, os republicanos, recusaram-se a ser humilhados e passaram o facho da resistência de geraçom em geraçom. … Nom estou surpresa por ter me tornado umha ativista republicana … ”

Onde estavam os revisionistas quando milhares estavam sendo queimados e suas casas desfeitas; quando mães assustadas arrastavam crianças aterrorizadas em ônibus e trens e eram forçadas como refugiadas do outro lado da fronteira, esperando por ajuda e segurança em outro estado que nos abandonara, e que também nem nos quiseram nem nos aceitaram?

Quando aqueles que reverenciam a filantropia e o trabalho de Constance Markievicz entre os pobres de Dublin estam celebrando sua vida, mas você se pergunta se eles já pensaram no que ela teria feito se estivesse lá quando as centenas de refugiados do “norte negro” se derramaram fora de seus ônibus com suas escassas pertenças em malas maltratadas?

Eles acham que ela teria ficado parada e que nom fez nada?Eu sei que nenhum de nós pode falar pelos mortos; nenhum de nós sabe o que o outro teria feito, mas sabemos o suficiente sobre ela para chegar a nossas próprias conclusons; e eu gostaria de pensar que ela teria sido tanto líder agora quanto era entom.

Seu compromisso e seu legado foram um exemplo para jovens mulheres como eu, quando eu estava crescendo em Belfast. Ela inspirou-nos. Ela deu-nos aspirações para viver. Ela deu um exemplo. E parte desse exemplo foi nunca recuar.

Nós conhecíamos a história dela. Nós sabíamos que ela pegou em armas. Sabíamos que ela era umha comandante do IRA. E aspiramos a ser como ela.

Ela também era prisioneira de guerra, e quando as mulheres jovens foram presas durante todo o conflito, neste estado, na Grã-Bretanha e nos seis condados, sabiam que estavam seguindo os passos das mulheres de 1916. Éramos republicanas nos moldes de Markievicz. Nós éramos o que nós éramos. Nós somos o que somos. Republicanos jamais avergonhados e sem arrependimento; até hoje e para sempre.

E nenhum opositor político ou revisionista me dirá, e a todos aqueles milhares como eu, que eu deveria mesmo ter vergonha disso.

Mas a ironia é que as pessoas que som tam rápidas em condenar os republicanos de hoje por tomarem as decisões que tomamos, nunca consideraram o que levou tantos homens e mulheres irlandeses, jovens e velhos, a percorrerem as duras estradas por onde caminhamos. 40 anos conturbados. Nós nom fizemos isso por fama ou fortuna. Nós fizemos isso porque era a cousa certa a fazer.

Sempre há razões e circunstâncias por trás das decisões das pessoas; e precisamos tanto hoje considerar esses rumos, como fazemos com as dos homens e mulheres de 1916. As circunstâncias e a história moldaram todos nós. Isso é inegável.

Ao longo das décadas, as mulheres republicanas estiveram na vanguarda das luitas na Irlanda; no movimento de Suffragettes, nos movimentos trabalhistas, na Liga Gaélica e em muitas outras organizações – assim como as mulheres republicanas hoje estam profundamente envolvidas em todos os aspectos da vida cotidiana e nas organizações que trabalham para melhorar a vida das pessoas.

Em todas as fases da luita, as mulheres assumiram riscos. Desde o envolvimento na campanha de fronteira dos anos 50 até aquelas que quebraram o toque de recolher nas quedas da noite e carregaram armas e muniçom debaixo de seus casacos, carrinhos de bebê e sacolas de compras.

E também conhecemos muitos que perderam seus entes queridos e suas próprias vidas, com balas de plástico, borracha e letais; em serviço ativo para o IRA, e por esquadrões de assassinato do Estado e dos britânicos.

Todos nós conhecemos mulheres que andaram pelas ruas envoltas em cobertores, descalças, na chuva e na neve, para destacarem a situaçom dos prisioneiros nos H-Blocks e Armagh; a que contrabandeou comunicações, cartas de amor e muito mais para dentro e para fora das prisões; e as que marcharam às centenas para os degraus de Stormont quando o Sinn Féin foi impedido de falar, exigindo seus direitos e representação.

Há mulheres que viajam todas as semanas, durante anos, para visitar seres queridos aprisionados neste estado, nos seis condados e na Grã-Bretanha, na maioria das vezes com crianças pequenas a reboque. A dificuldade das famílias dos prisioneiros é frequentemente esquecida, e a prisom afetou milhares e milhares de pessoas em toda a ilha, nom apenas os próprios prisioneiros.

Mulheres republicanas corajosas eram candidatas ao Sinn Féin no início dos anos 80 e 90, quando em conselhos locais ao longo dos seis condados elas foram difamadas e submetidas ao mais vil dos abusos sectários e ameaças de morte.

E tenho orgulho de dizer que a temeridade daquelas que lideraram o caminho valeu a pena em dividendos.

As mulheres republicanas foram eleitas nas suas centenas – vereadoras, MLAs, TDs, MEPs, Senadoras e incluindo – ouso dizer – três mulheres muito orgulhosas e muito capazes. As deputadas estám a seguir os passos da primeira mulher parlamentar eleita para ocupar escano na Casa Britânica dos comuns; a primeira abstencionista Sinn Féin MP, a condessa Constance Markievicz.

E ainda assim, há pessoas nos dizendo hoje que nossos deputados do Sinn Féin, eleitos por milhares de cidadãos irlandeses cheios de conhecimento de que, como Markievicz eles nom tomariam assentos ou jurariam um governo estrangeiro, deveriam tomar assentos em um parlamento britânico. Neste parlamento, ou melhor ainda, demitir dos assentos e oferecê-los a outros que estam mais do que dispostos a tirar seus vales e fazer um juramento de defender um monarca inglês.

Essas pessoas ainda se ouvem a si mesmas?

Essas mesmas pessoas, que até estam nos ensinando, sem dúvida estaram elogiando Constance Markievicz por sua parte no nascimento da naçom, com toda a sua história de abstencionismo e de republicanismo da força física.

Eles genuinamente nom entendem a ironia?

E acham que os nossos apoiantes, aqueles que acorrem às urnas aos milhares para devolverem posto para os representantes eleitos do Sinn Féin, nom aspiram à meta de Markievicz, de umha república democrática que valoriza igualmente todas as crianças da naçom?

Onde está a igualdade para os nacionalistas nos seis condados? Onde está o respeito pelo mandato democrático de milhares e milhares de pessoas que ainda têm de ter seus direitos corretamente respeitados no Estado Unionista construído e mantido por sectários? Onde está o apoio ao nosso mandato democrático?

Onde está a aspiraçom de cuidar igualmente de todos os filhos da naçom? Ou eles nom nos consideram parte dessa naçom? Eles precisam ter em mente que, quando a Proclamaçom estava sendo escrita, nom havia fronteira na Irlanda – dura ou mácia.

Eles também precisam ter em mente que nom há umha narrativa única para esse conflito.

Sim, as pessoas foram feridas, de ambos os lados, e aqueles que estam tentando rever a história do IRA de 1916, também estam tentando rever a história do IRA desta fase da luita; para apresentarem apenas um lado e só um lado.

Como mulher republicana, tenho orgulho da rica história das mulheres irlandesas que podemos reivindicar, e muitas aqui hoje faziam parte dessa história. E eu estou orgulhosa e admirada com aquelas mulheres que perderam suas vidas como parte dessa luita.

Infelizmente, ao longo das décadas de nosso passado conturbado, as pessoas que nada sabem sobre o que passamos estam escrevendo e reescrevendo nossa história.

Nom podemos permitir as lembranças de nossos mortos, as histórias de vítimas nacionalistas e republicanas e a história de repressom e opressom que levou os jovens novamente a pegar em armas, da mesma forma que Constance Markievicz e Tom Clarke e Pádraig Pearse e todos os outros em 1916 que pegaram em armas, vir sendo retocadas da nossa história.

E talvez um dia estaremos em um lugar onde as circunstâncias que levaram a essas decisões sejam reconhecidas e aceitas.

Porque, tenham certeza, nenhuma de nós acordou umha manhã e decidiu por um capricho para pegar em armas, para colocar nossas vidas na linha de risco, para enfrentarmos a prisom e a morte.

Há sempre razões pelas quais as pessoas tomam as decisões que fazem; mas algumhas pessoas simplesmente se recusam a ver ou aceitar isso.

Nós conhecemos essas razões; e non precisamos de palestras de pessoas que nom andaram em nossos sapatos.

Até entom, vamos concordar em aceitar que a igualdade e os direitos nom ferem ninguém, e concordar que o que a Constance Markievicz buscou, o desejo de “cuidar de todos os filhos da naçom igualmente” é algo que todos nós devemos aspirar.

Temos o dever com as futuras gerações para garantirmos que nossa revoluçom nom seja reescrita.

Precisamos ter certeza de que nossos jovens saibam por que e de onde vem nossa história de luita; para lembrar, educar e ver que isso nunca mais volta acontecer; para garantir que as mulheres jovens continuem a se inspirar em Constance Markievicz, por sua bravura, sua filantropia e seu trabalho para os menos favorecidos.

Mas também precisamos garantir que as circunstâncias que levaram ela e as futuras republicanas a ver a necessidade de pegar em armas nunca mais voltem a acontecer.

*Publicado em An Phoblacht com o título’ We have a duty to future generations to ensure our revolution isn’t rewritten. Traduçom do galizalivre.