Por Jorge Paços /

As gestas decoram as portas das moradas, e também engalanam muitos carros no país ; algumhas associaçons culturais recuperam a festa do alumado do pam, a coca volta às ruas, e em comarcas como Ourense os maios junguem festa e reivindicaçom. Som as pegadas vivas dumha celebraçom de raiceiras neolíticas que na Gallaecia, como em toda a área celto-atlántica, mantivo um vigor especial. Numha sociedade desvinculada da terra a passos de gigante, este antiquíssimo rito de passagem de ciclo a ciclo pode introduzir um reencontro saudável com as origens que nunca devéssemos ter perdido.

Na noite do 30 de Abril ao 1 de Maio começava um novo ciclo dentro do ano para os e as nossas devanceiras, como nos lembram da Irmandade Druídica Galaica. Com o máximo esplendor da luz e o anúncio das colheitas, encetamos umha outra jeira que ha culminar no fim de ano, nos dias escuros do magosto, quando o mundo dos vivos recorde com especial intensidade aqueles que já marchárom.

Ainda que a mudança climática esteja a alterar tantas realidades apriori inamovíveis, por enquanto seguem no seu lugar duas polaridades essenciais : o tempo da escuridade e o tempo da luz, a friagem e a calor, o recolhimento no lar e a exterioridade. Estamos neste preciso momento. Por isso em gaélico os Maios, ‘Beltaine’, som os lumes de Bel, e Bel é o formoso e luminoso. Com a homenagem ao tempo tépedo e à fartura também se relacionam figuras da nossa etnografia, tais como a Coca do Val.

Para estudiosos galegos do celtismo, caso de André Pena Granha, o Maio era também o mês da volta à civilizaçom dos córios ou elites guerreiras da antiga Gallaecia ; servidores de Bandua, deus da guerra, e submetidos a provas de endurecimento e sobrevivência quase solitária nos meses invernais ; o costume teria umha relaçom directa com os fianna irlandeses ; o termo ‘Fianna’ foi um dos preferidos do nacionalismo de acçom da ilha desde o século XIX e o rexurdimento gaélico.

Segundo os estudos de Robert Graves sobre o alfabeto arvóreo ogham, Maio era o mês do salgueiro e do espinho branco, e adicava-se a ritos de purificaçom em preparaçom do cercano solstício estival. Nas Ilhas Británicas era costume apanhar ponlas de árvores e dançar arredor dum poste com adornos, símbolo da deusa flora.

Graças à memória popular e à tradiçom oral, a nossa terra conservou o espírito do novo ano no ritual do alumeado do pam, mais um costume desaparecido que alguns centros sociais começárom a recuperar no abrente deste século. As cantigas referenciam este renascimento da vida vegetal e humana através do sol e do fogo : Alumeia o pam /Alumeia-o bem /Alumeia o pam / para o ano que vem /Alumeia o pai / cada gram um toledám /Alumeia o filho /cada gram um pam de trigo /Alumeia a nai /cada gram um toledám / Alumeia a filha /cada gram um pam de trigo.

Na Galiza tradicional, e como homenagem simbólica, os froitos da terra eram recolhidos em campos alumiados por fachos ; a cinza servia depois de adubo.

Do Maio popular ao Maio literário.

E como tantas vezes acontece na Galiza, o popular e o literário confundem-se neste mês ; o Maio é mês senlheiro na nossa cultura, entre outras cousas, graças ao vate Curros Henriques e o seu poema homónimo : « traede-me um maio de flores coberto », diz a representaçom alegórica do povo galego ao fato de meninhos pobres que pedem na sua porta. Umha exaltaçom da vida, e também umha crítica à exploraçom dos abades, dos trabucos e dos prestamistas, ferramentas do Estado caciquil espanhol que impede o florescimento dos eidos. Pequena jóia literária, hoje património popular, que sintetiza como poucas a fusom indestrutível entre cultura nacional e justiça social.