Por Neal Ó Riain (traduçom do galizalivre)  /

Em 1963, um mocinho de 21 anos patinava sobre gelo com a sua mae, quando caiu ao chao para nom dar-se erguido mais. Visitou o doutor e foi diagnosticado com esclerose amiotrópica lateral; daquela dixérom-lhe que lhe restavam apenas dous anos de vida.

Com os nervos que controlavam os seus músculos eivados, Stephen Hawkings caiu numha funda depressom -mesmo considerando deixar os seus estudos. Mas num ano ele tinha estabelecido umha reputaçom brilhante, desafiando o trabalho do prominente cientista Fred Hoyle, de Yorshire, numha palestra celebrada em 1964.

Hawking continuou a desafiar a sua diagnose, vivendo mais de média centúria além da sua esperança de vida, e chegando a ser um dos cientistas mais icónicos de todos os tempos. O seu trabalho pujo novos alicerces na compreensom dos buracos negros, expandiu as teorias einstenianas sobre espaço-tempo, e encetou umha nova teoria cosmológica. No seu tempo de vida, Stephen Hawking nom só ampliou o nosso enxergar do universo, senom que afortalou o interesse popular pola ciência e pulou vigorosamente pola mudança política.

Carreira científica.

Hawking nasceu em 1942 em Oxford ; os bombardeamentos alemaos forçaram a sua família a mudarem-se para Londres. Os seus pais, Frank e Isobel, eram gente formada, conheceram-se na Universidade de Oxford quando ele estudava medicina, e ela políticas, filosofia e economia. Na sua adolescência Stephen foi reconhecido pola sua inteligência, nomeadamente no campo científico. Como os seus pais, matriculou-se em Oxford, e ali estudou ciências naturais. Após graduar-se nos primeiros 60, decidiu acometer o estudo da cosmologia ; trabalhou como investigador pré-doutoral em Cambridge, baixo a direcçom do nomeado Dennis Sciama. Foi durante o seu doutoramento que Hawking recebeu a sua diagnose de ALS. Dous anos depois ele deu a lume o primeiro dos seus mais importantes trabalhos cosmológicos.

De 1965 em diante, Hawking começou umha colaboraçom com Roger Penrose, que demonstrara o chamado teorema da singularidade dos buracos negros. Os buracos negros som objectos dificilmente apreixáveis polos conceitos : analisam-se à luz das equaçons einstenianas sobre a relatividade geral, sem serem tampouco verdadeiramente descritíveis por estas. Trata-se de regions onde se acumula a matéria e, comprimidas pola força da sua própria gravidade, colapsam para criar umha área de densidade infinita. Nestas regions, a gravidade devém tam assustadora, que nem tam sequer a luz pode fugir, e nesse ponto as equaçons colapsam. Este ponto é a singularidade que dá o seu nome ao teorema de Penrose. A agudeza de Hawking foi começar, nom com a singularidade, senom com o dia de hoje, e programar o relógio para ir cara atrás. Ele começou com um universo consistente em matéria ordinária, mesmo como o nosso, e provou que este universo, toda a sua matéria, espaço e tempo, deveu de ser umha singularidade nalgum ponto do passado. Em tal ponto do passado, conhecido como Big Bang, o universo irrompeu numha explossom de existência, e com Hawking isto foi pola vez primeira apreixado e apontado sobre um papel.

Na década de 1970, Hawking focou a sua atençom na mecánica quántica, no estudo da matéria nas suas escalas mais pequenas, em formaçons de magnitude procedentes dos buracos negros, nas que ele tinha debruçado anteriormente. Como a sua reputaçom a medrar, ele virava a cada passo mais frágil, mas também enormemente confiante na sua primeira dona, Jane, cujo apoio se revelou crucial. Ele era mesmo incapaz de virar as páginas dum livro sem ajuda, vendo-se na obriga de levar a termo complexíssimos razoamentos sem ferramentas básicas como umha caneta e um papel. Foi nesta jeira quando Hawking conseguiu o que ele considerava ser o seu trabalho mais valioso, do que derivou a equaçom que ele quijo gravada na sua lápida. Este trabalho combinava dous eidos diversos da física moderna : a relatividade geral e a mecánica quántica ; por palavras dum pesquisador, « causou mais noites de insônia entre físicos teóricos que qualquer documento na história ». A equaçom que ele resolveu prediziu que os buracos negros nom som completamente negros, pois escintilam debilmente. Tinha-se pensado que os buracos negros eram sumidoiros a engolirem matéria e luz, que lá eram destruídas. Hawking pujo isto em causa, pois os buracos negros botam para fora energia, e como tal evaporam-se e logo esmorecem. Esta ideia revolucionou a nossa compreensom de objectos tam misteriosos, e ainda constitui um ámbito de pesquisa frutífero.

Na década de 80, Hawking sofreu um surto de neumonia, que derivou numha traqueotomia que o atou de por vida um sintetizador de voz. Na sua fase de recuperaçom, completou a obra « Breve história do tempo », livro de sucesso abraiante que o consagrou como cientista de fama mundial. A imagem dum Hawking confinado à sua cadeira, a comunicar com determinaçom através dum computador, fijo-se icónica no imaginário popular. Ele ocupava o assento, sempre ocupado nos assuntos mais esotéricos da física matemática, do “Homem mais Inteligente entre todos os Vivos”. A sua angueira científica dirigia-se a algumhas das questons mais fundas sobre o universo. Durante milénios, muitas perguntas se tenhem formulado, e muitas teorias foram elaboradas por volta do cosmos : como ele começou, como está estruturado, como vai rematar ? Mesmo aos ouvidos modernos estas questons parece sarilhos metafísicos, mais semelhantes a um koan Zen do que a linhas de investigaçom científica. A palavra « universo » está de feito muito carregada semanticamente, sendo bem mais do que umha descriçom técnica. O universo é vasto e a sua escala permanece para nós impensável. Numha noite clara, o céu aparece assustadoramente inçado de estrelas. Que sentido fai isto ? Como podemos começar a enxergá-lo metodicamente, ponhendo questons sensatas ? Sem mencionarmos que quiçá essas questons nom podem ser realmente respondidas…

Tais esforços começárom quando o telescópio ampliou a nossa visom do cosmos ; o primeiro chanço levou de Copérnico a Galileu : a terra foi relegada do centro do cenário, e o sol veu a substituí-la. Com a passagem dos seguintes três séculos, assim que se acrescentava o poder de observaçom, o sistema solar foi colocado no contexto da galáxia. Nos inícios do século XX, a visom do universo tal como nós o conhecemos foi afinada : bilhons de galáxias, sendo cada umha delas o fogar de milheiros de milhons de estrelas. Nom por acaso, foi daquela quando Einstein nos forneceu as ferramentas necessárias pra compreendermos o universo na sua escala mais ampla. A sua teoria da relatividade geral, publicada em 1915, deu cabo à ideia do espaço e do tempo como entidades arredadas. Na realidade, elas conjugam-se num contínuo simples, espaço-tempo, com o qual os objectos do universo interagem, dando lugar à gravidade. Este quadro teórico foi confirmado de modo rotundo experimentalmente em 1919, e ao longo do século passado demonstrou ser umha visom ajeitada do universo que vivemos.

Ao manexarmos tal ferramenta, as respostas a esta questom grandiosa já nom se achavam a umha distáncia apavorante. É o universo finito ou infinito ? É chao ou é curvo, tem forma de balom ou de sela ? Tivo um início, e que vai chegar a ser no futuro distante ? Umha das grandes conquistas da ciência do século XX foi fazer destas questons assuntos concretos e verificáveis. Na segunda metade do século XX, poucos fixérom tanto como fijo Hawking por dar respostas.

Convicçons políticas.

A fama de Hawking, e o seu tremendo talento para comunicar, por riba dos seus impedimentos, deu-lhe umha plataforma única. Através da sua vida ele utilizou esta plataforma para popularizar a ciência, mas ele nunca se mantivo alheio à política, paixom herdada da sua mae, que se definia como “livre-pensadora radical”.

Um tema que sempre o desvelou foi o serviço nacional de saúde do Reino Unido. Como resultado da sua condiçom, Hawking foi fundamente sensível ao valor dos serviços de saúde, e ao evidente imperativo moral da sua universalidade. Luitou decote contra os desmessurados interesses comerciais que procuravam a sua privatizaçom, e desancou o governo conservador por reduzir as despesas públicas destinadas a tal fim. No último ano ele secundou umha campanha dos médicos e médicas para demandar Jeremy Hunt, secretário de estado promotor das privatizaçons, e desafiou-no a um debate público sobre o sistema nacional de saúde ; Hawking acreditava que se caminhava cara um sistema de seguros privados cuspidinho ao estadounidense. “Eu nom ia estar hoje aqui se nom for polo sistema nacional de saúde”, manifestou ao Guardian em 2009. “Tenho recebido um tratamento de alta qualidade, e sem ele nom teria sobrevidido”.

Hawking amossara simpatias socialistas na sua primeira mocidade, mormente herdadas da sua mae, quem o levara à marcha anti-nuclear de Albermaston quando novo. Estas ideias levárom-no ao Partido Trabalhista, que ele apoiou durante anos. Mantivo dúvidas sobre as possibilidades eleitorais de Jeremy Corbyn -reconhecia o feito de ele ter o “coraçom no sítio certo”, mas temia ele poder ser retratado como um extremista de esquerdas. Porém, deixou as suas dúvidas de parte ao apoiar o partido nas eleiçons gerais de 2017.

A sua distáncia de Corbyn reflectiu a sua crença de umha mudança urgente ser requerida no governo británico. Ele fijo advertências directas contra os efeitos que iriam ter os curtes em ciência e pesquisa, nomeadamente no ronsel do Brexit. Mas, apesar disso ambos os dous partilhárom um terreno comum em muitas controvérsias. Hawking fora dos primeiros críticos da guerra do Iraque; lendo os nomes dos finados no conflito em Trafalgar Square em 2004, dixera que esta guerra “fora baseada em mentiras”.

Ele também secundou a campanha que urgia o primeiro ministro Blair a desmantelar o programa nuclear “Trident”, salientando que “a guerra nuclear constitui o perigo mais grande à sobrevivência da raça humana”.

Nos seus últimos anos, Stephen Hawking preocupou-se também com os efeitos que havia ter sobre a sociedade o desenvolvimento da tecnologia baixo o capitalismo. Num informe de grande difusom, em 2015, ele respondeu a umha pergunta sobre a automatizaçom deste modo :

“Se as máquinas produzirem todo aquilo que nós precisamos, o resultado irá depender de como os bens vam ser distribuídos. Todos poderíamos gorentar umha vida de luxoso lazer, de se partilhar a riqueza criada ; mas a gente também pode resultar miseravelmente pobre, se os proprietários da maquinária pressionam com sucesso contra a redistribuiçom da riqueza. Até o de agora, a tendência semelha ir cara a segunda opçom, pois a tecnologia conduz para umha crescente desigualdade.”

No cenário global, Hawking fijo ouvir a sua voz a prol de causas políticas. Em 2013, apoiou o boicote académico a Israel, protagonizando vários cabeçalhos, quando ele declinou participar numha palestra em Jerusalém baixo a presidência de Simon Peres. “Nunca na história um cientista dessa talha boicotou Israel”, declarara o ministro de assuntos estrangeiros na altura. O prominente activista da campanha BDS, Ali Abunimah, concordou : “no dia em que botarmos a vista atrás, a decisom de Hawking sobre a campanha BDS quiçá se perceba como um ponto de inflexom”.

A estas causas, Hawking ainda acrescentou anos de defesa para os direitos das pessoas eivadas ; na palestra da UNESCO “Da exclusom ao empoderamento”, em 2014, manifestou que o fenomenal apoio técnico que vinha recebendo punha sobre as suas costas umha enorme responsabilidade, a de falar no nome de aqueles e aquelas que careceram de tal cousa.

“Nom fum nada afortunado por ter contraído ALS, mas fum muito afortunado por receber esta ajuda. Eu procuro utilizar a minha dimensom pública para criar consciência sobre os problemas da discapacidade e da comunicaçom. Recentemente, o meu sistema de comunicaçom avariou-se durante três dias, e eu fiquei chocado por como me sentim assim carente de poder. Quero falar em defesa da gente que vive a sua vida inteira em tal estado. A minha esperança é que os tipos de tecnologia que temos provado, e contribuído para desenvolver, nom demorem em virar baratos e acessíveis a todas aquelas pessoas que os precisam. Cumpre dar certo de  que esta tecnologia chega eles, para ninguém se ver na obriga de viver no silêncio.”

O legado.

Em meados da passada centúria, o cientista mais aclamado do mundo era sem dúvida Einstei, e resulta animador considerar como ele aproveitou a sua posiçom para dar pulo a políticas progressistas. O seu ensaio de 1949 “Por que o socialismo ?” espalhou as suas conviçons em termos absolutamente claros. Devotou umha porçom importante do seu tempo em luitar polo desarmamento nuclear, e em advogar or um pacifismo rotundo ; ele considerou a guerra, na era das armas nucleares, como um perigo impensável. O mesmo que Einstein, Hawking adoito se dirigiu a assuntos de grande calado existencial. Ambos os dous denunciárom a guerra, e fixérom declaraçons frequentes sobre a ameaça iminente da mudança climática. Hawking reconheceu os perigos inerentes à concentraçom de riqueza e poder, nomeadamente quando a tecnologia aponta para virar ambos incontroladamente grandes. Ao falar “ex cathedra” como o cientista mais grande do mundo, tais declaraçons tinham um peso específico.

E porém, ser um grande cientista nom conleva de seu abraçar posturas prudentes. Valeria a pena recordarmos que entre os cientistas mais prominentes das passadas duas décadas tem havido membros do movimento Novo Ateísmo : Richard Dawkings, Lawrence Krauss, e muitos outros. O próprio Hawking foi um ateu vocacional durante toda a sua vida, embora nom se filiou ao movimento. Ele si foi em troca conhecido por fachendear em declaraçons a prol dum cientifismo petulante, como quando declarou que “a filosofia morreu”, tendo sido reempraçada pola ciência. Declaraçons assim revelam um ponto de vista fanado, e quiçá a opiniom mais benevolente cara ele fora oferecida polo seu amigo, o astrónomo Martin Rees. Ele concluiu que Hawking “ tinha lido bem pouca filosofia, e ainda menos teologia; logo, nom acho que devamos avaliar os seus pontos de vista sobre isto”. Quando o nosso homem falava as suas palavras recebiam-se com expectaçom, mesmo se mergulhava em temas sobre os que nom tinha um conhecimento especial.

Durante toda a sua vida, Stephen Hawking comprometeu-se com um dos trabalhos mais abstrusos e raros dos que existem ; desde os vinte e um anos defrontou problemas físicos que requeriam umha afouteza e determinaçom difíceis de imaginar. Ele enveredou polas matemáticas esotéricas, a criar labirínticas teorias sobre as origens do universo, os conteúdos dos buracos negros, e a natureza do tempo imaginário. Com o seu trabalho, ele reconfigurou a compreensom do cosmos. Na sua vida pessoal foi, segundo todas as fontes, sábio, humilde e generoso -mas também impetuoso, arrogante, e um pai e marido muito melhorável. Na esfera pública, Hawking revelou-se como um personagem que cativou o imaginário global : muito poucos cientistas -se é que houvo algum- acadárom o seu estatus na cultura popular.

Hawking foi um cientista único e brilhante, mas lembrarmo-lo só como tal fai um fraco serviço à sua memória. Apesar da sua celebridade e a esgotadora abstracçom do seu trabalho, ele nunca perdeu contacto com a dimensom prática e política da vida. Ergueu a sua voz com frequência e com clareza moral, utilizando a sua projecçom para exigir energicamente a mudança. Mais do que luitar por enxergar o universo, ele alviscou um outro mundo.

*Publicado en JacobinMagazine.