Necessidades?

Por Antia Seoane /

O jornal norte-americano USA Today publicava recentemente um estudo onde se dizia que a corporaçom Apple vendera durante o ano 2017 um total de 223 milhons de telemoveis Iphone, sendo assim o dispositivo eletrônico mais vendido do ano. Para fazer-se umha ideia da cifra, há que pensar que apenas quatro estados em todo o planeta tenhem umha populaçom superior a esta cifra. Mas qual é o motivo de que tal quantidade de pessoas merque um telemóvel inteligente que custa arredor dos mil euros? Tam necessário é um telemóvel?

Qualidade de vida e necessidades

A qualidade de vida de umha pessoa, ou de umha comunidade, depende da capacidade que tenha esta pessoa, ou comunidade, de satisfazer ajeitadamente as suas necessidades fundamentais. E aqui é onde devemos definir o que som as necessidades fundamentais. Umha necessidade é aquilo que é absolutamente imprescindível para viver, ou melhor dito, para ter umha vida digna. Mas como expressou Manfred Max Neef, as necessidades humanas fundamentais som poucas, finitas e classificáveis e som as mesmas em todas as culturas e em todos os períodos históricos. Podemos resumir estas necessidades em nove: subsistência, proteçom, afeto, entendimento, participaçom, ócio, criaçom, identidade e liberdade.

Como dize Max Neef, as necessidades nom estám culturalmente determinadas, mas o que sim está culturalmente determinado é o jeito de satisfazê-las. Cada sociedade, condicionada polo seu sistema político, econômico e social, adota um modo diferente para satisfazê-las, ou nom. Cada sociedade satisfaz, ou nom, estas necessidades mediante a geraçom de uns satisfatores concretos.

Assim por exemplo, a necessidade de entendimento é coberta na nossa sociedade, por umha série de satisfatores que o sistema nos proporciona: escolas, universidades, bibliotecas, literatura, médios de comunicação,… Estes satisfatores podem ser suficientes para satisfazer umha necessidade concreta. Se o sistema nom é quem de satisfazer as necessidades de, quando menos, umha maioria dos membros da sociedade, esta estará criando umha sociedade enferma.

O capitalismo nom cobre as nossas necessidades

Como escreviam no texto anônimo Nós já comezamos, “A necessidade nom é aquilo a que os dispositivos capitalistas nos acostumaram. A necessidade nunca é necessidade de cousas sem ser ao mesmo tempo necessidade de mundo. Cada umha das nossas necessidades liga-nos, para além de toda a vergonha, a todo aquilo que a compom. A necessidade nom é mais do que o nome da relaçom através da qual um determinado ser sensível dá existência a este ou aquele aspeto do seu mundo. É por isso que aqueles que nom possuem mundo – as subjetividades metropolitanas, por exemplo – também nom possuem senom caprichos. E é por isso que o capitalismo, embora satisfaz como ninguém a necessidade de cousas, só distribui universalmente a insatisfaçom: porque para satisfazer essas necessidades, terá de destruir os mundos”.

A relaçom causa-efeito, neste caso a relaçom entre umha necessidade e o médio para satisfazê-la, pode ser mais simples ou mais complexa. Por exemplo, para satisfazer a necessidade de subsistência é imprescindível dispor de abrigo e alimento e para conseguir isto podemos cultivar nós mesmas os verduras, frutas e algodão e cozinhar a nossa comida e fabricar a nossa roupa, ou bem podemos procurar um emprego assalariado, mercar o carro que precisamos para ir cada dia a trabalhar, receber um salário a fim de mês, ir a umha grande superfície a mercar roupa e comida, e já na casa, vestir-nos e cozinhar o jantar.

Noutro exemplo, para conseguir afeto, a televisão dize-nos que devemos vestir de um determinado jeito, possuir determinados objetos –o iphone é um deles–, frequentar determinados locais, usar determinadas redes sociais, oferecer umha determinada imagem,… Deste modo, dizem, conseguirás amizades e por tanto, também o afeto que procuras. Mas todo isso é falso, o afeto nom se consegue assim, consegue-se cuidando as nossas relaçons pessoais.

O capitalismo tem a faculdade, e a obriga para sobreviver como sistema, de emaranhar o fio que une as necessidades e o modo de satisfazê-las. Emaranha tanto o fio que chega o momento em que confundimos as necessidades e o médio para satisfazê-las. Por exemplo, nos exemplos anteriores, muita gente pode considerar o carro, ou o iphone, como necessidades, mas nom som nem satisfatores.

O sistema seduze-nos com um sem fim de sucedâneos que nos mantém na insatisfaçom e na carência permanente, e ele apenas satisfaz a necessidade de consumo que o capitalismo tem para dar saída à sobreprodução e continuar com o sagrado crescimento econômico. É aqui onde devemos ser críticas para nom deixar-nos levar pola corrente, e satisfazer as nossas necessidades sem sucedâneos.