Por Martinho Suárez /

O outro dia vim um partido da NFL (…) Três quartas partes dos jogadores no campo eram pretos, o que me recordou a figura de Paul Robenson, cantante, ator, advogado, ativista contra o fascismo e também atleta ao que lhe tocou viver umha época onde os afro-americanos tinham vedado, entre tantas outras cousas, o desporto profissional.

Robenson nasceu quando o século XIX estava para finalizar. O seu pai escapara aos quinze anos do branco que o escravizava, cruzando a fronteira entre a implacável Carolina do Norte e os algo mais tolerantes estados unionistas e participando depois na Guerra Civil americana do lado antiescravista. Paul era o mais novos dos irmãos. Os pais conseguiram manda-lo à universidade de Rutgers, onde era o único preto do campus. O rapaz era um prodígio físico, um tipo alto, de cem quilos de peso, perfeito para um desporto de um contacto tam duro coma o futebol americano. Assim que provou no equipo universitário. Segundo parece, o adestrador ficou impressionado, talvez porque, com boa parte dos companheiros (todos brancos) em contra e batendo-lhe todo o possível nos adestramentos, Robenson negou-se a tirar a toalha e seguiu a jogar até que o admitiram. No entanto, várias equipas rivais advertiram a Rutgers de que nom competiriam com eles se um homem preto estava no campo, assim que o moço teve que tragar a raiva sentado no banco em vários encontros.

Como jogador de futebol americano durante a época universitária.

Chegou a jogar duas temporadas em umha NFL acabada de nascer e realmente escassa de jogadores de cor, primeiro na equipa de Akron e depois no de Milwaukee. Retirou-se ao rematar os estudos para começar umha carreira como cantante e ator que o faria moi popular nos Estados Unidos de América e na Gram Bretanha.

Mas a fama e o dinheiro, nom lhe fizeram esquecer a Robenson a dura história da sua família, nem os golpes dos seus pálidos companheiros de vestiário, nem as humilhaçons diárias que tinha que sofrer a sua gente. Nos anos trinta começou a interessar-se pola historia da África colonial de onde lhe vinham os antepassados e, sendo umha das poucas estrelas negras do cinema sonoro, pôde visitar Alemanha e a Uniom Soviética: o racismo do império nazista horrorizou-o, enquanto que, à volta de Moscovo, declarou: “senti-me na minha casa”.

Convertido já ao socialismo, Robenson embarcar-se-ia no final do decênio em umha campanha de apoio às Brigadas Internacionais que combatiam polo República na guerra de Espanha. Em 1938 passou um mês nas frontes de Madrid e Aragom a cantar para as tropas e animando-as em umha luita que começava a torcer-se definitivamente. As crônicas da época contam que “os homens das trincheiras –impassíveis ante as balas e o risco, vencedores do frio e do desconforto– emocionaram-se ante o acento nostálgico das cançons deste gram artista de raça preta e alma branca”. Vaia.

Coma tantos outros, remataria pagando o esquerdismo sendo incluído nas listas negras de senador McCarthy nos anos cinquenta. Morreu nos anos setenta, feito um símbolo do movimento americano polos direitos civis.

* Este texto forma parte do livro Bestiario do Vestiario.