Por Jacobe Pintor /

Em “O futuro é para sempre”, livro lançado em colaboraçom polas editoras Através e Letra Livre, a antropóloga Paula Godinho cita Reinhart Koselleck para definir a “consciência do tempo histórico” como o encontro entre o passado e o futuro, entre o espaço da experiência e o horizonte da expectativa. A consciência do tempo histórico funda a acçom política concebida como, a seleçom e organizaçom das práticas possíveis.

No passado dez de Março, dia da classe operária galega, o sindicalismo galego invocava, como cada ano, um episódio fundamental da nossa memória coletiva, num exercício de persistência no recordo do passado, sempre posto a prova por aqueles que também tenazmente, persistem em apagar qualquer pegada nossa na história, mas também por aquela tendência muito humana de evadir-se daqueles recordos mais traumáticos, pois a nossa história está impressa em letras de sangue e fogo como o que alcançou aos operários de Bazán, Amador e Daniel, assassinados pola Guardia Civil e a polícia espanhola naquele 10 de Março de 1972.

O exercício da memoria coletiva é imprescindível para a nossa supervivência como povo e como classe mas, pressupondo acertada a tese de Koselleck, o passado só atinge um sentido como projeçom para o futuro, até tal ponto que hoje, o poder hegemónico nom hesita em reconhecer e mesmo recordar acontecimentos do passado que desafiam os fundamentos mesmo do seu poder, sempre que for colocados fora da consciência do tempo histórico. Na atualidade a musealizaçom da história tornou-se umha prática mais do que efetiva no desarme dos movimentos de libertaçom nacional e social.

O 10 de Março recuperamos do passado a experiência do movimento operário galego, mas continuamos, as classes populares galegas, orfas dumha consciência do tempo histórico. Isso sim, o sindicalismo nacionalista disecciona com enorme precisom o tempo presente. É por isto que nom nos vamos estender aqui, na descriçom das condiçons de miséria e precariedade de vida que alcançam à maioria social deste país, também nom vamos assinalar os responsáveis da aplicaçom das políticas criminais, nem analisar os mecanismos que empregam para levá-las adiante. Afortunadamente, o sindicalismo, mas também a intelectualidade crítica neste país, produze rigorosos e brilhantes estudos sobre o estado atual das cousas.

Mas evocar o tempo passado desde as condiçons do presente sem definir umhas expectativas só alimenta a nostalgia. Nostalgia dos tempos da solidariedade operária, das grandes luitas, do espírito combativo doutras épocas, nostalgia que define um certo estrato culto da sociedade do nosso país. No tempo da atomizaçom total do corpo social, da ditadura do individualismo, no tempo do controlo e da vigilância até dos lugares mais íntimos, da dependência absoluta do poder do Estado e do capital, podemo-lo dizer, as galegas estamos pior do que nunca, mas ainda melhor do que amanhá. Só a independência nacional como horizonte de expectativa pode restabelecer a consciência do tempo histórico necessária para a organizaçom das práticas emancipadoras de classe e de género possíveis no nosso país.

As mobilizaçons maciças das últimas greves gerais, que em última estância situárom a batalha no campo simbólico, no campo da virtualidade, ali onde os poderes ainda permitem a ilusom da vitória, mostrárom-se ineficazes e fomos derrotados contundentemente. A greve geral de 3 de Outubro na Catalunya, convocada por sindicatos minoritários significou, no entanto, um auténtico desafio ao estado ao subverter o relato e os códigos tradicionais que delimitam o campo de batalha, (nom era importante a percentagem de seguimento nos lugares de trabalho, nem como afetasse a jornada de greve ao consumo energético nesse dia), apenas milhares de militantes conseguiram converter a jornada de greve num caos, paralisando vias estratégicas de circulaçom, num dia em que, o capital e os sindicatos espanhóis, chamavam à normalidade laboral. Na greve catalá a expectativa dum horizonte coletivo recuperou a greve geral como umha ferramenta ameaçante para o Estado espanhol, abrindo novos caminhos para a acçom, novas possibilidades para ensaiar, num tempo de nuvens escuras e poços aos que nom lhes chega a luz. Haverá quem objete, contra o aqui exposto, a excepcionalidade política do caso catalám mas, nom é a excepcionalidade, normalizada e naturalizada com a cumplicidade de boa parte do nacionalismo hegemónico, umha marca política do estado na Galiza?, ou a ilegalizaçom de partidos políticos e a aplicaçom das leis de excepçom contra militantes independentistas som considerados feitos legítimos no nosso país por quem se mobiliza em favor dos direitos doutros povos?

É a consciência do tempo histórico que outorga sentido as luitas do presente, que projeta a experiência acumulada para umha expectativa de futuro, é a consciência do tempo histórico que pede a gritos umha GREVE GERAL NACIONAL, recuperemos a memória para construir um futuro.