Marxismo e feminismo: história e conceitos

Silvia Federici (traduçom do Galizalivre)/

Neste momento em que a nível mundial se sente a necessidade dumha mudança, económica, social e cultural, cumpre termos presentes os principais problemas da relaçom entre marxismo e feminismo. O primeiro passo é analisar o que entendemos por marxismo e por feminismo, para depois unir estas perspectivas, o que nom só é possível mas totalmente necessário para essa mudança pola que trabalhamos. Este processo de cruzamento tem que resultar numha mútua redefiniçom.
Mesmo se entendermos o marxismo como o pensamento de Karl Marx, e nom como os usos que se figérom posteriormente das suas ideias ou como, por exemplo, a ideologia da URSS ou China, no mesmo pensamento de Marx já existem muitos elemento da sua concepçom de sociedade e do capitalismo dos que nos cumpre liberar-nos; assemade temos de recuperar o que resulta útil e importante hoje em dia da sua teoria da história e da mudança social. E é que Marx contribuiu enormemente ao desenvolvimento do pensamento feminista, entendido este como parte dum movimento de liberaçom e de mudança social, nom só para mulheres senom para toda a sociedade.
Em primeiro lugar, o seu conceito da história. Para Marx, a história é um processo de luita, de luita de classes, de luita de seres humanos por se liberarem da exploraçom. Nom se pode estudar a história do ponto de vista dum sujeito universal, único, se a história é entendida como umha história de conflitos, de divisons, de luita. Para o feminismo esta perspectiva é mui importante. Do ponto de vista feminista resulta fundamental pôr no centro que esta sociedade se perpetua através de gerar divisons, divisons por género, por raça, por idade. Umha visom universalizante da sociedade, da mudança social, desde um sujeito único, acaba reproduzindo a visom das classes dominantes.
Em segundo lugar, a questom da natureza humana. A concepçom de Marx da natureza humana como resultado das relaçons sociais, nom como algo eterno, senom como produto da prática social é umha ideia central para a teoria feminista. Como feministas e como mulheres, luitamos contra a naturalizaçom da feminidade, à que se lhe atribuem tarefas, jeitos de ser, comportamentos, todo imposto como algo “natural” para as mulheres. Esta naturalizaçom cumpre umha funçom essencial de disciplinamento. Quando rejeitamos algumhas angueiras, domésticas por exemplo, nom se di “é umha mulher em luita”, di-se “é umha má mulher”, porque se pressupom que o fazê-las é parte da natureza das mulheres, do nosso sistema psicológico. Esta concepçom serviu-nos para luitar contra a naturalizaçom e a ideia do eterno feminino.
Em terceiro lugar, a relaçom entre a teoria e a prática. Marx sempre sublinhou que se conhece a sociedade no processo para a mudar, que a teoria nom nasce da mente dumha pessoa, do pensamento de seu, da nada. Nasce do troco social, da prática social, e num processo de mudança.
Em quarto lugar e de maneira central, o conceito de trabalho humano. A ideia do trabalho como a fonte principal da produçom da riqueza, sobre todo na sociedade capitalista. O trabalho humano como a fonte da acumulaçom capitalista.
Por último, e de jeito mais geral, a análise de Marz sobre o capitalismo. Ainda que está claro que o capitalismo mudou, que a sociedade capitalista, a organizaçom do trabalho, as formas de acumulaçom, todo isto mudou muito desde que Marx escreveu O capital, alguns elementos que Marx salientou continuam a ser importantes para entendermos os mecanismos que conformam este sistema e que lhe permitem perpetuar-se.
Ao mesmo tempo, o feminismo deu-nos ferramentas para fazer umha crítica de Marx. Esta é umha das achegas mais importantes a nível teórico do movimento feminista dos anos setenta e do que figem parte, em especial, das mulheres que se identificárom com a campanha “Salário para o trabalho doméstico” e que contribuírom enormemente ao desenvolvimento dumha teoria marxista-feminista, entre elas, Mariarosa Dalla Costa e Leopoldina Fortunati em Itália, e Maria Mies em Alemanha. Estas mulheres criticárom fortemente a Marx porque este se enfrentou à história do desenvolvimento do capitalismo em Europa, no mundo, do ponto de vista da formaçom do trabalhador industrial assalariado, da fábrica, da produçom de mercadorias e o sistema do salário, enquanto obviava problemáticas depois cruciais na teoria e na prática feminista: toda a esfera de atividades centrais para a reproduçom da nossa vida, como o trabalho doméstico, a sexualidade, a procriaçom; de facto nom analisou a forma específica da exploraçom das mulheres na sociedade capitalista moderna.
Marx reconheceu a importância da relaçom entre homens e mulheres na história desde as suas primeiras obras. Denunciou a opressom das mulheres, sobre todo na família capitalista, burguesa. Por exemplo, nos Manuscritos económicos e filosóficos de 1844, escreve (evocando em certo sentido a Fourier) que a relaçom entre mulheres e homens em toda a sociedade em todo período histórico é a medida de como os seres humanos fôrom quem de humanizar a natureza, estas som as palavras que emprega. Em A ideologia alemá, fala da escravitude latente na família, e de como os homens se apropriam do trabalho das mulheres. Em O manifesto comunista, denuncia a opressom das mulheres na família burguesa, como as tratam como propriedade privada e como as usam para transmitir a herdança. Há por tanto certa presença dumha consciência feminista, mas som comentários ocasionais que nom se traduzem numha teoria como tal. Apenas no volume I de O capital Marx analisa o trabalho das mulheres no capitalismo, mas só analisa o trabalho das mulheres operárias na grande indústria.
É certo que poucos teóricos denunciárom com tanta paixom e eficácia a exploraçom brutal nas fábricas das mulheres e os nenos, e dos homens abofé, descrevendo as horas de trabalho, as condiçons degradantes (embora com certo tom moralista, como quando fala da degradaçom das mulheres que ao nom darem vivido do seu salário, mui baixo, tenhem que complementá-lo com a prostituiçom) mas nos três volumes de O capital nom há nengumha análise do trabalho de reproduçom; só fala disso em duas notas cativas, numha escreve que as obreiras, ao estarem todo o dia na fábrica, vem-se na obriga de comprar o que lhes cumpre, e, na segunda, sinala que fora necessária umha guerra civil para que as obreiras se pudessem ocupar das suas crianças, em referência à Guerra de Secessom de EE.UU, que acabou com a escravitude e supujo umha interrupçom da chegada de algodom à Gram Bretanha e por tanto o feche das fábricas.
Resulta curioso que nom fosse quem de ver o trabalho de reproduçom; ele mesmo, ao começo de A ideologia alemá, di que se quigermos entender os mecanismos da vida social e da mudança social, cumpre-nos partir da reproduçom da vida quotidiana. Reconhece também num capítulo do volume I de O capital chamado “Reproduçom simples” (que é como denomina a reproduçom da mao de obra) que a nossa capacidade de trabalhar nom é algo natural, senom algo que tem que ser reproduzido. Reconhece que o processo de reproduçom das força laboral é parte integrante da produçom de valor e da acumulaçom capitalista (“a produçom do meio de produçom mais valioso para os capitalistas: o trabalhador em si próprio”). Porém, de jeito mui paradoxal do ponto de vista feminista, acha que esta reproduçom fica coberta desde o processo de produçom de mercadorias, é dizer, o trabalhador ganha um salário e com um salário cobre as suas necessidades vitais através da compra de comida, roupa… Nunca reconhece que cumpre um trabalho, o trabalho de reproduçom, para cozinhar, para limpar, para procriar.
Marx sinala que a procriaçom dumha nova geraçom de trabalhadores é fundamental para a organizaçom do trabalho mas vê-o como um processo natural, de facto, escreve que os capitalistas nom tenhem que se preocupar sobre este tema e podem confiar no instinto de preservaçom dos trabalhadores; nom acha que pode haver interesses diferentes entre homens e mulheres com respeito à procriaçom, nom o entende como um terreno de luita, de negociaçom. Assemade, cuida que o capitalismo nom depende da capacidade de procriaçom das mulheres por mor da sua constante criaçom de “populaçom excedente” através de revoluçons tecnológicas; porém, clara mostra da preocupaçom do capital e do Estado respeito do volume de populaçom é o facto de que com a chegada do capitalismo chegárom todo tipo de proibiçons do controlo da natalidade por parte das mulheres, muitas das quais permanecem nos nossos dias, ao tempo que se intensificárom as penas para aquelas que as punham em prática. Por outra banda, apenas tem em conta as relaçons sexuais com respeito à prostituiçom que, como sinalamos, encontra degradante e obrigada para as mulheres polo seu empobrecimento.
Este é um limite crucial da teoria de Marx. Umha das conseqüências da sua incapacidade para ver além da fábrica e entender a reproduçom como umha área de trabalho (e de trabalho sobre todo feminino) é que nom se deu conta de que enquanto escrevia O capital se estava a desenvolver um processo de reforma histórica que em poucos anos levou à construçom da família proletária nuclear.
A partir de 1870, aproximadamente, começa um gram processo de reforma em Inglaterra e EE.UU, que depois se estende a outras partes de Europa, polo que se cria a família proletária. Este processo é a expressom dumha mudança histórica da política do capital. Até 1850-1860 o capitalismo fundava-se no que Marx denominou “exploraçom absoluta”, um regime laboral em que se estende ao máximo o horário de trabalho e se reduz ao mínimo o salário. Assim, durante toda a Revoluçom Industrial, a classe operária nom podia praticamente reproduzir-se, trabalhavam 14-16 horas ao dia e morriam com 40 anos. Dá-se daquela umha classe obreira que se reproduz com extrema dificuldade e que morre mui nova, com umha alta mortalidade infantil e das mulheres no parto.
Marx vê todo isto mas nom se da conta do processo de reforma que está a acontecer e que cria umha nova forma de patriarcado, novas formas de hierarquias patriarcais. Ele continua a pensar, como Engels, que o desenvolvimento capitalista, e sobre todo a grande indústria, é um factor de progresso e de igualdade. A famosa ideia de que com a expansom industrial e tecnológica se elimina a necessidade da força física no processo laboral e se permite a entrada das mulheres na fábrica, de jeito que se inicia um processo de cooperaçom entre mulheres e homens que permite umha maior igualdade e que libera as mulheres do controlo patriarcal do trabalho a domicílio, que foi a primeira forma de trabalho da manufactura no começo do capitalismo. Marz partilha a ideia de que o desenvolvimento industrial, capitalista, promove umha relaçom mais igualitária entre homens e mulheres.
Mas o que vemos a partir de finais do século XIX, com a introduçom do salário familiar, do salário obreiro masculino (que se multiplica por dous entre 1860 e a primeira década do século XX), é que as mulheres que trabalhavam nas fábricas som rejeitadas e enviadas para a casa, de jeito que o trabalho doméstico se converte no seu primeiro trabalho e elas se viram dependentes. Esta dependência do salário masculino define o que chamei “patriarcado do salário”; a través do salário cria-se umha nova hierarquia, umha nova organizaçom da desigualdade: o homem tem o poder do salário e vira-se em supervisor do trabalho nom pago da mulher. E tem também o poder de disciplinar. Esta organizaçom do trabalho e do salário, que divide a família em duas partes, umha assalariada e outra nom assalariada, cria umha situaçom em que a violência está sempre latente.
Esta nova organizaçom da família supujo umha viragem histórica. Permitiu um desenvolvimento capitalista impossível antes. A criaçom da família nuclear vai paralela ao trânsito da indústria ligeira, téxtil, à indústria pesada, do carbom, da metalurgia, que precisa um tipo de obreiro diferente, nom o trabalhador sem força, escassamente produtivo, resultado do regime laboral da exploraçom absoluta; esses trabalhadores que morriam aos 35 anos aliás rebelavam-se contra a sua situaçom. Toda a primeira metade do século XIX é de rebeliom: o cartismo, o sindicalismo, o comunismo, o socialismo. Com esta construçom da família conseguem-se duas cousas: por umha banda, um trabalhador pacificado, explorado mas que tem umha criada, e com isso conquista-se a paz social; por outra, um trabalhador mais produtivo. Aqui cumpre empregar a categoria de Marx de “subsunçom real”, um conceito que emprega para descrever o processo polo que o capitalismo, com a sua história e o seu desenvolvimento, reestrutura a sociedade à sua imagem e semelhança, de formas que lhe sirvam para a acumulaçom; por exemplo, reestrutura a escola para que seja produtiva para o processo de acumulaçom e também reestrutura a família. Quando falo deste processo de criaçom da família nuclear, entre 1870 e 1910, falo dum processo de subsunçom real do processo de reproduçom; transforma-se o bairro, a comunidade, aparecem as tendas…

Este modelo de família continuou até os anos sessenta do século XX e é o modelo frente ao que o movimento feminista e as mulheres em geral se sublevárom nas décadas dos anos sessenta e setenta, dizendo avonda a esta concepçom da mulher como dependente. O feminismo significou umha procura de autonomia, de rechaço ao submetimento das mulheres na família e na sociedade como trabalhadoras nom reconhecidas e nom pagas, umha sublevaçom contra a naturalizaçom das tarefas domésticas e polo reconhecimento como trabalho do trabalho doméstico.
Foi a partir desta rebeldia que mulheres coma mim e como as que mencionei mais acima chegamos a Marx. Na esquerda, o habitual era estudar a Marx, aos pais do socialismo, mas verificamos que nom havia muito ali para compreender a nossa situaçom. Assim começamos umha crítica da sua obra e a análise de toda a área da reproduçom, toda umha área de exploraçom que Marx ignorara. Neste momento de crítica a Marx, nós empregávamos a Marx, Marx deu-nos ferramentas para o criticar.
Por exemplo, quando Marx di que a força de trabalho se tem que produzir, que nom é natural, como vimos antes, a nós pareceu-nos mui acertado, mas cavilamos “sim, é o trabalho doméstico o que produz a força de trabalho”. Esse trabalho nom se reproduz só através das mercadorias, senom que em primeiro lugar reproduz-se nas casas. E começamos um labor de reelaboraçom, de repensar as categorias de Marx, que nos levou a dizer que o trabalho de reproduçom é o pear de todas as formas de organizaçom do trabalho na sociedade capitalista. Nom é um trabalho pré-capitalista, um trabalho atrasado, um trabalho natural, senom que é um trabalho que foi conformado para o capital polo capital, absolutamente funcional à organizaçom do trabalho capitalista. Levou-nos a pensar a sociedade e a organizaçom do trabalho como formado por duas cadeias de montagem: umha cadeia de montagem que produz mercadorias e outra cadeia de montagem que produz os trabalhadores e cujo centro é o lar. Por isso dizíamos que a casa e a família som também um centro de produçom, de produçom de força de trabalho.
Analisamos também o salário, que nom é umha certa quantidade de dinheiro, senom umha forma de organizar a sociedade. O salário é um elemento essencial na história do desenvolvimento do capitalismo porque é um jeito de criar hierarquias, de criar grupos de pessoas sem direitos, que invisibiliza áreas inteiras de exploraçom como o trabalho doméstico ao naturalizar formas de trabalho que em realidade som parte dum mecanismo de exploraçom.
Também revisitamos a história da acumulaçom originária, o conceito de Marx, tomado de Adam Smith, para descrever o momento histórico que criou as condiçons da existência do capitalismo. Como é sabido, Marx expujo que foi um processo de despossessom, de expulsom dos labregos da terra que incluiu também a escravitude e a colonizaçom de América. O que Marx nom viu é que no processo de acumulaçom originária nom somente se xebrárom os camponeses da terra senom que também tem lugar a separaçom entre o processo de produçom (produçom para o mercado, produçom de mercadorias) e o processo de reproduçom (produçom da força de trabalho); estes dous processos começam-se a separar fisicamente e, aliás, a ser desenvolvidos por diferentes sujeitos. O primeiro é maiormente masculino, o segundo feminino; o primeiro assalariado, o segundo nom assalariado. Com esta divisom de salário/nom salário, toda umha parte da exploraçom capitalista começa a desaparecer.
Esta análise foi mui importante para compreender os mecanismos e os processos históricos que levárom à desvalorizaçom e à invisibilizaçom do trabalho doméstico e à sua naturalizaçom como o trabalho das mulheres. Na minha investigaçom, encontrei um evento histórico extraordinariamente importante, a caça de bruxas, que nom tivo lugar somente em Europa senom também na América Latina; ali foi exportada por missioneiros e conquistadores, desde a zona dos Andes até o Brasil, onde se empregou contra as revoltas dos escravos (acusavam-nos de demoníacos nos seus ritos e cerimónias). A caça de bruxas foi um evento fundador da sociedade moderna que permitiu gerar muitas das suas estruturas, como a divisom sexual do trabalho, a desvalorizaçom do trabalho feminino e, sobre todo, a desvalorizaçom das mulheres em termos gerais, ao criar e espalhar a ideologia de que as mulheres nom som seres completamente humanos, senom seres sem razom, que podem ser mais doadamente seduzidas polo demo, etc. Neste sentido, abriu a porta a novas formas de exploraçom do trabalho feminino.
Voltando para o nosso tempo, acho que esta síntese entre marxismo e feminismo resulta importante nom somente para ler o passado, para entender a história do capitalismo, senom para entender o que passa hoje, para ler o presente. Permite-nos entender que hoje somos testemunhas dumha nova vaga de acumulaçom originária, o processo ao que Marx lhe atribuiu a origem da sociedade capitalista, que xebra os produtores dos meios da sua reproduçom, que cria um proletariado sem nada mais que a sua força de trabalho, que pode ser explorado sem limite, etc. Este processo, desde a década dos setenta, reproduz-se de jeito cada cada vez mais forte a nível mundial, como resposta às grandes luitas dos anos sessenta, que debilitárom os mecanismos de controlo do sistema capitalista: as luitas anti-coloniais, as luitas dos obreiros industriais, as luitas feministas, dos estudantado, contra a militarizaçom da vida, contra Vietnám… todas pugérom em crise os sistemas de dominaçom capitalistas. Nom é umha coincidência que a partir de finais dos anos setenta comecemos a ver todos estes processos que juntos se denominárom neoliberalismo. O neoliberalismo é um ataque feroz, no seu comum denominador, contra as formas de reproduçom a nível global; começa com o extractivismo, a privatizaçom da terra, os ajustes estruturais, o ataque ao sistema de bem-estar, às pensons, aos direitos laborais. Neste sentido, o processo de reproduçom tem um papel central. Vimos que as luitas mais potentes e significativas dos últimos anos se desenvolvérom nom somente nos lugares de trabalho assalariado, que de facto estám em crise, senom fora deles: luitas pola terra, contra a destruiçom do meio, contra o extractivismo e a contaminaçom da água, contra a desapariçom das florestas. E cada vez mais, à cabeça destas luitas, encontramos mulheres que compreendem que hoje nom se pode separar a luita por umha sociedade mais justa, sem hierarquias, nom capitalista -nom alicerçada sobre a exploraçom do trabalho humano-, da luita pola recuperaçom da natureza e a da luita anti-patriarcado: som umha mesma luita que nom se pode xebrar.

Neste contexto, umha visom marxista-feminista, com os aportes e críticas do marxismo que descrevim, pode-nos ajudar a liberar-nos dalgumhas ideologias. Por exemplo, umha delas, presente em Marx e também nalguns importantes marxistas da actualidade, defende a ideia de que o desenvolvimento capitalista é necessário porque é umha fonte de progresso e, de seu, leva-nos a um processo de emancipaçom. Nos nossos dias existe um movimento chamado “aceleracionista”, que quer acelerar o desenvolvimento capitalista porque entende este desenvolvimento como um factor de emancipaçom. Outro exemplo som os marxistas autónomos que pensam que o capitalismo, ao ver-se na obriga de nesta fase empregar a ciência e o conhecimento, também se vê obrigado a dar-lhes mais autonomia aos trabalhadores; muitos entendem daquela que o desenvolvimento capitalista gera mais autonomia para os trabalhadores. Cuido que umha olhada marxista-feminista, e para mim “feminista” significa “centrada no processo de reproduçom”, permite-nos responder-lhes a estas visons. Porque como dizia umha companheira equatoriana: “Ao que muitos lhe chamam desenvolvimento, nós chamamos-lhe violência”. Desenvolvimento hoje significa violência, expulsom, despossessom, migraçom, guerra.

Também se di que o capitalismo cria as condiçons materiais para superar a escasseza e para liberar os seres humanos do trabalho. Pensa-se que o capitalismo, com o desenvolvimento tecnológico e científico, precisa cada vez de menos trabalho. Esta óptica, do meu ponto de vista, é mui masculina e entende o trabalho apenas como produçom de mercadorias. Porque se como trabalho se inclui o trabalho de cuidados, de reproduçom da vida, que segue a ser estatisticamente o maior sector de trabalho no mundo, resulta óbvio que a imensa maioria deste trabalho nom se pode “tecnologizar”. Tecnologizam-se algumhas partes, por exemplo muitas pessoas empregam a televisom para cuidar os nenos, ou sonham com que pequenos robôs limpem e fagam todas as tarefas, mesmo se anuncia que se ham converter em companheiros de piso; acho que esta nom é a sociedade que queremos. Estám-nos a preparar para umha sociedade em que as pessoas estejam cada vez mais isoladas. Cuido que podemos afirmar que isto nom quadra com umha óptica emancipatória. O feminismo permite-nos corrigir as visons marxistas actuais que pensam que a tecnologia pode ser emancipatória de seu.
Para concluir, quero salientar que o problema do trabalho de reproduçom e da sua desvalorizaçom é um problema construído numha sociedade em que este trabalho nom é particularmente degradante ou pouco criativo em si próprio, como desafortunadamente muitas feminstas acham também. Foi convertido num trabalho que oprime a quem o realizar porque se realiza em condiçons que ficam além do nosso controlo. Neste momento de necessidade de mudança social, e com esta olhada marxista-feminista, acho que a mudança tem que começar por umha recuperaçom do trabalho de reproduçom, das actividades de reproduçom, da sua revalorizaçom, desde a óptica da construçom dumha sociedade cujo fim, em palavras de Marx, seja a reproduçom da vida, a felicidade da sociedade mesma, e nom a exploraçom do trabalho.

 

Introduçom do livro O patriarcado do salário