Más maes

Por Lucy Sombra (traduçom do galizalivre) /

Levo muitos anos a lhe dar voltas ao tema da maternidade. Acho que a primeira vez foi quando alguém escuitou o meu relógio biológico a fazer tique-taque mais do forte do que eu, e assinalou-mo generosamente. Ainda que daquela eu nom tocasse um meninho nem com um ponteiro láser, hoje hei de confessar que o meu filho cai-me bastante bem. Mas nem foi doado.

Custou-me mais de dous anos reconciliar-me com a sua existência e criar o meu próprio modelo de maternidade ; desenvolver umha relaçom de meu e genuína com ele, longe do esperável por todas e todos os demais, longe do bombardeamento brega e sentimental. Foi muito custoso emocionalmente, e mais levando em conta o auto-colante que me identifica como divorciada, o meu trabalho assalariado fora do lar, o meu tempo e dedicaçom a jornada completa ao activismo político, e o feito de nom me ter dado nunca a ganha de renunciar à minha vida fora do ‘universo nen@’. Paralisa-me com que naturalidade se assume que as maes deixem de ter vida própria, como está socialmente normalizada a nossa perda de identidade, a nossa anorexia de interesses e estímulos.

Volvo a pensar na maternidade cada vez que alguém me diz “nom tes pintas de mae”. Imagino a cena d’A invasom dos ultracorpos , quando os humanos desparasitados por aliens assinalam o humano ainda sem desparasitar. Gorenta-me nom estar desparasitada, nom ter pintas de mae, de ‘Boa mae’ quero dizer, nom ser mae de look hegemónico, nom pertencer ao modelo de maternidade dominante, mae com recendo de merenda e com as suas crianças de fundo de ecrá.

Sempre me apavorou o dia da mae e essa engrenagem que pom em andamento o capitalismo para fazer caixa com todos esses livros de estética cupcake, todas essas cuncas com mensagens que assemelham hashtags tirados dalgumha sessom sórdida de coaching, todos esses hinos e homenagens provenientes dumha sociedade cheerleaderesca, decote entusiasmada com a maternidade.

(…)

Acho que há algumha cousa de perversa no entusiasmo permanente e muito hipócrita por volta da maternidade-que-sempre-sorri. Alguém devesse começar a dizer que nom é real, que todo esse ultrafelicismo do imaginário mamai-sempre-leda é dogmático, é insultante e tremendamente parvo.

Alguém tem que começar a dizer que ser mae nom tem nada a ver com superar umhas oposiçons para ser perfeita, nada a ver com ser aeromoça, nem com ser a imagem fixe de nenhuma empresa patrocinadora de sei lá que cousa ; nem significa levar um quadro arredor da cabeça como se fôssemos umha janelinha de cara ao público : sempre guapas, sempre radiantes, sempre com força e alegria, sempre preocupadas com trocar pontos para entrarmos no Céu das Maes.

Simplesmente há dias que nem sequer os filhos e filhas evitam que sejam umha puta merda. E nom se passa nada. Há dias que som até mesmo mais merda ainda com as crianças. E nom se passa nada. As maes também temos direito à nossa legítima tristura, à nossa legítima canseira, à nossa legítima apatia. E nom se passa nada. O ideal de feminidade -mulherinha, esposinha e mamanzinha- inspirado na Virge Maria leva-se a impor desde que Deus mandou a Bíblia ao prelo.

(…)

Que ninguém pense ser casual que às mulheres sempre se nos descrevesse a nossa própria felicidade, século após século, como algumha cousa externa, desde o dia do nosso casoiro até o dia do nascimento da nossa primeira filha ou filho. O dia do nosso casoiro indica que já é oficial o feito de nom vivermos sozinhas e amarguradas (isto vai junto) ; é oficial que já topamos (porque também nos dixérom que cumpre procurá-lo) o nosso tesouro ao final do arco da velha : alguém que nos acompanhar de por vida, e -preferivelmente, é claro- que seja um homem.

Por outra banda, o dia em que nos convertemos em maes “completamo-nos” (os homens nunca estivérom incompletos), deixamos de sentir “esse baleiro” (os homens nunca estivérom baleiros).

Ter fome de filhas nom devesse ser nunca umha imposiçom social interpretada como um desejo próprio, nem ser mulher devesse ser um formulário no que ir preenchendo casas. Porventura se referir a isto Betty Friedan ao falar do “malestar que nom tem nome” e que o feminismo leva dous séculos tratando de identificar como aquilo que fai que vaia (nos siga indo, ainda que em menor medida) mal.

As feministas temos o feio costume e longa tradiçom de rexoubar. Si, dixem rexoubar; criticar está bem, rexoubar está mal. A filha predileta do patriarcado, essa carracha que nos parasita a todas as mulheres e que convinhemos em chamar misogínia, leva tempo enfrentando-nos entre nós : há cem anos as sufragistas estadounidenses já se pelejavam com as “mulheres de vida alegre” (o certo e verdade é que as putas sempre andam enfrentadas com praticamente todos os sectores do feminismo), as radfem contra as libfem, as que querem deconstruir a feminidade contra as que defendem o empoderamento da hiperfeminidade, as cis contra as trans, as lesbianas contra as hetero, Camille Paglia –de ego e fachenda tam grandes e erectos que o Patriarcado aparece-se-lhe como inimigo algo flácido e lingrinhas– contra todas. Obviamente, no rexoube nom faltam as maes contra as nom maes e as maes de maternidade hegemónica (Boasmais) contra as maes disidentes e subversivas (Másmaes).

Eu quero dende estas linhas pegar-lhe lume aos bilhetes que vam repartindo as Boasmaes polos parques de bolas, quero deconstruir esse cliché Virgemariesco que prescreve a maternidade dominante, quero buscar umha fórmula própria de querer e educar fora de estereótipos que confundam agarimo com dependência, amor com neurose sobreprotectora. Quero Umha Maternidade Própria (Virgínia, dende aquí um bico, quanto nos deche!) afastada dos discursos do babyboom da posguerra: as mulheres nom estamos aqui para ser máquinas paridoras que subsanem um defícit demográfico derivado do exercício masculino da guerra, nem acho que proceda realzar a maternidade e os valores da familia por riba do nosso bem-estar.

Em definitiva, quero reivindicar umha maternidade que nom seja um chato ou que, se o é, puderes expressa-lo sem temor a sentir na caluga as cámaras de gas da maldita culpa, normalizar –porque nom- umha imagen de mae que poda levar –se quiger- a saia a 5 centrímetos da cona. Nom é possível estar a trabalhar fora da casa, cumprir na casa, soportar o questionamento social e o intrusismo dende a gravidez até o parto e depois durante a criança, sorrir seguido sem ter um colapso emocional. Nom é possível nem saudável, por muito que nos dem um dia de merda no calendário para homenagear-nos.

*Publicado em La Haine.