Real Academia Galega desbota mais umha vez que Carvalho Calero reciba homenagem nacional

Por Jorge Paços /

Por sétima vez desde que se instaurou a celebraçom do Dia das Letras, a Real Academia Galega rejeitou escuitar as petiçons do movimento associativo e as demandas de justiça histórica e intelectual com Ricardo Carvalho Calero. Em plenário celebrado no dia de hoje apostou por dedicar o vindouro 17 de Maio a Antom Fráguas, polígrafo galeguista associado com a cultura oficial autonómica no último tramo da sua vida. Carvalho, um dos pais do reintegracionismo linguístico, seguirá condenado ao ostracismo pola mesma elite culturalista que o pretendeu ensombrecer em vida.

Carvalho Calero foi um nacionalista polifacético que brilhou na literatura, no ensaio, no labor docente, e no compromisso político. Forjou-se como galeguista na chamada geraçom do Seminário de Estudos Galegos e luitou nas fileiras do PG polo Estatuto de 1936. Oficial no bando republicano, foi encarcerado durante dous anos em Espanha sob a acusaçom de ‘separatista’.

Romancista e poeta, Carvalho foi em muitos sentidos precursor : escreveu a primeira novela galega da posguerra (A gente da Barreira) ; foi autor da primeira história da literatura galega e aliás primeiro catedrático da nossa língua e literatura na USC, colaborou activamente com o grupo Galáxia, a geraçom que recuperou o galego para a alta cultura. A diferença dos seus colegas de geraçom e orientaçom genericamente galeguista, porém, apostou na filosofia e prática reintegracionistas, dotando-a de poderosas razons científicas e éticas. O enorme potencial normalizador da inserçom do galego na sua dimensom histórica e internacional apavorou as elites autonomistas que elaborárom a norma do ILG-RAG. E se o reintegracionismo foi perseguido nas aulas, excluído do mercado editorial e deslocado da reivindicaçom política institucional por considerar-se ‘demasiado radical’, Carvalho também foi abocado às margens. A sua firmeza na defesa do ideário idiomático é o que explica a contínua negativa da RAG a socializar a sua figura.

Antom Fráguas, o escolhido

O homenageado neste 2019, Antom Fráguas, partilha alguns traços com Carvalho no primeiro tramo da sua vida : foi um galeguista das Irmandades e animou o Seminário de Estudos Galegos com importantes estudos geográficos, arqueológicos e históricos. Foi também repressaliado polo fascismo, e perdeu o seu posto como docente até a década de 50.

Aproveitando o aberturismo chegado com a Reforma política, Fráguas impulsionou o Museu do Povo Galego e participou do Conselho da Cultura Galega, até o seu passamento a finais da década de 90.

As razons de fundo

Já em 2010, ao se cumprirem 20 anos do passamento de Carvalho, os concelhos de Ferrol, Corunha, Compostela, Vigo, Ponte Vedra e Ourense solicitaram oficialmente a RAG a homenagem para o ferrolao; mas a instituiçom, que ignorara historicamente o movimento social, apostou também por ignorar as vozes institucionais que desejavam um contraponto no ritual do 17 de Maio.

Sem pormos em causa os méritos eruditos e cívicos do vindouro homenageado, a exclusom de Carvalho Calero volve a patentear a decisom da RAG de continuar de costas viradas a umha filosofia idiomática e cultural, a reintegracionista, que alimentou de energia e contundência o movimento de recuperaçom da nossa língua. A socializaçom oficial dumha das suas figuras egrégias por parte da imensa maioria da sociedade suporia umha injecçom de força para a língua num tempo crítico para a sua sobrevivência.

Mas enquanto isso nom acontece, será o movimento popular, dinamizado por entidades como A Associaçom de Estudos Galegos, a AGAL ou os centros sociais, quem manterá o facho aceso em favor das mais valiosas figuras da nossa dissidência cultural.