O primeiro dia de escola

Por Marcos Abalde Covelo /

Chama-se Brais. Tem três anos. Hoje começa a escola. Vai ao CEIP do Corgo. Brais fala galego. O Corgo é um município gadeiro de 3.523 habitantes. A mestra organiza umha reuniom com as famílias. Explica que vai ensinar a ler e escrever em castelhano porque eles falam “galego dialetal”. A mestra leva trinta anos transmitindo preconceitos contra o galego. Passárom muitas crianças polas suas maos. Sabe fazer o seu trabalho. “Noite” escreve-se “noche”; “maçá”, “manzana”; “cam”, “perro”. No Dia das Letras o seu alunado pinta umha ficha de Maria Victoria Moreno. O pai e a mae do Braisinho ficam surpreendidos, ao final do curso o meninho com eles fala castelhano. O claustro nom fai nada. A inspeçom educativa nom fai nada. A Junta nom fai nada. Deixam fazer.

Lua tem três anos. É o primeiro dia de aulas. Toca-lhe ir ao colégio de Ares. Lua fala galego. Ares é um município marinheiro de 5.658 habitantes. Lua vai sempre chorando à escola. Nom consegue adaptar-se. Ao pouco muda de língua também na casa. É mui pequena para ter que passá-lo tam mal. A sua família decide quita-la da escola. Ao ano seguinte matriculam-na na Semente. Lua cura a sua ferida linguística. Ninguém a acossa por usar o castelhano. Nom é humilhada. As outras crianças nom rim dela por falar diferente. Acompanham o seu processo. Brincam, cantam, saltam nas poças, plantam morangos, lêem contos. Lua recupera o galego.

Cada novo curso centos de funcionários destroem a identidade das crianças galegófonas. Foi o que aprendérom na universidade. A sua prática contribui ao etnocídio. Assim qualifica a UNESCO esta “forma estrema de violaçom maciça dos direitos humanos”. Nem o Brais nem a Lua vam sair na capa de “El Mundo” nem de “La Voz de Galicia”. Para a imprensa espanhola, o extermínio da nossa língua nom é notícia. Muito menos as experiências positivas de revitalizaçom. Eles dedicam-se a ocultar e branquejar toda esta violência sistemática. Para a contra-arrestarmos, cumpre a ativaçom do professorado e das famílias.

Talvez as crianças que vam a Semente sejam poucas, mas o salto qualitativo é enorme. Elas convertem-se nas protagonistas da normalizaçom linguística. Som tratadas como agentes ativos, nom como recetores passivos. Neste modelo de imersom prima a horizontalidade. O vínculo emocional entre os iguais nutre a própria autoestima e reforça a motivaçom. A Semente está a levar à prática um novo paradigma estudado por Paula Kasares: da língua materna à fraterna, do unidirecional ao interativo, da transmissom à socializaçom. As crianças venhem para mudá-lo todo, também o comportamento linguístico das pessoas adultas.