O assalto ao jogo

"Jogo de crianças" Quadro de Pieter Brueghel pintado em 1560 onde representa crianças a jogar a 84 jogos diferentes.

Por Federico Corriente e Jorge Montero (Traduçom do galizalivre) /

Se bem os jogos tenhem acompanhado à Humanidade ao largo de toda a sua história, o submissom do mundo à lógica da mercancia carretou um salto sem precedentes contra todo tipo de atividades lúdicas e festivas. Muitas delas virom-se abocadas à pura e simples extinçom, enquanto outras logravam sobreviver como passatempos semiclandestinos ou arrinconados como reminiscências do passado. Em qualquer caso, a dimensom lúdica da vida social, que em épocas anteriores desempenhou um papel fundamental na existência das comunidades humanas, viu-se alterada e suprimida coma nunca antes.

Algo moi parecido, e nom é de nenhum jeito coincidência, sucedeu coas festividades. As grandes celebraçons dos povos nom civilizados, assim como as festas da Antiguidade clássica ou o Entroido medieval, que constituíam momentos essenciais na vida dessas comunidades, ficarom reduzidas nos nossos dias a umha festividade banal e pseudo-transgressora, que nom só nom produze umha anulaçom temporal do mundo quotidiano, mas que é umha prolongaçom de este por outros médios.

As celebraçons dos povos arcaicos tinham um caráter unitário, polo que aos cultos sérios sucediam-lhes outros mais desenfadados, nos que os deuses se convertiam em objetos de mofa e escárnio. Coa gradual desapariçom da comunidade arcaica e a consolidaçom das divisons sociais próprias da polis, esta concepçom unitária do mundo vai eclipsando-se e surge a excisom entre o sério e o satírico, que dá passo à contraposiçom entre umha esfera do sagrado, na que se alojará o atletismo ritual, e umha esfera profana à que fica confinada o jogo, excisom que reflexa à sua vez a separaçom entre a cultura aristocrática e a cultura popular. A seriedade e a formalidade de hieráticas processons a distintos santuários substituíram ao desenfreio e à desordem geral das antigas festas. Os jogos olímpicos, fundados no santuário de Olímpia som um caso nítido de jogo sagrado que sanciona a separaçom e a desigualdade entre os homens. A prática da cultura física ficou restringida à aristocracia e logo estendeu-se aos novos ricos das colônias, enquanto os estratos populares permaneciam à margem, divertindo-se com jogos e danças que seguirám conservando, de forma clandestina e despojada de caráter público, os rasgos que caracterizam aos jogos e às festas primigênias.

Durante séculos, em toda Europa seguirom existindo e celebrando-se festas e costumes pagãs, sobre todo entre o povo raso. Este é o caso do Entroido, festa que deriva das antigas Saturnais e que na Idade Media constituía a celebraçom mais importante do ano. O Entroido, que tinha umha duraçom de três meses e se prolongava desde o Natal até a Quaresma, era o tempo da festa, do jogo e da liberaçom das restriçons. Suponha umha espécie de obra coletiva de teatro, representada nas ruas, nas praças públicas e, finalmente em toda a cidade, transformada num cenário sem limites onde se suspendiam temporalmente as relaçons hierárquicas numha atmosfera de transgressons nas que se infringiam as normas, se volatilizavame as proibiçons e se permitiam todos os excessos. No Entroido nom existia a separaçom entre atores e espetadores; todos participavam e ninguém ficava excluído, posto que se tratava dumha celebraçom de toda a comunidade onde a vida mesma se interpretava como jogo, e na que o jogo era indissociável da vida real.

Trás a Reforma protestante, a Contrareforma e o conseguinte derrube da unidade católica na segunda metade do século XVIII, produzirá-se um declive tanto da festa coma do resto de divertimentos, jogos e bailes populares. Muitas festividades proibirom-se e deixarom de tolerar-se, e embora o Entroido nom desaparecesse, começou a institucionalizar-se e a privatizar-se, convertendo-se numha festa oficial que habitava o suntuoso espaço dos palácios, dos templos e as cortes, e que tinha muito de luxo, mas já mui pouco de festa pública e popular.

Começa assim um lento processo de assedio, persecuçom e proibiçom daquelas festividades e divertimentos do povo raso (festejos que cada vez mais amiúdo ocasionarám tumultos, desordens e enfrentamentos com a autoridade) cujas falta de limites e normas supom um obstáculo para a consolidaçom dum poder que pretende controlar e vigiar como nunca antes aos seus súbditos.

Trás a ascensom da burguesia, a partir do século XVIII, começa um progressivo declive da festa, que se encaminha a passos agigantados cara a sua ruina no século XIX, coa consagraçom da moral utilitária e a ética do trabalho do novo ordem industrial, que apenas deixará espaço nem tempo para os jogos e os divertimentos. Resulta do mais revelador que fora precisamente neste período quando se colonizarom gram multidom de jogos tradicionais para reforma-los e convertê-los em desportos. No transcurso do século XX, a evoluçom cara o denominado desporto de massas ou desporto-espetáculo devolveu dados nom menos concluintes arredor da natureza profunda da sociedade contemporânea. Na atualidade o desporto deixou de ser um espelho na que se reflete a sociedade contemporânea para converter-se num dos seus principais eixos vertebradores, até o punto de que se poderia dizer que já nom é a sociedade a que constitui o desporto, mas este o que constitui à sociedade. O desporto é a teoria geral deste mundo, a sua lógica popular, o seu entusiasmo, o seu complemento trivial, o seu léxico geral de consolo e justificaçom: é o espírito dum mundo sem espírito.

* Prólogo ao livro Citius, altius, fortius. El libro negro del deporte.