Acivro: a árvore senlheira que o produtivismo da Junta fai perigar

Por Jorge Paços /

A árvore é o símbolo do senhorio espiritual da Galiza. A árvore é um engado dos olhos, pola sua formosura; é umha delícia dos ouvidos, porque nela cantam os paxaros; é um arrolado do espírito, porque nas suas polas conta contos o vento. A árvore pede auga ao céu para a terra ter sangue, vida e bonitura“. (Afonso Rodríguez Castelao)

Acivro, escornacabras, picoloureiro, rascacu, velhebrám…a nossa riqueza idiomática dá mais dumha dúzia de nomes a esta árvore, que foi no seu dia a primeira espécie protegida na Galiza. Fora em 1984 e agora, 34 anos depois, a Junta derroga o decreto que lhe concedia um estatuto especial de preservaçom. Mais um indício, em absoluto anedótico, do papel que o colonialismo reserva aos nossos bosques, que quer monocultivos de propriedade empresarial.

O ecologismo, nomeadamente ADEGA, denunciou este passo atrás da Junta, que aliás se consumou ‘sem levar em conta os organismos consultivos’ e à margem de qualquer razom científica.

O acivro (Ilex aquifolium) é um dos poucos exemplos de árvore que a populaçom conhece massivamente (mesmo a urbana), embora, segundo descemos na faixa de idade, a ignoráncia e o desapego face qualquer manifestaçom do mundo natural aumentam perigosamente. Graças ao acivro sobrevivem animais tam representativos das serras orientais como a pita do monte ou o urso, de quem estamos a ter novas cada vez mais frequentes nos últimos tempos. Segundo manifesta o ambientalismo, a presença de acivros no monte fazia de muralha natural contra a acçom das motoserras, pois a sua presença dissuadia os madeireiros de talar aeito para plantar pinheiros e eucaliptos. Desaparecida a barreira natural, o conglomerado de ocupaçom dos montes, composto por empresas pasteiras e energéticas, vem as portas abertas.

Umha árvore estimada pola nossa cultura popular.

O acivro acompanhou o nosso povo, alo menos, durante os últimos milénios, e hoje sobrevive reduzido às zonas montanhosas do centro e do leste. Topónimos como ‘Acevedo’, ‘Acevinho’ indicam a abundáncia desta árvore arbustiva. Da sua extensom da-nos ideia a distribuiçom toponímica : pois topamos um ‘Acivinheiro’ em zona tam sudoccidental como Guláns (Ponte Areas), e um ‘Acivreiros’ em área tam nordestina como a Irijoa de Muras. Entre ambos os pontos, dúzias de lugares ciscados nomeados com essa raiz.

O acivro é árvore de pequenas flores brancas e froitos venenosos, dos poucos da nossa flora que resistem até o Inverno. Em galego chamavam-se ‘cereija dos paxaros’.

O campesinado do país usou a sua madeira branca e muito dura para carpintaria, e com substáncia peganhenta extrazida da madeira cozida, chamada ‘liga’, faziam-se armadilhas para a caça de paxaros. A medicina popular sabia dos usos laxantes das folhas, e das qualidades do acivro contra a bronquite, a reuma ou as frieiras. Em pleno século XX, ainda se lembra a venda de preparados de acivro para doenças do gado em feiras de Compostela.

Virtudes mágicas e poder simbólico.

No conhecido grimório « Libro de San Cipriá», ao acivro reconheciam-se-lhe propriedades namoradeiras, e diz-se que os moços o utilizavam na noite de Sam Joám para conquistar umha rapaza.

Para os celtas, era umha das árvores sagradas com potencial para atrazer a boa sorte; o alfabeto mágico irlandês Ogham (onde cada letra é umha árvore) representava-o com o ‘T’. Lembra-nos Robert Graves (« A Deusa Branca ») que dava ao nome do mês céltico que corresponde aproximadamente ao nosso Julho: a razom é que floresce nestas datas. A prova da sua condiçom sagra é que aparece em peças mitológicas e histórias de cabalaria como material da que se fabricavam as armas dos heróis.