Ramom Muntxaraz e a memória arredista

Ramom Muntxaraz representando a Galiza num acto internacionalista da APU

Por Antom Santos /

Neste verao cumprírom-se dez anos do passamento de Ramom Muntxaraz, ‘Muntxa’; o seu recordo é obrigado, e tem para nós vários sentidos diversos e complementares, todos eles igualmente importantes.

Todos os exercícios de memória que, em forma de escrito ou homenagem, nos agrupam por volta dum companheiro falecido tenhem muito de homenagem pessoal. Isto nom é um feito baladi. Ramom Muntxaraz, com todo o que tivera de acusada personalidade e carácter, era um ‘camarada escuro’. Um desses homens e mulheres que faziam a maior parte do seu percurso na sombra, na discreçom, no anonimato, arredados do narcisismo que hoje é norma dominante dos comportamentos nesta sociedade desorientada. Mas apesar de valorarmos o recolhimento, o segundo plano, a preeminência do colectivo por diante do individual, nom por isso desconsideramos a importáncia de dar a cada um o que em justiça lhe corresponde, com nomes e apelidos. Isto é de justiça elemental. E a Ramom Muntxaraz corresponde-lhe o reconhecimento de todas as pessoas que modestamente prosseguimos o seu labor num panorama de parecida adversidade.

Poucos movimentos sociais e populares podemos topar no nosso país que suscitem à sua volta um número tam grande de inimigos e oponhentes como o independentismo galego; por isso poucos movimentos podemos topar que precisem dum tipo humano tam ancorado na paciência, tam disposto à adversidade como o nosso. Um tipo humano e militante que, com passo curto e olhar longo, trabalhe devagar numha conjuntura inçada de obstáculos, para deixar o testemunho às geraçons vindouras. Ramom Muntxaraz foi um destes homens e mulheres. Um de tantos que fijo possível -nem mais nem menos- a permanência dumha vindicaçom e dum movimento até este século que andamos. Entre outros muitos logros, cabe-lhe ao Muntxa a honra de contribuir para trazer a nossa rota até aqui mesmo, por muito que enormes muros de hostilidade e de silêncio pretenderam condenar-nos ao ostracismo e à extinçom.

Mas Muntxaraz foi umha pessoa que, como todas nós, só se pode entender no seio do colectivo ao que dedicou as suas melhores energias. Ao fazermos recordatório de Ramom Muntxaraz estamos a fazer recordatório dumha causa. Estamos a fazer memória arredista. Num tempo que despreza a experiência -e despreza portanto aos seus melhores portadores, as pessoas idosas- nunca se insistirá abondo na importáncia de cultivarmos a memória, de recriarmos as vivências, de tirarmos liçons para todo o que nos toca enfrentar. Enquanto a academia continue de costas viradas às necessidades essenciais do país, e os temas incómodos, que nom dam nem currículo nem eco na impostura das vidas virtuais, continuem proscritos, tocará-nos a nós manter vivo esse passado, recriá-lo com o máximo rigor, transmiti-lo com afám para o futuro. Em conversas informais e assembleias, em centros sociais e em brochuras, em arengas ou em bibliotecas populares, é o nosso dever premente registar a nossa árvore genealógica. O independentismo acumula já muitas décadas de vida, e um número tam grande de biografias, de vicissitudes humanas e políticas, que seria imperdoável nom mimarmos todo este tesouro.

Umha grande cantidade das pessoas que hoje participam activamente do independentismo provavelmente tratárom, dum modo ou outro, o Muntxa, e os dados da sua biografia som-nos a todos sobejamente conhecidos. Mas quiçá seja importante salientar que nem todas o conhecemos na mesma época, nem o observamos baixo a mesma luz, nem partilhamos com ele a mesma distáncia geracional. Ramom Muntxaraz foi umha pessoa apreciada, com um círculo social e político amplo, e um luitador de longo prazo que se mantivo na mesma trincheira em distintas jeiras da nossa história recente. Por isso do Muntxa haverá distintas perspectivas e retratos, todos válidos para recompor umha imagem cabal do nosso irmao.

A quem nos incorporamos à luita a meados dos 90, tocou-nos conhecê-lo esporadicamente, e com a distáncia inicial que se estabelece entre duas geraçons arredadas por várias décadas. Nós saíamos da adolescência militando na AMI e ele rematava a sua idade madura depois de contribuir, quanto menos, com quatro organizaçons políticas condicionadas pola repressom e processos cisionistas; nós olhávamos todo com ignoráncia, indecisom e curiosidade, namentres ele, cheio de cicatrizes, conhecia ao milímetro o terreno político no que se livrava a batalha. Polo que escuitávamos em palestras ou em conversas fugazes, ele era um dos militantes do ciclo político anterior, protagonizado polo fenómeno EGPGC, que refugava marchar para casa e ceder à desorganizaçom e ao desalento. Sabíamos que era um comunista fervente -assim o declarava ele-, dessa longa tradiçom de comunistas que, nascidos em meios acomodados e com vasta formaçom científica e humanista, abraçou de por vida a causa dos humildes e estivo disposto a aderir a umha via política ilegal e insurreccional, com todo o que acarreja. Mais um dumha legiom de médicos, advogados, professores ou pensadores que aproveitárom a qualificaçom burguesa para dar armas às oprimidas e oprimidos, sem maior preocupaçom polo expediente nem pola comodidade material. Tínhamos notícia de que era também um galego de adopçom que enxergou o celme do nosso povo, que desentranhara desde a militáncia e a prática psiquiátrica, para se fundir com os nossos sofrimentos, os que tam bem se reflectem nas palavras de Rosalia ou Castelao. Representava umha maneira original e irrepetível do ser galego que nos enriquecia: identificado com a nossa expressom sempre circular, matizada e atravessada por subtilezas e ironia; mas actuando decote de modos claros e rotundos, como aprendera nas suas origens mesetárias. Nom lhe custava ser cru quando cumpria sê-lo, superando essa peja tam nossa de falar com médias verdades para nom ferir um auditório; conhecedor do nosso amor polas pátrias pequenas, polo nosso arraigo à terra e às respectivas comarcas natais; mas possuidor dumha ideia da Galiza conjunta e global, sem mínima concessom ao localismo. Dizia-nos um dia que ele era galego de ningures, que era da Galiza inteira, e abofé que cumpriu na prática com essa afirmaçom. A sua primeira ferramenta militante era o carro, e as longas kilometradas que tem percorrido ano trás ano por mor de assembleias, encontros ou destinos laborais tenhem seguramente pouco equivalente no país. Soubemos dele em Vigo, tertuliando com novíssimas geraçons de militantes; vimo-lo conferenciando na universidade em Compostela; ou visitando em Lugo o novo local que o movimento vinha de inaugurar. Às viagens polas nossas estradas somava as longas rotas da dispersom penitenciária, de locutório em locutório.

Nom demoramos em decatar-nos de que Ramom Muntxaraz era também um intelectual. Era-o no sentido estrito da palavra, um homem que produzia pensamento trás esculcar cuidadosamente a realidade. Soubemos trás o seu passamento que a sua obra inédita acumula centos de páginas, e esperamos que algum dia poida ver a luz para uso e desfrute de todos. Era um intelectual, porém, dum tipo mui distinto ao que temos conhecido no galeguismo, e portanto arredado da tradiçom pinheirista que -com distintos nomes e distintos disfraces- tem infiltrado no movimento galego a laxitude organizativa, o culto ao laio e a renúncia. Tinha preocupaçons eminentemente práticas, e quiçá pola sua formaçom psiquiátrica -umha certa vocaçom da velha ‘sanaçom das almas’- estava sempre acarom da pessoa ou colectivo que precisasse umha ajuda concreta, um conselho, uns braços para o trabalho, umha reuniom à que assistir. Observado com a distáncia e com a passagem dos anos, pensamos que nunca deixou um paciente sem atender, umha organizaçom sem auxiliar ou um preso sem visitar por ter que escrever uns textos doutrinários. Sendo um marxista de livro, e um citador habitual dos grandes representantes da ortodoxia, com idêntico gosto pola sua prosa fria e cientifista, nunca lhe faltou compaixom: a compaixom no seu sentido etimológico, o ‘sofrer com quem sofre’, que é a chave que explica a disposiçom a afrontar as tarefas menos confortáveis sem queixa, com enteireza de ánimo.

Acho que é de rigor situar, num recordo que se pretende cabal, as diferenças que a mocidade independentista da década de 90 também mantivemos com o Muntxa, pois nom há maior respeito que a sinceridade no reconhecimento fraterno. Em vésperas do século que andamos, rejeitamos participar do projecto reorganizativo do movimento que Ramom Muntxaraz e um fato de veteranos militantes encetavam, apostando por outras vias, outros prazos e outras alianças; naquela mesma altura, leitores ávidos como éramos do ‘Informaçom Obreira’, publicaçom clandestina que ele animava, também recelávamos dumha prosa demasiado dogmática, pouco empapada da singularidade galega, e desajeitada com as realidades sociais e políticas daquele ciclo. E bem, se o tempo demonstrou que Muntxa e os seus camaradas estavam -neste ponto- enganados, também demonstrou que nós o estávamos. Eles trabucárom-se primeiro, nós trabucamo-nos depois, e nem o nosso plano reorganizativo nem a que pensávamos impoluta linguagem eram caminhos infalíveis para o êxito. A suas disciplinas pendentes, a organizaçom e a continuidade histórica, continuam a ser as nossas disciplinas pendentes em pleno 2018.

Dizemo-lo com umha mestura de humildade, satisfaçom e esperança. Humildade, porque o reto enorme da emancipaçom nacional galega revela sempre o nosso verdadeiro tamanho, longe das imaginaçons e da fatuidade; satisfaçom, porque ele o tentou, nós tentamo-lo, e estamos orgulhosos; e esperança, porque seguimos a tentá-lo. Nom há independentismo sem organizaçom e sem linguagem própria, e para produzirmos ambas realidades na melhor das suas potências, nom há outra fórmula: experiência acumulada, acçom incansável e vontade de futuro.

Em cabodanos como este, um sempre se pergunta até que ponto podem a memória, os nossos símbolos, as nossas velhas palavras, combater o tempo que todo o rui, manter viva a energia de quem se foi, e continuar fazendo dessa pessoa, desta silueta que se vai esvaecendo, um agente desta obra colectiva que nasceu em 1846 e afronta hoje desafios urgentes. Nom sabemos a fórmula. Si sabemos, em troca, que há nomes fortes, evocaçons poderosas que envelhecem bem; e que a só mençom do nome Ramom Muntxaraz mergulha-nos nuns recordos mui determinados que tenhem umha potência específica. Os dum homem que, neste baile de máscaras que vivemos nos tempos do espectáculo, se mantivo na lealdade essencial à causa independentista e comunista; os dum doutor que estivo acarom dos que padecem, contra todos os tabus da doença mental e da pobreza; os dum militante que nom soubo nem quijo calcular, e que portanto estivo disposto a pôr-se no alvo apoiando incondicionalmente os e as militantes da luita armada na Galiza; e os dum velho -dito carinhosamente- que mantivo o espírito jovem com a cabeça cheia de cabelos brancos, sem desbotar nem reunions, nem viagens, nem pintadas, nem trasnoites, nem manifestaçons para estar com a sua gente no lugar e na hora que o dever exige.