O Vivero, a taberna dum combatente pola liberdade

O núcleo lucense do PCE tivo um papel fundamental na organizaçom da resistência política e armada ao fascismo

Por Marcos Abalde Covelo /

Quem visite Lugo ainda pode entrar no bar Vivero na rua Nicomedes Pastor Diaz, mas pouca gente sabe que o fundador desta casa de comidas fora um dirigente comunista executado a garrote vil. Chamava-se Ramón Vivero Geada. Nascera na paróquia de Xerdiz, Ourol.

O primeiro bar Vivero também oferecia pensom. Estava na Ronda da Muralha. A partir de 1958 passa a ser regido pola família López Castro. Naquelas mesas comunais era fácil ver Fole ou Cunqueiro. “Meu pai fora a Xerdiz amanhar os papeis. Mas desses temas nunca falava”, afirma o antigo proprietário surpreendido por tanta memória ferida.

Na Galiza de 1936 o Partido Comunista contava com 7540 militantes. Em 1941 fica reduzido a 215 ativistas. Em 1944 primeiro Marrofer e depois Urquiola entram em contacto com os comunistas espalhados por Lugo. Ao pouco, reconstroem o Comité Provincial que estende a organizaçom através de vários comités comarcais: Ribadeu, Ribeira de Piquim, Monforte, Becerreá e Lugo.

No entanto, em fevereiro de 1946 as forças de repressom intensificam o cerco. Um tribunal militar julga setenta e nove democratas. Vinte cinco deles da cidade de Lugo, os outros do resto da província. Haverá duas condenas a morte e penas de reclussom draconianas. Entre elas, Henriqueta Outeiro. Esta irredutível ativista, após ser submetida às mais selvagens torturas, passará dezanove anos nas cadeias franquistas. Este processo provoca a desarticulaçom do comunismo na província de Lugo por mais de umha década.

No final da sua vida, a guerrilheira de Castroverde realiza umha entrevista na COPE onde reivindica dous camaradas: Julio Nieto e Ramón Vivero. O primeiro era o secretário geral do Comité Provincial de Lugo. O segundo, o enlace entre os diferentes comités comarcais e o provincial. Em 21 de setembro de 1946 forom assassinados a garrote vil na prisom da Corunha. Julio Nieto tinha 39 anos. Ramón Vivero, 37.

A carta de Manuel Ponte Pedreira ao embaixador de Inglaterra salienta entre os textos clássicos da história da emancipaçom da Galiza. O chefe do Exército Guerrilheiro expressava a sua indignaçom polo encontro do diplomático inglês com Francisco Franco. Embora a ONU condenasse o fascismo espanhol, Ponte antecipava a traiçom dos Aliados:

“Na verdade, chegou você num momento interessante. Ignoro se entre as visitas realizadas se encontram os cárceres da Galiza e a assistência aos conselhos de guerra onde se condena a morte como nos melhores dias de Hitler. Desconheço se entre os presentes que lhe brindárom figurou o acto de enforcar o dia 3 de setembro, em Pontevedra, a Luis Blanco e Diego Valero; o día 20 em Lugo, a Manuel Álvarez e o 21 a Julio Nieto e Ramón Vivero”.

Como responsável de organizaçom, Ramón Vivero converteu o seu bar no lugar de reuniom do comité da capital luguesa e a partir dele estabeleceu um sistema de enlaces e estafetas no bar Aquilino, no Bacalao, na barbearia Cuende, na tinturaria Espanha e na loja de latoeiro de Iglesias Ansiam. Locais onde deixavam e recolhiam correspondência, selos de cotizaçom, propaganda e armamento.

Julio Nieto e Ramón Vivero combateram como guardas de assalto a favor da República. O primeiro chegara a capitám. O segundo, a cabo. A impunidade dos crimes franquistas reforçara o seu compromisso com o restabelecimento da democracia. Os superviventes daquele Exército da República nutriam a resistência antifascista. Em Lugo avançava a liberdade.

Reconforta pensar nesse taberneiro de Ourol a ler Carlos Marx ao pé da muralha romana. Tempo depois, umha nova geraçom privada de qualquer referência histórica introduzirá nessa mesma casa ediçons clandestinas de Lenine, Mao e Castelao. A velha toupeira porfiava.