Chaves do marxismo decolonial

Marco Sipán (traduzido e adaptado por Galizalivre)

A ideia da de raça foi a que classificou a populaçom por umha banda, os índios, negros, mestiços e pola outra os europeus. A estas identidades associárom-se hierarquias, lugares e roles sociais correspondentes: isto constituiu o padrom da dominaçom colonial. Quer dizer, a ideia de raça legitimou as relaçons de dominaçom impostas pola conquista. Construírom-se subjectividades sobre a naturalidade de seres inferiores e superiores que permitiu o desenvolvimento de práticas cruentas por parte dos europeus para as populaçons originárias. A ideia de raça foi umha ideia eficaz de dominaçom e com a expansom mundial dos europeus estruturou o mundo.

Referir-nos ao padrom de poder moderno/colonial é falar de relaçons sociais que articulam quatro elemento: o controlo das relaçons de

1) trabalho,
2) género,
3) autoridade colectiva,
4) subjectividade/intersubjetividade.

O padrom de poder unifica o conjunto de ordens constitutivas dumha determinada sociedade. Trata-se dum sistema complexo no que se configurou um universo de relaçons intersubjectivas centrado na dominaçom das populaçons europeias sobre as nom europeias. Nesse sentido Quijano sinala três aspectos principais da violência simbólica que se impujo:

1. A expropriaçom das suas descobertas culturais em benefício do desenvolvimento do capitalismo;
2. A repressom das formas de produçom de conhecimentos dos colonizados, os seus padrons de produçom de sentidos, o seu universo simbólico, os seus padrons de expressom e objectivaçom da subjectividade;
3. A aprendizagem forçada da cultura dos dominadores polo dominados.

No processo de constituiçom histórica da América, todas as formas de controlo e de exploraçom do trabalho e de controlo da produçom-apropriaçom-distribuiçom de produtos, fôrom articuladas arredor da relaçom capital-salário e do mercado mundial. Nesta forma de capitalismo incluírom-se a escravitude, a servidume, a renda, a pequena produçom mercantil, a reciprocidade e o salário. Todas estas formas de controlo do trabalho eram histórica e sociologicamente novas. Configurou-se assim, um novo padrom global de controlo de trabalho, à sua vez um elemento fundamental dum novo padrom de poder.

Às novas identidades históricas produzidas sobre a base da ideia de raça fôrom-lhes designados roles e lugares na nova estrutura global de controlo do trabalho. A raça e a divisom do trabalho ficárom associadas. Impujo-se umha sistemática divisom racial do trabalho. Aos índios designou-se-lhes a servidume, permitindo-lhes relaçons de reciprocidade nas suas comunidades com a intençom de reproduzir a sua força de trabalho como servos. Os negros fôrom reduzidos à escravitude. Os europeus podiam aceder a salários, ser comerciantes, artesaos e agricultores independentes, quer dizer, produtores independentes de mercadorias, só os nobres podiam participar nos postos altos e médios da administraçom colonial, civil e militar. A distribuiçom racista do trabalho no interior do capitalismo colonial/moderno mantivo-se ao longo de todo o período colonial.

A conquista de América, o controlo dos minerais e das mercadorias produzidas polo trabalho gratuíto de índios, negros e mestiços outorgou-lhes aos conquistadores umha vantagem para o control do tráfico comercial mundial e com isso fijo possível concentrar o controlo do capital comercial no mercado mundial.
Conformárom-se novos processos de urbanizaçom nas zonas do Atlántico, que tinham ligaçom co tráfico comercial que procedia de América, estabelecendo-se umha nova identidade: “Europa” e depois “Ocidente”, identidade que vai assumindo um papel hegemónico no mercado mundial.

Trabalho assalariado e raça

Em Europa as relaçons de controlo de trabalho estabeleciam-se através do capital-salário, no resto das regions e populaçons do mercado mundial, colonizadas sob o domínio europeu estabeleciam-se baixo relaçons nom salariais. Nestas regions as relaçons salariais estavam estabelecidas para os brancos.

O controlo do trabalho no novo padrom de poder mundial constituiu-se, assim, articulando todas as formas históricas de controlo do trabalho arredor da relaçom capital-trabalho assalariado, e desse jeito baixo o domínio desta. Por mor disto o capitalismo mundial foi, desde a sua origem, colonial/moderno e eurocentrado.

Europa pudo impor o seu domínio colonial sobre todas as regions de populaçons do planeta, incorporando-as ao sistema mundo que assim se constituía e ao seu especifico padrom de poder, isso implicou a re-identificaçom histórica, dando-lhes identidades geo-culturais aos outros (nom europeus), criando a ideia de modernidade como ponto de chegada da história, a que representava Europa (em especial Europa Occidental), com umha racionalidade e cultura “supostamente” desenvolvidas, o que articulou umha hegemonia como forma de controlo da subjectividade da cultura e em especial do conhecimento e da produçom do conhecimento. Os colonizadores expropriárom as populaçons colonizadas, reprimírom as suas formas de produçom de conhecimento, os seus padrons de produçom de sentidos, o seu universo simbólico, os seus padrons de expressom e de objectivos da subjectividade.

Os europeus ocidentais imaginavam ser a culminaçom dumha trajectória civilizatória desde um estado de natureza, isso levou-nos também a pensar-se como os modernos da humanidade e da história, isto é, como o novo e ao mesmo tempo o mais avançado da espécie. Nesse sentido, o conceito de modernidade é referido deste jeito às ideias de novidade, o racional-científico, laico, secular, que som as ideias de experiências normalmente associadas a esse conceito e que também fôrom atingidas em diferentes épocas e por diferentes culturas, as chamadas altas culturas (China, Índia, Egipto, Maia, Tawuantinsuyo, entre outras), e que nom som exclusivas dos europeus. Porém, quem defende a modernidade europeia menciona a ideia de liberdade e democracia nos seus Estados nacionais. Aqui Aníbal Quijano expressa que esta modernidade é regida pola colonialidade do poder, o capitalismo e o eurocentrismo, e implica umha heterogeneidade histórico-estrutural de dominaçom.

Na América estabeleceu a escravitude deliberadamente e organizou-na como mercadoria para produzir mercadoria para o mercado mundial. Pola mesma, a servidume foi imposta sobre os índios, mesmo a redefiniçom das instituiçons da reciprocidade, para servir aos seus mesmos fins e para produzir mercadorias para o mercado mundial. Igual com a produçom de mercadorias de maneira independente, isto espalhou-se polo mundo. Todo isto configurou o capitalismo, o seu padrom de poder e a colonialidade do poder.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a sociedade é considerada como umha totalidade histórica, na medida em que está constituída por diversas ordens de fenómenos imbricados mutuamente, mas nom de jeito homogéneo, senom em forma conflitiva e contraditória, constituindo umha estrutura de poder social.

Publicado em http://contrahegemoniaweb.com.ar