Hirak: algumhas chaves da revolta rifenha

A mocidade foi um dos sectores sociais de maior importáncia na rebeliom amazigh

Por Jorge Paços /

No passado Agosto, o rei marroquino Mohammed VI indultava 180 presos e presas rifenhas envolvidas no ‘al-Hirak al-Shabi’ (Movimento Popular), a grande vaga mobilizadora que fijo abalar a legitimidade marroquina no Rif desde o ano 2016. Forças amazigh e organismos em defesa dos direitos humanos julgavam a medida ‘mera cosmética’. No entanto, por volta de 400 prisioneiros rifenhos continuam dispersados e dispersadas em dez cadeias marroquinas, e a dirigência do movimento atura penas de até 20 anos de prisom. Debruçamos mais umha vez nesta revolta, habitualmente ignorada na Galiza, apesar de certos paralelismos do povo rifenho com a nossa Terra.

Antecedentes no Rif: lume e ferro

PP e PSOE unírom o seu voto, como bons baluartes do regime que som, para se negar à proposta de indenizaçom de ERC aos herdeiros das vítimas do selvagismo espanhol no Rif. Os partidos históricos da direita hispana apostárom no branqueamento da história face as reivindicaçom dos vencidos. A organizaçom catalá lembrou a responsabilidade espanhola no bombardeamento com armas químicas da populaçom Amazigh nos anos 1923 e 1924. Tais arsenais estavam já proibidos na altura, depois de se comprovarem os seus estragos na Iª Grande Guerra, mas a Espanha de Alfonso XIII nom hesitou em utilizá-los, cobiçando os jazigos de ferro da zona, no mais clássico esquema colonial. Fijo-o com ataques de aviaçom, no primeiro exemplo histórico de envelenamento desde o ar de pessoas e territórios. Os futuros golpistas e executores do genocídio de 1936 ensaiárom a violência indiscriminada, apenas umha década antes da guerra civil, no norte da África.

Ainda a dia de hoje, o Rif acumula umha cifra extraordinariamente de casos de cancro ; para quem duvidar dos efeitos dos velenos químicos nas populaçons, cumpriria lembrar que ainda em 1958, quando o Marrocos se independiza, decide sufocar com bombas de napalm a populaçom rifenha.

Por trás do número de vítimas e da brutalidade estatal lateja umha história de resistência : a dos amazigh do Rif, um povo com traços diferenciais de seu e o sentimento profundo de serem os grandes esquecidos e desprezados por Marrocos (eis um primeiro traço coincidente com a nossa Galiza). Um povo que habita o chamado ‘Marroc inutile’ e vê-se condenado à emigraçom, à desatençom estatal e ao capitalismo extractivista.

Aldragens acumuladas e umha memória de orgulho resistente contribuírom decisivamente ao jurdimento do Hirak.

Um grande movimento popular

A morte do marinheiro rifenho Mohssín Fikri a maos da polícia fora o detonante, em 2016, do estoupido popular. Artelhado em assembleias abertas, o Hirak figera converger, num equilíbrio surprendente, demandas e sectores muito divergentes : as da atençom sócio-económica à zona ; as da exigência de direitos culturais e idiomáticos para o Rif ; as do questionamento da monarquia marroquina e, até mesmo as da soberania e independência do Rif, abandeirada por sectores minoritários, mas tremendamente activos.

Desde 1958 no Rif está vigorante a figura jurídica do ‘dait’, um decreto de militarizaçom aprovado por Hasan II, que reconhece a possibilidade de limitar violentamente o exercício da reivindicaçom rifenha. A derogaçom desta lei é umha das ideias força do Hirak, especialmente acolhida numha populaçom submida na aberta desconfiança com os partidos e as elites marroquinas. Na última cita eleitoral, apenas o 14 % da populaçom do Rif acodiu às urnas.

Resposta imisericorde

A distáncia crescente entre populaçom e representantes, somada à distáncia histórica entre o Rif e Marrocos, levou a Rabat a umha linha de intervençom duríssima, lenemente suavizada nos últimos tempos, na conhecida linha estatal de ‘pau e cenoura’ (liquidaçom dos núcleos combativos, acompanhada do diálogo com os moderados). Segundo organismos como Amnistia Internacional ou Human Rights Watch, o levantamento saldou-se até hoje com dous mortos, 410 activistas julgados e presas, e entre 500 e 1400 pessoas detidas, exiladas ou desaparecidas (das quais 100 eram menores de idade).

O Hirak desenvolveu-se na clandestinidade desde entom, e a reivindicaçom rifenha houvo de combinar acçons decididas de maneira executiva por células ilegais com protestos espontáneos do povo : concentraçons nocturnas, caravanas de carros, manifestaçons nas praias, difusom da simbologia rifenha. Porém, o descabeçamento da sua dirigência e a dura condena ao seu líder mais reconhecido, Nasser Zafzafi, causou canseira e certa desorientaçom no movimento.

Promessas baleiras e silêncio internacional

O grande impacto causado polo Hirak no conjunto de Marrocos nom pode ser negado. É no seu ronsel que cumpre entender o discurso institucional de Mohamed VI aos seus súbditos, no que promete firmeza e repressom (numha linha semelhada à utilizada por Felipe V contra Catalunha), e a um tempo lança a promessa baleira do plano ‘Al Hoceima, Phare du Mediterranée’. A traços grossos, trata-se dumha proposta de modernizaçom de Alhucemas, prometendo generosos investimentos, e sugerindo que a desatençom histórica com o Rif nom se deveu tanto ao desprezo de Rabat, senom à ineficácia das elites locais que teriam que aplicar os planos de decolagem.

Porém, agás nos sectores mais pactistas do movimento (desejosos de aligeirarem as penas pola via do indulto e através do rebaixamento da crítica ao monarca), as palavras de Mohamed resultárom ocas e pouco dignas de crédito.

Também motiva desconfiança, ou aberta rejeiçom, o silêncio occidental. Agás pola participaçom parlamentar em Espanha de bascos e cataláns, em Madrid aposta-se pola clássica colaboraçom com Marrocos e o implícito apoio à sua lei marcial. Por outra banda, as visitas internacionais de deputados socialistas belgas ou holandeses a Marrocos, preocupados polas vulneraçons de direitos na outra beira de Gibraltar, nom servírom tampouco para motivar nenhuma sensibilidade da UE com a luita rifenha.

Tivérom que ser as numerosas comunidades de emigrantes amazigh ciscadas pola Europa -e especialmente numerosas em Euskal Herria ou Catalunha- as que pugeram na rua a voz do Rif com numerosas concentraçons e manifestaçons.

O desenlace é incerto : no entanto, os velhos símbolos do povo de Abd el Krim volvérom a ocupar as terras amazigh, e a memória resistente de um século enteiro aboia nas capas mais novas da populaçom, com grande preocupaçom para Rabat. O Rif nom adere ainda abertamente à sua condiçom nacional, e, influenciado por sectores moderados e pactistas, tampouco abraça explicitamente teses arredistas ; mas como a Galiza, tem consciência bem arraizada da marginaçom e desprezo à que o submeteu o inimigo histórico, como também conhece e venera a sua identidade cultural. Na revolta amazigh do século XXI, o nosso povo atopa também liçons inspiradoras.

*Fonte: Vence, S.: 15 meses de Hirak : impresións dun informador participante, esculca.gal.