Infelicidade e medicalizaçom da vida: o caso galego (I)

Por Sabela Castro /

Indicam os dados estatísticos sobre a saúde mental na Galiza um problema sócio-político de fundo? Ou som pola contra, como aponta a oficialidade médica e mediática, apenas sintomas de milhares de problemas individuais azarosos? Iniciamos umha reportagem por entregas sobre esta questom candente.

Recentemente a imprensa comercial noticiava que, segundo dados do último barómetro do CIS, a Galiza registava as piores cifras de bem estar mental do Estado espanhol. Asinha diferentes profissionais do grémio da saúde mental comparecêrom para assinalar que se tratava de umha mostra pouco representativa ; com isso e contodo, ainda reconhecendo que no estado de ánimo e na percepçom de bem-estar som importantes elementos como os níveis autoestima, a emigraçom ou a pobreza.

Esta notícia saltava à imprensa meses depois de que se conhecesse um aumento muito preocupante no consumo de psicofármacos no nosso País. O mesmo jornal noticiava, desta volta no mês de Julho, que o consumo de fármacos antidepressivos na Galiza aumentou nos últimos 5 anos por volta de um 50 %. Situamo-nos, perto de Astúrias, mui por cima da meia estatal. Dentro de estas mesmas cifras este consumo também é feito em maior medida por mulheres. Isto fai com que na Galiza esteja medicada só por depressom por volta de quase o 10 % da populaçom. No caso dos tranquilizantes para dormir a cifra ascende ao 15 % da povoaçom. Que é o que nos está a acontecer ?

A psicologizaçom da vida. Patologias como sintomas de problemas sociais

Umha das teses elaboradas por parte de diferentes estudiosos e movimentos contestatários contra a orde psiquiátrica actual é que se individualizam e transformam em problema íntimo e patológico situaçons derivadas da estructura económico-social em que vivemos. Desta maneira, convidam-nos a dar-lhe umha releitura a todas as interpretaçons e etiquetas que se dam às diferentes queixas e problemas das pessoas.

O grupo de contrapsicologia Versus considera que este processo de individuaçom tem lugar desde o triunfo da burguesia no século XIX. Num contexto onde se fundam os primeiros hospitais psiquiátricos, a loucura medicaliza-se e o objectivo final é educar as povoaçons para fazê-las mais funcionais. É o que defende também o sociólogo francês Robert Castel, autor de numerosos livros e reflexons sobre o tema. Para ele, desde a caída do Antigo Regime hai umha imparável extensom dos códigos psicológicos na sociedade. Isto acompanha-se também desde a II Guerra Mundial com o imperativo moral de estar sam e jovem. Esta paulatina introduçom de códigos psicológicos na populaçom, que nom som outra cousa mais que modelos de conduta, acompanha-se e tem como pano de fundo a eliminaçom de vínculos sólidos na sociedade e o esfarelamento da conciência de classe. É o que defende com firmeza o psiquiatra asturiano Guillermo Rendueles, quem assinala queo mal-estar nom depende da psique individual das pessoas, mas das relaçons de exploraçom e submissom ao imaginário de desejos que nos fai viver por cima das nossas possibilidades com modelos de classe média. É a amarga realidade que a populaçom trabalhadora se nega a ver”.

É este mesmo autor o que nos informa de umha curiosa coincidência que nom é casual. Elton Mayo foi um psicólogo americano que deu cobertura através da sua obra à ideologia taylorista e à liquidaçom da cultura de classe nas grandes indústrias americanas. Este homem reconverte qualquer umha queixa contra o patrono em projecçons de umha má imagem familiar : o mal-estar na fábrica viria a ser, nas suas entrevistas em formato psicodinámico com obreiros, umha espécie de rencor transladado à fábrica, mas com raíz no familiar. O malestar obreiro foi individualizado e etiquetado de resentimento ‘pessoal’.

Existe toda umha tradiçom anti-psiquiátrica, que tivo o seu apogeu nos anos 70 na luita contra o manicómio e a medicalizaçom extrema da loucura, que considera a patologia mental como algo externo ao indivíduo. Num sistema doente como o capitalista, certas relaçons sociais generam deterioramento do indivíduo e levam-no à patologia. Para Josep Arnau, um trabalhador social que escreveu vários textos agrupados sob o título Escritos contrapsicológicos de un educador social, um sistema como o capitalista é directamente ‘demente’ ; a a exploraçom da natureza, a visom de as outras pessoas como instrumentos, autoritarismo e culto ao dinheiro conformam um quadro nocivo para a saúde, também a mental.

Frente a estas teses, que nos achegam a um análise crítico do sistema onde vivemos, irrompem as formulaçons triunfadoras biologizantes e ‘internas’ dos problemas mentais : a pessoa é responsável pola sua disfunçom e é desde o íntimo e ausência de crítica social desde onde se tratam os problemas. Dizemos teses triunfadoras porque o próprio movimento anti-psiquiátrico se sente em boa parte derrotado e porque hoje na sociedade em que vivemos o mal-estar, maioritariamente, medicaliza-se sem maior reflexom ou crítica, por parte de medicina e pacientes.