Estudarmos a história nom chega

Por Anjo T. Cortiço/

É importante estudarmos a história para nom repetirmos os seus erros. Esta é umha afirmaçom muitas vezes empregada, especialmente quando em qualquer foro, do mais informal ao mais académico ou no discurso oficial, se fala sobre grandes desastres do nosso passado como guerras ou genocídios. Há um discurso que coloca no ensino de tais catástrofes históricas às novas geraçons a responsabilidade de evitarmos a sua repetiçom no futuro.

A isto acrescenta-se, principalmente no caso de sociedades que padecérom algum tipo de regime ditatorial, fascista e repressivo ou algumha experiência de genocídio, a necessidade de políticas públicas estatais de deslegitimaçom e puniçom dos setores que defendam a volta a esses regimes e práticas, assim como de processos de depuraçom dentro do aparelho estatal dos elementos vinculados a esse passado que se rejeita. Este tipo de políticas fôrom seguidas polos regimes de democracia liberal nascidos após a derrota do nazi-fascismo em 1945, uns regimes que fôrom criados num momento em que o antifascismo era um elemento de legitimaçom necessário.

Nom foi esse o caso do Estado espanhol e do seu regime atual. Como é bem sabido o regime do 78 nom nasce da ruptura com o fascismo, mas do pacto entre franquistas e esquerda reformista. Esse continuismo ajuda a explicar muitos dos factos que sucedem na atualidade, entre eles o que estes dias está a passar na Catalunha, com a extrema direita a agredir pessoas e a eliminar os símbolos da solidariedade com os e as presas políticas independentistas, ou a reaçom franquista da direita em contra do translado dos restos do assassino Francisco Franco fora desse tétrico e humilhante momumento que é o Valle de los Caídos.

Neste contexto é habitual ouvirmos muitas pessoas progressistas e até organizaçons políticas ou sociais de esquerda a se laiarem de que no Estado espanhol a legitimidade social do franquismo siga a ser tam importante, os seus símbolos se exibam sem pudor nem problemas com a lei ou os seus vozeiros tenham voz nos principais meios de comunicaçom a diário. “Isto nom passaria na Alemanha!”, dizem-nos, “ali a apologia do nazismo é delito e as crianças visitam os campos de extermínio para melhor compreenderem o que significou aquele horror”…

Pois bem, nom vou ser eu quem diga que nom seja necessário deslegitimar o franquismo por todos os meios possíveis nem tomar medidas de mínima limpeza democrática e antifascista, mas cumpre dizer que nem ensino nem políticas estatais serám quem de deter a besta se se dam as condiçons para o seu retorno. E as condiçons dam-se a cada dia mais, ou nesse caminho estamos.

E é que essas visitas escolares aos campos de extermínio e a repressom contra a extrema direita explícita nom estám a evitar na Alemanha de hoje, seica desnazificada, a vaga de violentas mobilizaçons nazis contra as pessoas migrantes nem o crescimento eleitoral de opçons como Alternative für Deutschland. Tampouco o antifascismo da República italiana surgida após a Segunda Gurra Mundial detém as políticas inumanas de Matteo Salvini. E que dizer de um caso como o francês em que se passou de mitificar a resistência ao nazismo ao auge da Frente Nacional.

Nom é tam doada a cousa. Por muito que assuste a democratas liberais e a progressistas de diversas pelagens o fascismo pode voltar e isso nom pode ser evitado sem confrontaçom. O fascismo pode voltar porque chegado o momento é funcional para a burguesia e contará com o seu apoio económico e militar. Deixará o leme do Estado nas suas maos de novo e já nom só para esmagar um hipotético perigo revolucionário senom também para moldear umha nova sociedade ainda mais hierarquizada e submissa num contexto de falência do capitalismo e de crescente carência de recursos (fontes de energia, água…) e de destruiçom do ambiente.

Nem as multas, nem os museus da memória, nem as e os professores de História som quem de parar o monstro. O único que chegado o momento pode fazê-lo é o desenvolvimento da sua antítese, de um projeto anticapitalista, antipatriarcal, anti-racista, anti-imperialista e antiautoritário com a suficiente magnitude e com a determinaçom necessária.

Daremos feito?