Vigiando as fronteiras do sexo no desporto feminino

Por Dau García Dauder (traduçom do galizalivre) /

De forma intermitente nos últimos anos, testemunhamos como a imprensa e as instituiçons nom respeitavam os direitos humanos básicos de intimidade e dignidade das mulheres desportistas, de quem colocavam o seu sexo baixo suspeita.

Por tradiçom, o mundo do desporto foi sempre um espaço masculino e machista que partiu de dous supostos: que as diferenças físicas das mulheres tornam-nas por natureza sempre em desvantagem e que o esporte as masculiniza. Em geral, se a prática e o progresso desportivo conferem virilidade a um homem, confirmam a sua identidade de gênero, numha mulher colocam a sua feminidade e heterossexualidade baixo suspeita.

Os corpos de muitas mulheres atletas quebram com as expectativas de gênero e representam umha dupla ameaça: a abordagem dos homens nas marcas e, o que é pior, a abordagem física. Daí a irritaçom que causa nos meios de comunicaçom desportiva as mulheres com aparência física e força “masculina”, com grandes marcas, e que nom se pregam ao jogo de desejos cara os homens.

Isso levou ao uso do termo anglo-saxom “the female apologetic athlete” para referir-se às expressons de feminidade e heterossexualidade obrigatória de mulheres atletas para compensar umha imagem “masculina” de logros no desporto. E o seu complemento: a preeminência nos meios de comunicaçom do julgamento estético das atletas, em um contexto de mirada heterossexual, fronte à informaçom sobre o seu desempenho, regulando um “necessário” equilíbrio entre logros e feminidade.

Mas sobre as mulheres atletas nom recai apenas esse peso da dualidade de gênero e do sexismo, mas também a vigilância da dualidade sexual. Na década de 1960, o Comitê Olímpico Internacional e algumhas federaçons internacionais, como a de atletismo, decidiram fazer verificaçons de sexo a mulheres desportistas, também chamadas testes de verificaçom de gênero ou certificados de feminidade. Essas provas foram criadas no contexto da Guerra Fria para detectar possíveis fraudes de competidores masculinos que se fizeram passar por mulheres e, assim, somar triunfos nos medalhários dos seus respectivos países. O exame sexual consistia numha inspeçom anatômica realizada por um comitê de especialistas que examinava as atletas nuas, com a humilhaçom que isso implicava. Mais tarde, em 1968, passou-se a testes menos invasivos, como a análise da cromatina sexual da mucosa bucal ou, em 1992, o teste da reaçom ao gene SRY. Supom-se, portanto, que o caleidoscópio sexual formado por cromossomos, hormonas, gônadas, genitais externos, caracteres sexuais secundários, etc. é único e todos os seus componentes estám alinhados de acordo com um dualismo que atende aos padrons ou protótipos do corpo sexuado dum homem ou dumha mulher.

Nada melhor do que o espaço desportivo, onde o corpo e a segregaçom sexual som protagonistas, como um laboratório onde poder analisar como essas complexidades som disciplinadas e forçadas a encaixar em duas opçons. Trata-se de provas sexistas, em tanto que apenas se aplicam a mulheres, cientificamente questionadas pola sua validez, mas fundamentalmente provas que atentam contra a autonomia e a intimidade sexual de mulheres desportistas que terminam em alguns casos, e com a ajuda dos médios, com a sua carreira profissional.

Na década de 1980, a corredora Maria José Martínez Patinho luitou contra as autoridades desportivas para deixarem de estabelecer o sexo das atletas nos cromossomos, um critério que discriminava injustamente às atletas do sexo feminino com insensibilidade aos andrógenos que, como acontece com a maioria, desconhecia as letras que compunham o seu cariótipo. No entanto, ao ler a imprensa desse tempo, percebemos até que punto a mídia questionou nom só o seu sexo, mas também o seu gênero, o seu desejo e a sua moralidade. Nos noticiários falava-se da sua aparência “complacente”, do seu “desejo de se casar e ter filhos”, das suas crenças “católicas e monárquicas” e de “fazer-lhe as beiras” a atletas masculinos. A vigilância do sexo foi confundida com umha vigilância de gênero e do desejo heterossexual como prova do seu “ser mulher”, como se nom fosse suficiente o seu “sentir-se mulher”.

As cousas nom mudaram muito no novo milênio. As notícias sobre as corredoras Santhi Soundarajan ou Caster Semenya ou as da judoca Edinanci Silva mostram-nos que, dada a impossibilidade de encontrar um critério para determinar o verdadeiro sexo e bloquear a fluidez do sexo numha dicotomia rígida, passou-se a controlar a “verdadeira feminidade” através da vigilância aduaneira da coerência sexo/gênero/desejo. Mas com a circunstância agravante, nesses casos, da imposiçom racista de padrons brancos e ocidentais sobre a aparência dumha mulher. A força física das atletas negras símbolo de orgulho, é posta em causa quando questiona a sua feminidade. Confundindo todo, as notícias misturam os cromossomas, com cirurgias e hormonas, com um passado “marimacho”, com a escolha de calças grises sobre saias, com o desejo de meninas em vez de meninos, etc. Ou, como no caso de Caster Semenya, e num exercício de disciplina de gênero, a atleta é pressionada a posar numha revista de moda, maquilhada e com joias, para compensar cumha feminidade que poda resgatá-la dos seus pecados de força física e logros desportivos.

O assanhamento mediático contra pessoas que nom respondem aos padrons dualistas de sexo/gênero reflete-se na falta de respeito pola identidade de gênero subjetiva das atletas e a sua intimidade. Com Santhi Soundarajan, os cabeçalhos falaram de “fraude por cromossomo Y”, “De triunfadora a impostor. De mulher a homem. A medalhista é ele”. Parece que, independentemente da história pessoal e do direito inalienável de cada pessoa escolher a sua própria identidade subjetiva de gênero, o jornalista, assim como o especialista em medicina desportiva, apropriam-se do direito de decidir sobre o sexo e, portanto, sobre o gênero da desportista. O assanhamento da mídia vem, por vezes, acompanhado por um sensacionalismo “compreensivo e vitimista”. Notícias onde se procura na infância pobre e marginal da atleta o sofrimento inescapável de ser diferente pola sua “ambiguidade sexual”. Como se essa dor fosse o preço social a pagar para compensar as suspeitas de moralidade sexual.

De Edinanci Silva, foi dito: “Ela teve que mostrar que é realmente umha mulher devido a que o seu corpo gera muitas dúvidas”. É o corpo que gera dúvidas ou umha percepçom social baseada em esquemas rígidos e dualistas de gênero? A mídia simplesmente assume que, graças à cirurgia e ao tratamento hormonal à que foi submetida, “podia cumprir o seu duplo desejo”: ser umha mulher e poder competir, já que ditas intervençons anulavam a sua “vantagem competitiva”. Para mostrar que “ela é realmente umha mulher”, o seu corpo teve que ser operado cirurgicamente e hormonalmente. Desde 2004, o COI permite que as mulheres transexuais competirem como mulheres, sempre que foram submetidas à cirurgia genital e a um tratamento hormonal durante dous anos, o suficiente para anular a sua “vantagem”. O que constitui um avanço para mulheres transgênero, é problemático se for estabelecido como umha norma para mulheres com corpos intersexuais. É proposto como “direito ao tratamento” o que nom é senom umha obriga cirúrgica e hormonal, que pode nom ser desejada, para obter um certificado de feminidade e poder competir.

Depois de serem abandonados devido a problemas de validade científica em 1999, os controles sexuais foram retomados nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e com a participaçom de Caster Semenya no Campeonato Mundial de Atletismo de Berlim 2009, reativou-se o debate. Já se assumiu que “o sexo nom é apenas um Y”, mas a suspeita era por duas razons segundo os médios: “a imagem masculina que deu na pista” e a “incrível melhoria na sua marca”. O chamativo é que já nom se discute sobre as tecnologias necessárias para detectar a “verdadeira mulher”. Reconhece-se que nom faz sentido em fazer provas para detectar fraudes de homens que se apresentam como mulheres. O debate é agora sobre a construçom de “vantagem competitiva” que se tornou num argumento circular que ancora às mulheres numha inferioridade permanente no desportivo. Nom ter umha vantagem competitiva é o que faz de você umha “mulher”. Parte-se de que, no desporto, as mulheres som inferiores pola sua natureza física aos homens, ergo, se há umha mulher cujas marcas se aproximam à dos homens, “corre como um homem”, e ademais tem um corpo musculoso, forte e nom “apologético”, está baixo suspeita de nom ser realmente umha mulher, independentemente da sua própria história pessoal e da sua identidade de gênero como mulher.

O sexismo faz que nom surjam os mesmos debates no âmbito masculino, e que as vantagens competitivas nos desportistas masculinos nom sejam vigiadas. A tirania do dualismo sexual provoca que nom sejam vigiadas outras dimensons físicas da vantagem competitiva além das relacionadas co sexo, como nascer cumha estatura que ofereça superioridade para um determinado desporto. Obrigar a umha atleta feminina a hormonar-se para compensar a “vantagem” que pode ter níveis “altos” de testosterona que gera o seu próprio corpo, é como forçar a um jogador de basquete de altura “elevada” devido ao efeito das suas hormonas a intervençons médicas que compensem a sua vantagem em relaçom ao resto. Qual é a ameaça? A vantagem competitiva? Ou a confusom de sexos, gêneros e desejos que desestabiliza o princípio do dualismo sexual em que se baseia toda a institucionalizaçom do desporto e, ainda mais, umha estrutura social baseada na diferença sexual? Fazer que alguém seja submetido a umha intervençom cirúrgica ou hormonal como preço a pagar polo reconhecimento dumha autoridade desportiva ou de outro tipo vai contra os direitos humanos básicos.

Claramente, o medo que Caster Semenya desperta nom é a sua vantagem competitiva, mas o medo a um corpo dumha mulher hiper-musculado, que nom se desculpa, graças às hormonas que o seu corpo gera naturalmente, mas acima de tudo, graças ao trabalho árduo e ao treinamento. Até que nom se celebrem conjuntamente as marcas e a “masculinidade” das mulheres desportistas, no sentido de força, musculatura, ambiçom, e indiferença cara à estética em benefício do logro desportivo da mesma forma que se celebram as carreiras de Usain Bolt, continuará a haver barreiras para as mulheres no mundo do desporto e continuaram a serem vigiadas as fronteiras do sexo.

Artigo publicado no nº 14 da revista Full Lambda em 2010