A roda da fortuna

Por David Rodríguez /

Na tradiçom judeu-cristá, o exercício da liberdade polo ser humano inicia também o seu tempo de “queda”. A decisom de provar o fruto proibido, contravindo assim a lei incausada e inquestionável de Deus, marca o inicio da Historia, onde o ser humano deverá ganhar o pam co suor da frente. Desde esse momento, a natureza abandona a forma de jardim idílico, sempre pronta a fornecer-lhe ao ser humano o seu sustento e conforto e transforma-se num lugar inóspito, caótico, imprevisível que nos seus momentos mais expressivos toma a forma de pragas e dioivos.

Nesse contexto em que o ser humano se atopa à intempérie, segue a haver, porém, um principio de ordem no caprichoso devir da roda da fortuna que converte uns homens em reis e outros em servos da gleba: a vontade de Deus. O ser humano é culpável, mas Deus ainda está aí para redimir, no outro mundo, a sua culpa.

Para György Lukács a forma literária do romance moderno está relacionada com outro tipo de intempérie: a do ser humano que se encontra com um mundo aberto de possibilidades mas sem o garante último da existência de Deus, sem um princípio ordenante que dê sentido último ás vicissitudes da roda da fortuna. Neste novo contexto, que é também o do nascimento do capitalismo, o ser humano é responsável das suas peripécias e, em caso de que estas nom se desenvolvam com bem, é culpável do seu estado presente, sem que exista figura externa nengumha capaz de redimi-lo.

O processo delongado no tempo que havia atingir a forma de Movimento Obreiro pode-se considerar a tarefa intergeracional consistente em construir umha segunda natureza mais amável, previsível e hospitalária para esse outro ser humano à intempérie que cria o capitalismo: o trabalhador “livre”; isto é, livre de vender no mercado a sua força de trabalho. Agora, o trabalhador nom é culpável da sua má fortuna. O sistema de classes gerado polo capitalismo, em que umhas som donas dos meios de produçom e outras som mercadoria trocável, é o culpável do seu fado, e a emancipaçom através da auto-organizaçom colectiva, o Deus que o há redimir. Obviamente, por trás segue estando a caprichosa natureza, de aí que esta se ache agora um inimigo a dominar, por todos os meios, em nome do Progresso.

«Do berço à tumba», o conhecido lema da idade de ouro da social-democracia, com a que esta expressaba o desejo de que o Estado protegesse, desde o nascimento até a morte, os trabalhadores e trabalhadoras, é a substanciaçom dessa segunda natureza artificial chamada a salvaguardar as classes trabalhadoras dos vaivéns da roda da fortuna. O desartelhamento desta segunda natureza, na actualidade, devolve as classes trabalhadoras à intempérie. Outra volta, o indivíduo isolado é protagonista e responsável único dos avatares que experimente no romance da sua vida. Os items do homem feito a si mesmo, da preguiça dos povos do sul, da debilidade da mulher, da sensualidade irracional do negro, dos tests de inteligência, do triunfo do mais apto etc., som os novos mitos, com pretensom de verdade absoluta, dum mundo sem mitos, isto é, dum mundo sem nengumha instância sagrada diferente a da própria acumulaçom de capital.

A capacidade de reproduçom da lógica do capital chegou a tal ponto que este nom só foi quem de minar a precária segunda natureza protectora criada na história recente polo ser humano, senom que está a ser capaz, também, de transformar a natureza, tanto se a entendemos coma o jardim idílico da criaçom ou coma o lugar inóspito da queda. O capital desequilibra o funcionamento da Natureza, converte-a num pano de fundo ainda mais ameaçador e imprevisível.

Nestas cousas cavilava este Primeiro de maio enquanto atravessava um bairro obreiro caminho da manifestaçom. As ruas estám hoje inçadas de locais de apostas e de jogos de azar que nom existiam há umha década. Velaí o tens, pensei, a mobilidade social através da lotaria. Eis a coerência intrínseca do capital: no tempo em que se esboroa a segunda natureza, volve ser a roda da fortuna, literalmente, quem rege as nossas vidas.