Mario Alinei e a Galiza. Na lembrança do grande professor

Por Xoán M. Paredes, com a inestimável ajuda do Prof. Francesco Benozzo(1)/

O Professor Mario Alinei deixou-nos o passado 9 de Agosto (2018) a um dia de fazer 92 anos(2). Este catedrático emérito da Universidade de Utreque (Países Baixos) pode facilmente ser considerado como um dos três melhores linguistas dos últimos dous séculos, como afirma o historiador e intelectual Franco Cardini, situando-o à altura doutros gigantes como Saussure ou Dumézil(3).

Pioneiro absoluto, o seu trabalho nos anos 1960 com as primeiras ferramentas informáticas aplicadas ao estudo da linguística permitiu sistematizar e normalizar estas técnicas que só muito depois virariam em prática habitual. Assim, a ciência inundou os inúmeros trabalhos de dialectologia que o lançarom definitivamente à primeira linha da filologia e linguística mundial.

Mas o que é que representa o Mario Alinei para a Galiza?

Quando Alinei sintetizou a sua Teoria da Continuidade Paleolítica (agora Paradigma – PCP) em 1996(4), revolucionou os mais “sagrados” preceitos da linguística tradicional e, de passagem, abriu a porta a sucessivos trabalhos doutros investigadores e investigadoras(5) que forom colocando à Galiza e Norte de Portugal no cerne da génese e consolidaçom dumha das culturas nativas primigénias da Europa, nomeadamente a céltica.

Sem entrarmos agora em detalhes e tecnicidades, o postulado básico do PCP reside na necessária apariçom e evoluçom das línguas na Europa (e das suas culturas associadas) numha data muito anterior do que era comummente acreditado, isto é, como mínimo 10.000 anos antes do pensado. Dentro das linhas básicas por trás deste paradigma encontram-se as ideias de continuidade, estabilidade e antiguidade como sendo características gerais e habituais das línguas. Igualmente, devido à sua antiguidade, considera-se que o léxico das línguas naturais pode ser periodizado ao longo do curso da evoluçom humana. Finalmente, o PCP postula que os limites arqueológicos coincidem com as fronteiras linguísticas e que (umha grande inovaçom multi-disciplinar) a arqueologia e a genética(6) podem ajudar conjuntamente na compreensom dos movimentos dos grupos de populaçom e expansom das suas culturas materiais, paisagens culturais e tradiçons orais, fonte primária de informaçom.

O Alinei foi tecendo logo um sistema de análise e referência onde combinarmos diferentes conhecimentos. Ele próprio citou o PCP como “a hipótese de trabalho mais fácil”, aplicando dalgum jeito o princípio lógico da Navalha de Occam, quer dizer, a explicaçom para qualquer fenómeno deve assumir a menor quantidade de premissas possível. Propom-se pois que os falantes indo-europeus forom em verdade nativos na Europa desde o Paleolítico, ideia que foi levada por sucessivas investigaçons até o estádio actual de dúvida da existência do tal grupo “indo-europeu”(7).

Segundo esta reconstruçom, o processo de diferenciaçom das línguas teria levado um tempo muito prolongado mesmo, onde a apariçom de diferentes grupos locais produziria-se de forma gradual mas constante, derivando em falantes de proto-celta, proto-itálico, proto-germánico, etc.

Para o caso atlântico-céltico isto implica a ruptura total com o velho modelo invasionista polo qual povos celtas, guerreiros centro-europeus (à sua vez de origens difusas e nunca devidamente explicadas), teriam se espalhado e ocupado o resto do continente de leste a oeste, ficando depois só nos enclaves ocidentais mais remotos por causa do apogeu doutras forças e impérios (Figura 1). Este era o mito belicista e colonialista, nascido num ambiente social e geopolítico específico onde se procurava umha “raiz” quase mística dos poderes da Europa central(8). Encaixava bem com a mentalidade da época, mágoa só que a correlaçom arqueológica seja totalmente indefensável ou que a linguística e a genética vaiam no sentido contrário, por citar só algumhas eivas evidentes.

Figura 1

 

Por contra, o PCP situa a diferenciaçom destes povos (autóctones) na própria franja atlântica, desde a qual alcançariam outras partes do continente por um lento mas fluído processo de movimentos de populaçom, comércio, partilha de conhecimentos e acumulaçom cultural(9). Sem invasons, sem quebras. De facto, o conceito de “Celtic from the West” (‘céltico/celta do oeste’) foi popularizado mais tarde por investigadores alheios ao PCP como som o historiador e linguista John T. Koch e o arqueólogo Barry Cunliffe(10) (Figura 2).

Figura 2

 

Em breve, o PCP implica umha mudança total da nossa percepçom da pré-história europeia, um desmantelamento integral de velhas e confortáveis “verdades” localistas, umha reviravolta radical ao establishment académico e, por isso mais que outra cousa, recebeu atrozes críticas que com o passo do tempo nom se sustenhem. Porém, com cada novo trabalho o Paradigma ganha peso como modelo abrangente, coerente e integrador de saberes na pesquisa das nossas origens. Deste jeito, por exemplo, podemos entender na continuidade megalítica atlântica o papel fulcral da Galiza proto-céltica na sua equidistância geográfica norte-sul (da Escócia ao Saara), noutras palavras, a ideia da Galiza e Norte de Portugal como foco central numha civilizaçom milenar de gentes canteiras e marinheiras.

Entom, como poderíamos deixar de salientar a figura que deu forma ao, talvez, modelo definitivo no estudo dos autênticos alicerces da Europa? A quem possibilitou demonstrar as outrora “lendas” e transformá-las em documentos anexos da realidade científica? A pessoa que – sem querer, mas a verdade é teimuda – colocou à Galiza no berce dos celtas e, à vez, longe de imperialismos e supremacismos?

Honra eterna para você, mestre Mario Alinei.

Notas e referências
(1) Francesco Benozzo, poeta, músico, linguista e intelectual anarquista, catedrático da Universidade de Bologna e quatro vezes candidato a Prémio Nobel, foi discípulo e amigo pessoal do Mario Alinei. Benozzo é por direito próprio o grande nome que fica à frente do Paradigma da Continuidade Paleolítica umha vez falecido o Prof. Alinei. Vale como exemplo esta obra indispensável para o caso galego: Benozzo, F. e Alinei, M. (2008): A área galega na prehistoria lingüística e cultural da Europa. Apenas Livros (disponível em: https://durvate.files.wordpress.com/2014/06/alinei_benozzo_area-galega.pdf).
Agradeço-lhe enormemente a sua revisom e comentários sobre este texto.

(2) “Na marcha do Prof. Mario Alinei (1926-2018)”, em IDG. Acedido no 31 Agosto 2018: https://durvate.wordpress.com/2018/08/13/na-marcha-do-prof-mario-alinei-1926-2018/

(3) Cardini, F. (2016): “Le origini paleolitiche della lingua”, em Il Sole 24 Ore. Acedido 30 Agosto 2018: http://www.ilsole24ore.com/art/cultura/2016-08-12/le-origini-paleolitiche-lingua-203915.shtml?uuid=ADjUvw3&refresh_ce=1

(4) Em justiça, forom três arqueólogos/pré-historiadores e três linguistas diferentes que muito curiosamente apresentarom nos começos dos anos 1990 umha nova teoria sobre as origens Indo-Europeias de forma totalmente independente. Todos eles afirmavam a existência dumha continuidade ininterrupta desde o Paleolítico onde ficariam inseridos os povos e línguas. Estes eram Homer L. Thomas, Marcel Otte, Alexander Häusler, Gabriele Costa, Cicerone Poghirc, e o Mario Alinei, que viria combinar os diferentes achegamentos com as suas próprias investigaçons.

(5) Veja-se http://www.continuitas.org/, portal central do grupo de trabalho do Paradigma da Continuidade Paleolítica.

(6) Alinei defende, ao igual que Cavalli Sforza, que a distribuiçom de marcadores genéticos corresponde-se no geral à distribuiçom das línguas antigas. Chegou a afirmar que o 80% do material genético europeu procede do Paleolítico, citando a Bryan Sykes quando diz que só umha quinta parte da genética europeia deriva dos “recém-chegados” do Neolítico. Contudo, o uso da genética na PCP deve ser entendida única e exclusivamente como um indicador de deslocamentos e relacionamentos, umha ferramenta adicional na corraboraçom doutras evidências, jamais como identificador fenotípico ou racial, do que hai quem pretender tirar conclusons totalmente absurdas.

(7) A nom perder o titânico trabalho seminal de mais de duas mil páginas (em dous volumes) do Mario Alinei Origini delle lingue d’Europa (Bologna, il Mulino, 1996-2000), que lida sobre este tema, assim como a actualizaçom mais recente escrita junto Francesco Benozzo “European Philologies: Why Their Future Lives in Their Prehistoric Past”, Philology, 3 (2017), pp. 9-42.

(8) Seja dito que o controvertido, e ainda debatido, Modelo de Dispersom Neolítica de Renfrew (1987) tentou actualizar e matizar esta visom, mas a sua filosofia baseia-se ainda em os proto-indo-europeus serem povos vindos do leste (fora da Europa), embora mais pacíficos mas intelectualmente superiores (inventores da agricultura). Mália tudo, este modelo continua sem explicar como e onde, ou mesmo se realmente se produjo, essa “fractura” civilizacional com a chegada destes novos contingentes, pois nom pode dar explicaçom ao conjunto combinado de provas arqueológicas, linguísticas e genéticas que sustentam a ideia de continuidade e estabilidade no nosso continente.

(9) A melhor exemplificaçom deste ponto de vista encontra-se em Alinei e Benozzo “Les Celtes le long des côtes atlantiques: une présence ininterrompue depuis le Paléolithique”, em D. Le Bris (ed) Aires linguistiques / Aires culturelles, Brest, Centre de Recherche Bretonne et Celtique (2012), pp. 55-76.

(10) É desafortunado mas certo que o campo dos chamados Estudos Célticos a nível internacional encontram-se “sequestrados” por umha visom limitante (associando “celta” única e exclusivamente a um conjunto de línguas e ignorando outros aspectos culturais cruciais) dentro, à sua vez, dumha órbita eminentemente anglo-saxónica. Isto é, desde os anos 1980s os Estudos Célticos som frequentemente tomados como umha variante de estudos regionais britânicos, umha curiosidade académica norte-americana ou um exercício de análise e comentário de antigos textos irlandeses ou galeses. Assim o PCP, defendido principalmente por investigadores e investigadoras de fala nom-inglesa, só começou a ser debatido nesses foros após a apresentaçom das novas (sic) propostas de famosos catedráticos como Koch ou Cunliffe, que de forma paralela defenderam (e defendem) as raízes atlânticas dos povos celtas.
A obra editada conjuntamente por ambos em 2010 (Celtic from the West: Alternative Perspectives from Archaeology, Genetics, Language and Literature, Oxbow Books), chegou quase 14 anos mais tarde do que as primeiras propostas de Alinei ao respeito, assim que haverá que contar com esse desfase entre as últimas investigaçons do grupo do PCP e o que vaiam produzindo no mundo anglo-falante.

 

Ao Professor Mario Alinei
(1926 – 2018)
Boa viagem para o oeste.