Por Jorge Paços /

Em vésperas do nosso dia grande, falamos com Ibám Losada, membro do Comité Executivo de Causa Galiza, que nos esclarece quais som as linhas mestras da convocatória independentista numha situaçom que a organizaçom qualifica como ‘de emergência nacional e social’.

Neste ano, anunciastes que pretendíades umha única mobilizaçom independendentista em Compostela por riba de siglas e partidos. Qual foi o processo de convocatória, e por que finalmente nom foi adiante?
Sim, efetivamente, umha mobilizaçom ”por cima” de siglas e partidos, mas ”com” elas’, pois som quem a vertebrariam e fariam possível. Soemos chamar a isto resposta ”de País”, ou ”como povo”…

Por parte de Causa Galiza, estando conscientes de qual é a correlaçom de forças no campo nacionalista entendido em sentido amplo, mas também de quais som os reptos e necessidades do momento, dirigimo-nos a todos os agentes políticos, sindicais e juvenis nacionalistas e independentistas com a oferta de reorientar politicamente a celebraçom do Dia da Pátria. A oferta era passar de um cenário de concorrência entre projetos políticos que inibe a participaçom de muitos e muitas patriotas para um outro de mobilizaçom ”como povo”, por volta dum mínimo comum denominador num contexto excecional como o atual -crise do regime de 1978, perspetiva de reforma constitucional, etc.-. Algo semelhante, com menos perfil, fijo-se em 2015.

Da nossa ótica, este mínimo comum denominador situa-se hoje por volta da aposta num processo de rutura democrática nacional com o Estado espanhol através do exercício do direito de autodeterminaçom e umha perspetiva explicitamente independentista. Por que? Primeiro, porque entendemos que o Estado espanhol nom é democratizável do ponto de vista das naçons sem Estado que o componhem, porque avaliamos que a via da reforma estatutária é incapaz de dar resposta às principais problemáticas da naçom e, por último, porque a conquista da soberania, que é um processo ruturista, nom é o projeto de um partido, organizaçom ou corrente político-social. Em segundo lugar, colocamos sobre a mesa a clarificaçom da perspetiva independentista nom por umha questom de ”maximalismo”, ”radicalismo” ou de impedir alianças, mas porque avaliamos que é, hoje, a única concreçom possível para a soberania nacional. O dilema entre mais descentralizaçom administrativa com continuidade da dependência e independência é a disjuntiva à que hoje se enfrenta este País.

Em 26 de maio celebrou-se a primeira reuniom exploratória. A assistência foi minoritária e nom logrou envolver os agentes com mais capacidade organizativa e de mobilizaçom polo que a tentativa foi desbotada e fumos ao ”plano B”, que era umha convocatória como Organizaçom, que sob distintos formatos figemos desde 2007. A inviabilidade desta reorientaçom do Dia da Pátria é devida, da nossa ótica, a múltiplos factores. Atreveria-me a apontar três principais: a conceçom de que todo o processo político nacional deve passar polo liderado de umha única organizaçom; a ausência no presente dum forte músculo independentista, que possibilite dinámicas distintas das existentes e envolva outros setores e a indisposiçom latente em amplas faixas nacionalistas a admitir, com factos, com praxe e acordos, para além da retórica e os textos congressuais, que o futuro do País passa por umha aposta de rutura democrática e independentismo. Que se estejam a fazer propostas inviáveis de novo Estatuto de Autonomia ao tempo que se declara ”esgotado” o modelo autonómico indica a contradiçom permanente em que, ainda, navegam amplos setores nacionalistas. Pola nossa parte, seguiremos neste direçom em relaçom ao Dia da Pátria e, por extensom, à perspetiva de futuro como naçom, que passa por acordos amplos entre diferentes sobre os minimos apontados e, também, por fortalecer o projeto independentista.

Volvedes a convocar um Dia da Pátria pouco tempo depois de a Audiência Nacional levantar a sua ilegalizaçom cautelar sobre a organizaçom, mas a Operaçom Jaro continua a instruir-se. Qual é o dia a dia da Organizaçom numha conjuntura tam especial? Como afrontades a ameaça repressiva, e como responde a base social?
A Audiencia Nacional levantou o que denomina juridicamente como ”suspensom de atividades”, que é, de facto, umha ilegalizaçom, em dezembro de 2016 após um ano de aplicaçom. A iniciativa dos nossos advogados foi necessária para que desativar a medida, mas temos claro que a decisom foi política: o Estado avaliou que a eficácia repressiva procurada era idêntica prescindindo da ilegalizaçom, que provocava certo rechaço social, e mantendo um número significativo de militantes processados e processadas no tribunal de exceçom. A isso engadiu umha política de jaque permanente, com a abertura de novas ”peças” do mesmo sumário, como aconteceu em junho de 2017 com a Operación Jaro II contra Ceivar, e a intensificaçom da repressom de baixa intensidade.

Com franqueza, deve-se admitir que estes golpes repressivos debilitárom a Organizaçom, criárom certo distanciamento preventivo nos nossos círculos sociais e baixas na militáncia. Que fazer trabalho político independentista poda ser sancionado com prisom é umha perspetiva que pom a prova muitas vontades. No entanto, como aspeto positivo, temos que reconhecer também que este embrionário projeto político independentista sobreviveu e sobrevive aos golpes e que, com humildade, com debilidades, segue vivo apesar do tsunami ocorrido no campo nacionalista e independentista desde 2012. Sendo equánimes isto só pode ser considerado um sucesso. Logo, para além do factor repressivo, está a retraçom geral que existe nestes momenttos no compromisso militante e afeta todo tipo de estruturas de contra-poder, sejam políticas, sociais ou sindicais. O independentismo organizado nom é um oase de compromisso frente esta tendência geral. É nestas condiçons adversas que se produz a continuidade, com muito esforço militante e vontade de superarmos a condiçom minorizada, que nom marginal.

A respeito de como afrontamos a repressom vivida, entendemos que a melhor resposta é fazer política independentista e esquivar o círculo vicioso em que a repressom pretendeu envolver-nos. Se o inimigo lograsse que a intervençom independentista se limitasse ao trabalho anti-repressivo já teria ganhada a partida em grande medida porque nesse círculo nom existe soluçom possivel.

Na vossa convocatória falades dumha situaçom de ‘emergência nacional e social’ que obriga a dar passos políticos mui concretos. Podíades concretar este diagnóstico e a vossa aposta imediata?
A situaçom de Emergência Nacional e Social que vive este País é, provavelmente, um dos diagnósticos que a dia de hoje partilhamos a prática totalidade ou a totalidade dos setores nacionalistas e independentistas. Os dissensos nom se produzem na caraterizaçom de que sucede. Assim, o facto de sermos após quarenta anos de regime autonómico o país com a taxa de natalidade mais baixa do planeta, a progressiva pauperizaçom e precarizaçom das condiçons de vida e trabalho da maioria social, que a CIG tem denunciado com dados em múltiplas ocasions, a continuidade e multiplicaçom da espoliaçom territorial e dos recursos, a histórica conversom do Galego numha língua minorizada no seu próprio território de origem, etc., etc. debuxam um panorama preocupante para a viabilidade estratégica da naçom galega e para as condiçons de vida da maioria social. Perante isto, nom se alviscam horizontes confiáveis de melhora, mas umha tendência clara a que estes fenómenos se expandam e agudizem.

Qual é a nossa aposta imediata? Em primeiro lugar, por razons evidentes, afortalar o projeto político que estamos a construir. Dificilmente se pode condicionar a evoluiçom da realidade desde a fraqueza. Issto tem a ver diretamente com o Processo Trevinca. Em segundo lugar, avaliamos que os próximos tempos vam colocar negro sobre branco o contraste entre discursos, relatos e praxe politica. Em 1981, o grosso do universo nacionalista e independentista rechaçou de distintas maneiras a opçom estatutária, anunciando que possibilitaria o avanço dum processo de deconstruçom nacional e empobrecimento, como de facto aconteceu. Hoje, esse universo, num sentido lato, enfrenta de novo um dilema similar: apostar numha melhora estatutária que a todas luzes parece improvável dada a correlaçom de forças, ou abraçar, com factos e estratégia, umha perspetiva independentista como única opçom possível. A nossa vontade é alimentar este debate e, com a certeza de que se abrirá um novo ciclo autonómico, acumular e organizar forças por volta dum projeto político independentista com perspetiva de futuro cuja atividade pivote, sobretodo, sobre a auto-organizaçom, o empoderamento social, a construçom nacional e a conflituosidade.

Que perspectivas enfrenta a Galiza com o novo contexto político estatal? Que podemos aguardar da direita social-liberal no governo?
Cifrar expetativas para a Galiza na alternáncia de partidos dinásticos espanhóis à frente da gestom governamental parece-nos um erro. No substancial, PSOE, PP, Ciudadanos e, em grande medida, no relativo à Galiza, Podemos, partilham um modelo similar. A praxe do novo Governo espanhol -conflito catalám, reforma laboral, publicaçom das fortunas fiscalmente amnistiadas, etc.- indica, como era de esperar, que a ortodoxia económica e a defesa fechada da unidade do Estado continuarám do mesmo jeito que com o PP embora mudem as formas. Expetativas, portanto, as mínimas: o regime colocou o PSOE à frente do Governo espanhol apenas para gerir a fase atual do processo de concentraçom e centralizaçom do poder económico, financeiro, político e administrativo.

Com direita neofranquista, ou com direita social-liberal, a oferta espanhola para a Galiza seguirá a ser idêntica no substancial. Como naçom, como maioria social, como povo trabalhador galego, as esperanças no futuro só virám do esforço coletivo, a auto-organizaçom quotidiana, o empoderamento da sociedade galega, etc. A bola está sobre o nosso telhado.

No vosso video promocional do 25J figuram várias palavras de orde essenciais da vossa aposta, tais como ‘militáncia’, ‘compromisso’, ‘valentia’…som termos contundentes que tenhem desaparecido do vocabulário de muitos movimentos sociais em favor de termos mais difusos, e até lúdicos, numha concepçom da luita mais baseada no impacto mediático imediato, no mundo virtual e na ‘performance’. Que pensades desta evoluçom, e da posiçom que deve defender o independentismo quanto a questom do compromisso?
Ideias como compromisso, militáncia, organizaçom, valentia, etc. som elementos chaves, da nossa ótica, para qualquer movimento minorizado que, à vez que enfrenta importantes dificuldades para avançar, pretende alimentar e sustentar nestas condiçons um projeto estratégico -a independência, a rutura, etc.- para a Galiza. Neste ano celebramos o 50º aniversário da recuperaçom do Dia da Pátria. Essa recuperaçom, por exemplo, seria impensável sem organizaçom, sem disciplina, sem militáncia comprometida, etc. Esse é o combustível que se necessita para avançar quando se navega com vento de proa. Nada a ver com um ascetismo religioso, ou com umha vocaçom de distanciamento frente à maioria social. O marketing e as aparências externas podem ser mutáveis, mas a cerna deste projeto político é que se desenvolve a partir da entrega militante, a acumulaçom de forças, a construçom dumha estratégia confiável, etc., ou é inviável.

Colocades como central a exigência independentista em toda a vossa intervençom, e também na convocatória do 25j. Este norte estratégico parece ser assumido por cada vez mais organizaçons nacionalistas antes situadas no autonomismo. Como valorades esta evoluçom? A que se deve? Coloca melhores condiçons à vossa luita?
Este é um tema muito interessante, que merece ser clarificado e que provoca, às vezes, por incompreensom, dissensos e conflitos que seriam evitáveis. A centralidade que outorgamos à resoluçom da questom nacional nom é um capricho: é devido a que entendemos que existe, obviamente, umha questom nacional específica que resolver -dependência colonial, nula capacidade de decisom no regime autonómico, complexos de inferioridade derivados deste estatus político, etc.- e que nom é apenas umha questom ”cultural” ou ”identitária”, mas um factor imprescindível para avançar a todos os níveis. Por outra parte, avaliamos que a perspetiva da mudança do modelo sócio-económico, ou a construçom do socialismo na Galiza, só é possivel a partir da possessom do nosso próprio Estado e dum povo auto-organizado e empoderado. Dai a consigna A independência é o único caminho. A independência como finalidade em si própria, mas, também, como alavanca imprescindível para outros desenvolvimentos sociais, económicos, políticos, etc.

A respeito da assunçom quando menos formal ou discursiva da posiçom independentista por a cada mais organizaçons e coletivos na Galiza é óbvio que se trata dum fenómeno positivo e satisfactório. Ojalá chegue o dia em que o debate político neste País se produza entre façons independentistas a respeito do caminho a seguir em vez de se dar sob um espanholismo socialmente hegemónico. A origem desta evoluiçom parece-nos que é mútipla. Por umha parte, a existência desde 1976 de projetos e dinámicas independentistas neste País à margem dum nacionalismo que apostou na autonomia acho que é um factor determinante para que avançasse a normalizaçom e a socializaçom da perspetiva independentista. Soe-se obviar esta realidade, mas parece evidente. Por outra parte, as novas geraçons de galegas e galegos liberam-se dos tabus impostos no passado por parte do próprio nacionalismo hegemónico. Isto também é positivo, porque indica maduraçom: provincialismo, regionalismo, nacionalismo e, também, agora, independentismo. Por último, o sucedido na última década no Estado espanhol é um elemento também determinante: o processo do Estatut pujo negro sobre branco umha realidade que muitos teimavam em negar: é impossível um progresso competencial continuado nas condiçons do Reino de Espanha. A aposta autonomista tem teito e o soberanismo gradual, por acumulaçom de novas competências, que se imaginou nalgum momento, fai parte da política-fiçom. A viabilidade da naçom passa, necessariamente, por um processo de rutura com o Estado espanhol. As liçons que se extrazem do processo catalám, que eram óbvias para setores minoritários, tenhem hoje mais audiência do que sempre. À beira disto, é evidente que há setores sociais e politicos que se seguem a comportar politicamente como se estas evidências nom se colocassem sobre a mesa.

Finalmente: nós nom repartimos carnés de autenticidade independentista. É manifesto que é independentista toda aquela pessoa e organizaçom que assim se autoproclamar. No entanto, o que sim convidamos a avaliar sempre é se certas estratégias e práticas permitem avançar nesta direçom e se a subordinaçom da perspetiva independentista a projetos e estratégias que, decididamente, nom apontam nesta direçom, permite o fortalecimento do projeto estratégico. Da nossa ótica, com visom ampla e alianças de mínimos democráticos nacionais, o projeto independentista deve ser autónomo.

Um dos aspectos mais comentados da vossa intervençom pública recente é o ‘processo Trevinca’, do que apenas apontastes algumhas informaçons básicas. De que se trata? Em que consiste e quais som os seus prazos? Daredes novas informaçons no 25j?

A inconcreçom pública do Processo Trevinca é procurada e consciente e resolverá-se nos próximos meses. Neste momento, apenas pretendemos colocar à vista de todos e todas umha necessidade e umha expetativa: a de atualizar cientificamente os diagnósticos que temos sobre a realidade nacional, estatal e internacional, clarificar quais som as tendências dominantes nestas realidades e, a partir desta visualizaçom materialista do cenário, perfilar a nossa própria estratégia independentista, com as suas táticas, as suas políticas setoriais e de alianças, modelos organizativos, etc., etc. É um trabalho ambicioso, mas imprescindível. Quem optárom por fazer do independentismo um tabu soem afirmar que ”nom chega com gritar independência”. E neste ponto, embora a afirmaçom responda a outras intençons, há que lhes dar a razom: além de entrega militante e generosidade, necessita-se umha folha de rota crível que convoque ao compromisso.

O Processo pretende envolver os setores que identificam a necessidade dum projeto político independentista que atue sem complexos nem limites autoimpostos na realidade social e política deste País, desde o sindicato à câmara municipal, desde a associaçom de vizinhas ou o centro social até a batalha de ideias, etc., com a auto-organizaçom e o empoderamento sociais como centros de gravidade. Um projeto político que fuja dos guetos e da vontade de ”habitar nas margens” e, progresssivamente, na medida das suas capacidades, tenha como interlocutor a maioria popular e trabalhadora que vertebra a naçom.

Somos conscientes de que a gente independentista que nom se supeditou às grandes apostas do campo nacionalista está desanimada, cética e incrédula. Isso reflite-se claramente nos atuais níveis de implicaçom e militáncia. Nestas condiçons gerar ilusons e expetativas é complexo, mas esta é a aposta que fazemos com o Processo Trevinca.