A urbe totalitária

Por Miquel Amorós /

Reproduzimos um fragmento do texto de Miquel Amorós publicado no ano 2006 onde antecipava a transformaçom do espaço público.

Durante os anos noventa derom-se umha série de mudanças sociais lentamente gestadas em periodos anteriores, mudanças que pugerom de relevo a chegada dumha nova época bastante mais inquietante que a precedente. O paso dumha economia baseada na produçom a outra asentada nos serviços, o império das finanças sobre os Estados, a desregularizaçom dos mercados (incluído o do trabalho), a invasom das novas tecnologias com a subseguinte artificializaçom da contorna vital, o auge dos meios de comunicaçom unilateral, a mercantilizaçom e privatizaçom completas do viver, o ascenso de formas de controlo social totalitárias… som realidades acontecidas baixo a presom de necessidades novas, as que imponhem um mundo onde reinam condiçons económicas globalizadoras. Estas condiçons podem reducir-se a tres: a eficacia técnica, a mobilidade acelerada e o perpétuo presente. O sorprendente da nova orde criada nom é a rapidez das mudanças ou a destruçom de todo o que se resiste, incluídos jeitos de sentir, de pensar ou de agir, senom a ausência de oposiçom significativa. Diria-se que son as mudanças constantes quem apagarom a memória à populaçom obreira e invalidarom a experiência, as referências, o critério e as demais bases da objectividade e verdade, impedindo que os trabalhadores tirasem as conclusons implícitas nas suas derrotas. Ademais as mudanças pulverizarom a mesma clase obreira, disolvendo calquera ligaçom e converténdo-a numha massa anómica. O certo é que a adaptaçom às exigências da globalizaçom require acabar com os mismissimos fundamentos da conciência histórica, com o próprio pensamento de clase. Para que as massas sejam ejecutoras involuntárias das leis do mercado mundial ham de estar atomizadas, em continuo movimento e sumergidas num inacabável presente cheio de novidades dispostas ad hoc para ser consumidas no acto.

Tantas mudanças tinham que afectar às cidades, que, graças a umha perda imparável de identidade, vam caminho de se converter numha versom dumha mesma e única urbe, ou melhor, numha das partes de umha soa megalópole tentacular, um nodo da rede financeira mundial. Segundo o dinamismo que presente, aquel pode ser reorganizado funcionalmente (como em Catalunha), vaziado (como em Aragom), ou colmatado (como no Pais Basco). No espaço joga-se o maior envite do poder, e o novo urbanismo, forjado baixo o domínio de necessidades que já som universais, é a técnica idónea para instrumentalizar o espaço, acabando assim tanto com os conflitos presentes como com a memória dos combates antigos. Esta criando-se um novo modo de vida uniforme, depedente de artilúgios, vigiado, frenético, dentro dum clima existencial amorfo, que os dirigentes dim que é o do futuro. A nova economia obriga a novos costumes, a novos jeitos de habitar e viver, incompatíveis com a existência de cidades como as de antes e com habitantes como os de antes. Essa nova conceiçom da vida baseada no consumo, o movimento e a soiade, é dizer, na ausência total de relaçons humanas, exige umha artificializaçom higiénica do espaço a realizar mediante umha reestruturaçom sobre parámetros técnicos. O técnico vai sempre por diante do ideal, nom sendo que seja o próprio ideal. Os dirigentes de qualquer cidade falam todos essa língua da innovaçom tecnoeconómica que nom cesa: “ umha cidade nom pode parar”, tem que se “reinventar”, que se “renovar”, que se “refundar”, que “rejuvenecer”, etc, para o que haberá que “subir ao trem da modernidade”, “impulsar o papel das novas tecnologias”, “desenvolver parques empresariais”, “melhorar a oferta cultural e lúdica”, “construir novos hoteis”, ter umha paragem do AVE, levantar “novos edifícios emblemáticos”, impór umha mobilidade “sustentável” e demais cantinela. (…)

A chamada “crise fiscal do Estado” permitiu que na exploraçom das “potencialidades” urbanas levassem a iniciativa os contrutores, os políticos locais e os arquitectos (fazer arquitectura é meter-se de cheio na política de transformaçom totalitária das cidades). Essa unificaçom pola base da classe dominante tivo conseqüências mais graves que a corrupçom e a fraude. Os dirigentes derom-se conta de que tras a urbanizaçom depredadora nascia umha nova sociedade mais desequilibrada que comportava um modo de vida emocionalmente desestabilizado e um novo tipo de homem, frágil, narcisista e desarraigado. A arquitectura e o urbanismo eram as ferramentas de fabricaçom do cocconing de aquel novo tipo, liberado do trabalho de relacionar-se com os seus vizinhos, um cidadao manso, automovilista e controlável. Como se trata dum processo que ainda anda polo seu primeiro estádio e nom dumha situaçom acabada, todos os meios ham de ser postos tras esse único objectivo. A nova sociedade nom podia desenvolver-se, nem nas cidades franquistas semicompactas com centros históricos sem museificar e com bairros populares ainda em pé, nem nas vilas rurais com a sua agricultura de subsistência. Sobreviviam laços de sociabilidade que ainda permitiam os fins comuns e a acçom coletiva, reproduzindo-se um meio social estranho aos valores dominantes. Umhas estruturas espaciais ao serviço da circulaçom económica eram indispensáveis para eliminar aqueles laços, apagar a memória do passado e condensar os novos valores da dominaçom. Estas som as conurbaçons, áreas nascidas da fusom desordenada de vários núcleos de populaçom formando aglomerados dependentes e jerarquizados de dimensons notáveis, aos que os técnicos chamam “sistemas urbanos”. Uns habitantes separados entre si, emocionalmente desestabilizados, precisavam umha espêcie de imenso autoserviço urbano, um frenesí edificado onde todo é movimento e consumo; em fim, umha urbe fagocitária descojuntada organicamente e separada do seu contorno, tam indiferente ao abastecimento de água e a energia que consome como ao destino dos seus lixos e refugalhos. Os resíduos podem ser fonte de benefícios, como o é a escaseza da água e o transporte de energia (já existe um mercado da contaminaçom que opera com as emisons de CO2), mas sobre todo som fonte de inspiraçom; di-o Frank Gehry um arquitecto do poder que começou construindo shopping malls. Os ecologistas e os cidadanistas aportarom a sua linguagem; por isso os políticos, com a melhor das intençons, qualificam de “verde” e “sustentável” todo o que tenha erva, nom provoque atascos e esteja ao sol (se foram grandes chamariam-os “ecomonumentos”). Os arquitectos elaborarom planos de “reabilitaçom” dos centros degradados baseados na descatalogaçom do maior número possível de edifícios e na peonalizaçom das ruas, com vistas à sua adaptaçom ao turismo. Novas autoestradas, novas ampliaçons portuárias e novas pistas de aterragem ham de situar a urbe no mapa da “nova economia”, polo que todo o mundo dirigente trabalha a marchas forçadas. Cada ano constroem-se no país vinte e quatro catedrais do relax consumidor, os centros comerciais, visitados anualmente por mais de 23 milhons de paisanos. Às vezes ocorre que o cidadao anda um pouco atrasado por causa de lembranças do passado, de nom tam longe, e tenhem dificuldades em ver o conforto e a beleza das novas “máquina do viver” (ou “ecoandares”) e os seus emblemas monumentais. Mas som precisamente estas novas formas, construidas com novos materiais em cuja fabricaçom pode que nom tenha “intervido mao de obra infantil”, empregando novas técnicas que “nom prejudicaram ao meio ambiente”, e, isso si fundadas na privatizaçom absoluta, o desprazamento constante e a videovigilância, as que traduzem as novas relaçons sociais. O novo hábitat cidadao é umha espécie de moldura, ou melhor, um aparelho ortopédico que serve para endereitar ao novo home. De forma que, vivindo em tal meio, o home artificial do presente seja o home sem raizes do futuro.

(…) Os dirigentes democráticos conseguirom por meios técnicos o que os regimes totalitários por meios políticos ou policiais: a massificaçom polo isolamento total, a mobilidade incesante e o controlo absoluto. A urbe contemporánea é suavemente totalitária porque é a realizaçom da utopia nazi-estalinista sen gulags nem ruido de cristais rotos. Asistimos ao fim das modalidades de controlo social próprias da época burguesa clássica. A família, a fábrica, e o cárcere eram os meios disciplinários susceptíveis de integrar ou reintegrar os sindicato e a asistência social. Na fase superior da dominaçom na que nos atopamos o sistema disciplinário é caro e considerado ineficaz, dado que a finalidade já nom é a inserçom ou a reabilitaçom da perigosidade social, senom a sua neutralizaçom e contençom. Por primeira vez, parte-se do princípio de inasimilabilidade de sectores enteiros da populaçom, os independentistas, imigrantes, precários, esmoleiros, toxicómanos, minorias religiosas…, sectores cujo potencial risco social há que detectar, isolar e gerir. Já nom só se persegue a infracçom da lei, mas a presunta vontade de infringir. Deste jeito o tratamento da exclusom social ou da protesta que gera deixa as consideraçons políticas à margem e é directamente punitivo. Em último extremo, todo o mundo é um infractor em potência. A questom social convirte-se assim em questom criminal, conversom à que contribuem umha série de leis, reformas ou decretos que inculcam ou suspendem dereitos e que introducem um estado de excepçom à carta. Por exemplo, a criaçom da figura jurídica do “suspeitoso” cubrirá legalmente as listagens negras, a prisom sem juizo e a expulsom arbitrária. Acaba-se com a separaçom de poderes, é dizer, a independência formal entre o governo o parlamento e a judicatura. Entom instaura-se umha guerra civil de baixa intensidade que permite a repressom encuberta da populaçom mal integrada, ou seja, “suspeitosa”. Os efeitos sobre a cidade som importantes posto que a vigilância propriamente carcerária extende-se por todas as suas ruas. Primeiro som os bancos, centros comerciais, centros de lezer, edifícios administrativos, estaçons, aeroportos,etc., quem pom em marcha complexos sistemas de segurança e identificaçom e instalam câmaras de videovigilância; depois, para impedir roubos e sabotagens de empregados, vigilam-se os lugares de trabalho; finalmente, é todo o espaço urbano o que se submete à neurose securitária. Os vizinhos, estimulados polos consistórios, contrubuem delatando condutas que consideram incívicas. A cidade acomoda-se ao cárcere com qualquer pretexto: os terroristas, os assassinos em série, os pedófilos, os delinquentes juvenis, os estrangeiros indocumentados…, inclusive os fumadores. Todo é pouco para calmar a histéria cidadá que os meios de comunicaçom fomentarom. Se a família e o sindicato entrem em crise como ferramenta disciplinária, outros instrumentos de contençom e guarda experientam um auge sem precedentes: o sistema de ensino, o complexo carcerário e o ghetto. A escolarizaçom extensiva e prolongada é a melhor maneira de localizar e domesticar à populaçom juvenil. A proliferaçom de modalidade de encerro e de liberdade “vigilada” faz o próprio com a populaçom transgressora. Por fim, o elevado preço da vivenda e o mobbing afastam a populaçom indesejável dos cenários centrais onde rege a toleráncia zero, para concentra-la em subúrbios acoutados abandonados a sim próprios. De todo o precedente nom resultará aventurado deducir que a orde nas novas metrópoles onde ninguem se pode esconder, é umha orde totalitária, fascista.

(…)