Auto-ódio

Por Ismael R. Saborido /

Quando alguém fala de auto-ódio, traço que nom é exclusivo do povo galego como já analisaram autores como Albert Memmi ou Frantz Fanon, a maioria das vezes é para tratar de explicar a diglossia que sofre umha parte importante da populaçom galega. É o motivo polo qual umha pessoa deixa de utilizar a própria língua para utilizar umha língua que tem um status social e político superior, no caso galego, o espanhol. Mas este sentimento, o auto-ódio, manifesta-se em muitos outros âmbitos.

Quando recebemos com elogios de bom gosto que o bar de moda utilize palés de obra como mesas, imitando a decoraçom dos locais hipsters das principais cidades europeias, mas qualificamos de feismo que um camponês recicle umha banheira para recolher agua da chuva e dar de beber às suas vacas, também é auto-ódio.

Quando tomar um whisky ou pedir um Martini é algo com glamour mas beber aguardente nom o é, fugindo de romantizar o consumo de álcool ou outras drogas, também é auto-ódio.

Que a raça de cam própria da Galiza, o cam de palheiro, chegasse a ser um desqualificativo, a ser sinónimo de falta de “pureza” e de qualidades, e a ser utilizada para referir-se à mistura de raças dum cam, também é por causa do auto-ódio.

Quando consideramos que o blues ou o jazz som estilos musicais de prestígio enquanto a muinheira é desvaslorizada, também é auto-ódio. Ambas músicas provenhem das classes populares e como disse Sés, a diferença entre um blues e umha muinheira é que as maos que tocavam blues recolhiam algodom enquanto as maos que tocavam muinheiras recolhiam patacas.

Também no âmbito académico. Como exemplo, as jornadas organizadas recentemente polo Conselho da Cultura Galega para comemorar o bicentenário do nascimento de Marx. Estas jornadas eram um desfile de teóricos marxistas espanhóis. Polo visto na Galiza nom há quem saiba de marxismo que tenhem que vir de Espanha a ensinar-nos.

E mesmo nas filas do nacionalismo galego se filtra muito auto-ódio. Ainda estám a ressoar na minha cabeça as palavras dum líder do BNG quem dissera há uns anos que o problema da Galiza era a gente. Semelha que o povo galego nom estava à sua altura. Sim, isso obviamente também é auto-ódio. Ou quando, desde esse mesmo partido solicitam a diário que o Estado Espanhol reconheça a Galiza como agente político próprio. Necessitam que eles nos reconheçam.

Mas o motivo polo que decidi escrever de auto-ódio é umha noticia que saia hoje em todos os jornais galegos. Ana Pontón e Ana Miranda visitavam ontem a Oriol Junqueras na cadeia de Lledoners. É elogiável que se solidarizem com os presos políticos cataláns mas é de rigor perguntar-se por que nom fam o mesmo com os presos políticos galegos. Porque na Galiza também há presos independentistas. Eduardo Vigo, Roberto Rodríguez Teto e Raul Agulheiro, por nomear a três deles, levam anos presos por motivos políticos sem que as líderes do BNG os visitassem. Nem sequer tiverom cabida nas declaraçons que fizerom à saída da visita.

O auto-ódio chega a níveis incríveis. Por nom valer, nom valem nem os nossos presos. Temos que ir busca-los fora.