A era do vazio

Por Giles Lipovetsky /

Por quê em sociedades como a nossa onde avonda a informaçom dominam a apatia e o servilismo? Para responder a esta pergunta, traduzimos ao galego, o pensador francês G. Lipovetsky. As suas palavras fam parte dum livro intitulado ‘A era do vazio’, onde fala sobre alguns dos riscos mais chamativos do mundo ocidental: pressa, insolidariedade, consumismo e ruído.

‘A apatia espalha-se mais assim que atinge a sujeitos informados e educados (…) Quanto mais o sistema cria responsabilidades e informa, mais medra o abandono (…) A alienaçom que analisara Marx, resultante da mecanizaçom do trabalhou, deixou lugar a umha apatia induzida polo campo vertiginoso das possibilidades e o livre-serviço generalizado; entom começa a indiferença pura, livrada da miséria dos começos da industrializaçom.

(…) o deambular apático deve associar-se com atomizaçom programada que rege o funcionamento das nossas sociedades: dos meios de comunicaçom à produçom, dos transportes ao consumo, nenhumha instituiçom foge a essa estratégia de arredamento (…) Num sistema artelhado segundo um princípio de isolamento ‘suave’, os ideais e os valores públicos só podem declinar, e unicamente fica a procura do ego e do próprio interesse, o êxtase da emancipaçom ‘pessoal’, a obsessom polo corpo e polo sexo: hiper-inversom do privado e em consequência desmobilizaçom do espaço público. Medra assi a desmotivaçom generalizada, a retirada autárquica ilustrada pola paixom de consumir, mas também da psicoanálise e das técnicas relacionais: quando o social se abandonou, o desejo, o prazer, a comunicaçom convertem-se nos únicos ‘valores’, e as disciplinas psicológicas e psiquiátricas nos grandes predicadores do deserto.

Longe de representar umha profunda crise do sistema, anunciando a mais ou menos longo prazo o seu fracasso, a deserçom social nom é mais que a sua realizaçom extrema, a sua lógica fundamental, como se o capitalismo tivera que fazer indiferentes aos homens, como o fijo com as cousas. Nom há fracasso ou resistência ao sistema; a apatia nom é um defeito de socializaçom senom umha nova socializaçom flexível e ‘económica’, um relaxamento necessário para o funcionamento do capitalismo moderno como sistema experimental acelerado e sistemático. O capitalismo funda-se na combinaçom incessante de possibilidades inéditas, o capitalismo encontra na indiferença umha condiçom ideal para a sua experimentaçom, que pode cumprir-se com um mínimo de resistência, (…) as combinaçons fam-se e desfam-se cada vez mais depressa, o sistema de ‘porque nom’ volve-se puro como a indiferença.

Neste caso, como compreender a acçom dos partidos, dos sindicatos, dos meios de comunicaçom, que nom cessam, em apariência, de combater a apatia, e sensibilizam, mobilizam, informam? Porquê um sistema que exige a indiferença se esforça seguido por fazer participar, por educar, por interessar? É umha contradiçom? Muito mais, é um simulacro de contradiçom. Som precisamente essas organizaçons as que produzem a apatia de massas, pola sua mesma forma; seria inútil imaginar planos maquiavélicos, o seu trabalho consegue-o sem mediaçom. Quanto mais os políticos se explicam e exibem no tevê, mais se ri a gente; quantos mais panfletos distribuem os sindicatos, menos se lem; quanto mais se esforçam os professores por lerem os estudantes, menos lem estes. Indiferença por saturaçom, informaçom e ilhamento.’