Aventura ou rota

Por Deyanira Schurjin (traduçom do galizalivre) /

Nom se trata de escolha, nom é umha cousa ou a outra, é sorte, destino, vivência. Trata-se de ter ou nom ter, possuir ou nom possuir. Tu non escolhes, som as circunstáncias do momento as que te levam a umha ou outra opçom. Aventura: o que vinher, o desconhecido, o caminho das que nom tenhem nada que perder, agás a vida. Rota: um caminho prefixado, uma suposta certeza de ali onde fores, um pouco de dinheiro e “protecçom”- pode que a rota seja mais segura, porém o que qualquer mulher africana, de qualquer país, étnia ou religiom sabe, é que se quixer fugir da perversidade humana na que se encontra e chegar a território europeu (terra hostil, fantasia libertadora infundada polos colonizadores que correspondam), se quiger chegar à meta, fará-o com a dignidade ultrajada, perdida, ofendida.

Aventura ou rota. Na aventura qualquer pode ser o teu violador, torturador ou proxeneta. Na rota, pode que tenhas algo de sorte e apenas sejas violada polo teu protetor e pode que alguns dos seus amigos, aos que terás que fazer “favores”. Tanto na aventura como na rota demorarás anos em chegar à e cada fronteira deparará-te novas violaçons, aldragens e quebrantamentos. Na aventura viajarás sozinha, encontrarás pessoas que estám, o mesmo que tu, a fugir, unirás-te a eles por momentos e em ocasions voltarás a estar sozinha. Na rota, o mais provável, é que vivas sempre em grupo ou de dous, Tanto na aventura como na rota conhecerás pessoas que estam sofrendo perseguiçom, trata, escravidom. Quer fores de aventura, quer fores de rota reconhecerás no olhar do outro a sua paisagem.

As chamadas “guerras internas” ou “conflitos armados”, e inclusive os crimes organizados de inúmeros países dos Três Continentes (América Latina, Asia e África), nom figuram como territórios oficialmente declarados em conflito, senom mais bem como cenários de um jogo de interesses sustentado polos poderes estatais, paraestatais e empresariais que fazem impossível um armistício e inclusive a finalizaçom do conflito bélico, dando com elo pé a um esquecimento que apenas serve para a acumulaçom do capital na sua transformaçom mais moderna. Neste panorama onde tudo vale e o entrelaçado do conflito resultar muito difícil de esclarecer, os corpos das mulheres convertem-se em parte do território, num fantástico campo de batalha. Estamos pois, senhoras minhas, perante crimes de guerra. A violaçom e a tortura sexual a mulheres e, nalguns casos a nenos e jovens som verdadeiros crimes de guerra, independentemente de que o conflito tivesse sido declarado de forma oficial ou nom.

A prática da violência sexual em conflitos armados remonta à antiguidade, mas tem permanecido silenciada e inclusive entendida como dano colateral até o ano 2012, quando foi reconhecida universalmente a partir do interesse mediático das guerras de Bósnia e Ruanda na década de 90. No entanto, este reconhecimento, trasladado ao Tribunal da Haia e que poderia ter uma componhente “reparadora”, nom conseguiu implementar-se de maneira eficaz. O terror, o extermínio e as atrocidades seguem a ser hoje uma forma permanente de existência em muitos lugares do mundo. A violência sexual contra as mulheres é uma forma de controlo e poder estratégico com uns resultados devastadores e imensamente eficazes.

Falar de violaçom é falar de poder, domínio e supremacia em qualquer parte do mundo. O androcentrismo é, e tem sido, a ideologia dominante na história da humanidade, e portanto, a atitude androcéntrica e inclusive misógina, a supremacia masculina, está presente em todas as ordens da nossa existência. Isto é, o pensamento do homem, a mentalidade androcéntrica, tem ido configurando a realidade global de tal forma que tem dominado todos os âmbitos da vida pública e privada, gerando assim relacionamentos de controlo e poder alicerçados no domínio e no medo.

Ora, em Ocidente esta estrutura, esta configuraçom da dominaçom da mulher polo homem, está sobretudo presente num formato de menor intensidade, invisibilizado, naturalizado e normalizado, de forma que a maior parte dos crimes de género som atos individuais que nom estám sustentados por organizaçons criminais. Nom nos enganemos, isto nom significa que nos países ocidentais este tipo de abuso nom leve à vexame, denigraçom e mesmo ao assassinato, como as cifras assim no-lo demonstram. Os elementos centrais na configuraçom da dominaçom masculina som exatamente os mesmos.

No entanto, a realidade dos territórios em conflito é muito diferente aos crimes de género que se produzem nos países ocidentais. Aqui temos que falar de guerra, de estratégias planificadas de poder e controlo nom apenas sobre as mulheres senom também sobre comunidades inteiras. O corpo da mulher converte-se em território de combate, sofre a destruiçom extrema, a expoliaçom, a tortura, até, em muitos dos casos, a morte. O corpo da mulher converte-se numa parte mais do território onde se desenvolver o conflito, onde se ganhar ou se perder, onde se castigar nom apenas o indivíduo, a mulher, senom o coletivo, a comunidade, a étnia que sofre a destruiçom moral e física do inimigo.

Para o politólogo alemam Herfried Münker só cumprem três estratégias básicas para devastar um povo, eliminar umha comunidade ou fazer umha limpeza étnica: destruir os templos e monumentos de culto, levar a cabo violaçons sistemáticas e produzir a gravidez forçosa das mulheres de dita comunidade. O problema, no entanto, agudiza-se ainda mais quando as mulheres de estas comunidades som, além disto, violadas na intimidade polos seus congéneres, igual que as mulheres ocidentais. A violaçom sistemática é, para muitas mulheres, a única experiência sexual, a sua realidade quotidiana.

Se nascesses na Guatemala e fosses uma indígena maia, é possível que os paramilitares te tenham torturado e violado sistematicamente e tenham destruído a identidade do teu povo condenando-te ao ostracismo. Se fosses da Nigéria e fugisses da miséria e da perseguiçom é possível que ficasses varada em Marrocos e nom pudesses passar de ai. A tua opçom provavelmente fosse a mendicidade, ninguém vai pagar por sexo a uma nigeriana que foi violada e “desonrada”. Se nascesses em Eritrea e lograsses chegar a Etiópia sem que te deportaram de volta a Sudam e sem que te sequestrassem os Rahida para violar-te ou torturar-te na tua segunda tentativa, possivelmente com um pouco de sorte lograsses cruzar o Saara e chegasses a Libia, ah Líbia! Se vinheres da Zâmbia e lograres chegar a Espanha, por exemplo, lembra, nom tens direito ao asilo. Se nasceres na Argentina crerás que estás a salvo, mas nom te equivoques, és do “terceiro mundo” e podem-te “empalar”. Se fores do Brasil e te violarem por primeira vez tens sorte, seguirás com vida um tempo mais. Se nasceres na República Democrática do Congo e a violaçom se tem convertido no teu dia a dia, a tua família te desterrou por suja e ficaste grávida por terceira vez dos teus violadores, sempre terás os teus filhos. Se fores de Bangladeche nom se te considerarám refugiada política, és fluxo migratório económico. Se vinheres de Siria considera-te com sorte, pudeste escapar e há muita ajuda humanitária, entre a que se encontra Frontex, uma das agências mais importantes que “contribui a harmonizar os controlos fronteiriços entre os países da UE”. Ah! Sim, pronto, sim, é a mesma que logo coordena e colabora para organizar os voos de retorno conjunto (deportaçons) mas… se nasceres em Ciudad Juárez prega-lhe ao teu Deus que te faça varom. Se fores salvadorenha e subires ao comboio da “Besta” alguma companheira te passará uma injeçom dalgum anticoncetivo, tu tranquila, chegado o momento respira e fica relaxada. Um momento, és um negro varom que foge de Somália, tens chegado a Líbia, torturaram-te, figeram-te ver a execuçom do teu amigo, prostituiram-te e vilolaram-te e conseguiste sair de aí e chegar a Europa. Ah! Aguarda, que como varom tens privilégios e poderás ganhar a vida dignamente vendendo na rua em qualquer país da Europa, bem-vindo.

Nom, que ninguém se leve as maos à cabeça. Indignar-se e amossar um sentimento de condescendência é próprio de uma moral branca, a mesma que reforça a ideia de que devem criar-se leis e organismos para que isto nom volte a passar mais, a que diz que é exasperante e uma clara violaçom dos direitos humanos. Como se nom soubéssemos que os direitos humanos som o marco teórico das formas de produzir a riqueza que tenhem muito mais que ver com os processos dominantes de divisom social, sexual, étnica e territorial que com uma distribuiçom mais ou menos justa. Em Ocidente o “feminismo criou uma classe media branca, privilegiada, de raparigas que preferem ser vítimas para preservar o decoro burguês e a passividade” como expressara Camille Paglia, optando polo silêncio ou no melhor dos casos a denuncia policial. O sistema patriarcal, mas, e sem lugar a dúvidas, o próprio feminismo estabelecido, o hegemónico, o predominante, deixa-nos faltas de recursos para enfrentar-nos a acontecimentos de um alto grao de estresse. Quer o patriarcado, quer o feminismo hegemónico, inabilitar-nos e alentam-nos a esconder-nos na casa como espaço seguro, único e especial. Um feminismo dissidente, o melhor, radical, ensina-nos que o único espaço seguro neste mundo patriarcal e capitalista som os nossos próprios corpos, que há que treiná-los, desenvolvê-los e fortalecê-los. Se as raparigas, como diz Paglia, preferirem ser vítimas, nom é casual e portanto ciente. Quem preservar o decoro burguês é o próprio feminismo hegemónico provocando o desejo de esconder-se. Paglia assinala o efeito devastador que tem o feminismo hegemónico nas mulheres e adverte, alenta e capacita a uma luita que devém empoderadora, rompedora com o hegemónico para que , além das leis, a educaçom e a implantaçom de umha nova cultura (tudo a muito longo prazo e com uma enorme resistência misógino-social), sejamos nós próprias nas nossas próprias vidas as que possamos defender-nos e nom ficar destroçadas e sem recursos. Existe um feminismo em Ocidente, claramente minoritário, que incita às mulheres a optar pola vingança, o assinalamento público: Teoría King Kong, Fode-me, Lisbeth Salander, Tura Satana, Valerie Solanas, Jenifer Salinas, som apenas alguns exemplos.

No entanto, temos que salientar que para muitas das mulheres deslocadas que logram chegar à Europa, a falta de rede, de tecido social, o desamparo e a ausência organizativa que reforçam a capacidade reparadora e de justiça brilham pola sua ausência. Denúncia? Vingança? Assim todo o trauma aparece e desaparece. Por agora, o presente faz-se solitário mas podes começar a respirar, sentir certo alívio, abre-se ante ti uma perspetiva de vida, vida, vi-da. Porque como uma vez ouvi: “eu cruzei o Saara, eu cruzei o mar, eu podo com tudo”.