Cuidar da potência

Polo Comite Invisível /

A tradição revolucionária é atacada de voluntarismo como uma tara congénita. Viver cego rumo ao amanhã, marchar rumo à vitória, é uma das raras formas para aguentar um presente que não disfarça o horror. O cinismo é a outra opção, pior, a mais banal. Uma força revolucionária deste tempo deve zelar sobretudo pelo crescimento paciente da sua potência. Face a esta questão, durante muito tempo recalcada para trás do tema obsoleto da tomada do poder, encontramo-nos relativamente desprovidos na hora de a abordar. Não faltam nunca burocratas a saber exatamente o que contam fazer com a potência dos nossos movimentos, isto é, a saber como fazer dela um meio, um meio para o seu fim. Mas da potência enquanto tal não temos por hábito preocupar-nos. Sentimos confusamente que ela existe, avistamos as suas flutuações, mas tratamo-la com a mesma ligeireza que reservamos a tudo o que se mostra como “existencial”. Um certo analfabetismo na matéria não é estranho à textura nociva dos meios radicais: cada pequeno empreendimento grupuscular pensa imbecilmente, empenhado que está numa luta patética por parcelas minúsculas do mercado político, que sairá reforçado por enfraquecer os seus rivais caluniando-os. É um erro: ganhamos em potência ao combater um inimigo, não ao rebaixá-lo. Mesmo o antropófago quer melhor do que isso: se ele come o seu inimigo é porque o valoriza tanto que quer alimentar-se da sua força. À falta de poder colher na tradição revolucionária sobre este aspeto, podemos atentar na mitologia comparada. É sabido que Dumézil chegou, no estudo das mitologias indo-europeias, à sua famosa tripartição: “Através dos sacerdotes, dos guerreiros e dos produtores articulam-se as «funções» hierarquizadas de soberania mágica e jurídica, de força física e principalmente guerreira, de abundância tranquila e fecunda.” Omitamos a hierarquia entre as “funções” e falemos antes de dimensões. Nós diríamos assim: toda a potência tem três dimensões, o espírito, a força e a riqueza. A condição do seu crescimento é manter as três juntas. Enquanto potência histórica, um movimento revolucionário é esse deslocamento de uma expressão espiritual – quer tome uma forma teórica, literária, artística ou metafísica –, de uma capacidade guerreira – quer seja orientada para o ataque ou para a autodefesa – e de uma abundância de meios materiais e de lugares. Estas três dimensões combinaram-se de forma diversa no tempo e no espaço, dando origem a formas, a sonhos, a forças, a histórias sempre singulares. Mas cada vez que uma dessas dimensões perdeu o contacto com as outras para se autonomizar, o movimento degenerou. Ele degenerou em vanguarda armada, em seita de teóricos ou em empresa alternativa. As Brigadas Vermelhas, os situacionistas e as discotecas – perdão, os “centros sociais” – dos Désobéissants como fórmulas-tipo do insucesso em matéria de revolução. Zelar pelo crescimento enquanto potência exige de qualquer força revolucionária um progresso concomitante em cada um desses planos. Ficar retido no plano ofensivo é a prazo ficar sem ideias sagazes e tornar insípida a abundância de meios. Deixar de se mover teoricamente é assegurar que se será apanhado desprevenido pelos movimentos do capital e perder a capacidade de pensar a vida nos nossos locais. Renunciar à construção de mundos pelas nossas mãos é condenar-se a uma existência espectral.

“O que é a felicidade? O sentimento que a potência aumenta – de que um obstáculo está em vias de ser ultrapassado”, escreve um amigo.

Tornar-se revolucionário é entregar-se uma felicidade difícil mas imediata.

*Texto do comité invisível, pertencente à obra: “Aos nossos amigos”.