A morte do rural. Umha morte planejada

Por Antía Seoane /

“Galiza suma umha aldeia despovoada cada semana e já tem 3.562 vazias”, “Em 855 aldeias galegas apenas fica um único vizinho”, “Os núcleos despovoados cresceram um 40 % na última década”, “Galiza concentra nove de cada dez aldeias que ficaram vazias o ano passado”.

Este tipo de cabeçalhos som os que cada pouco tempo se podem ler nos jornais galegos. Cada semestre atualizam os dados que demonstram a morte do rural e volve ser noticia um feito que, se bem é um dos problemas mais graves que sofre o País, já nom é noticia. Relatam o abandono das aldeias como se fosse umha surpresa, ou como que houvesse algumha estratégia política para tratar de evita-lo e que esta estratégia nom estivesse a dar os frutos aguardados.

A realidade é mais bem a contrária. Nom há nenhuma medida real para frear este processo. O abandono do rural galego, como qualquer outro da periferia, é algo que favorece ao capital e algo que Espanha leva a procurar desde a instauraçom do Estado liberal. Para o mercado é preferível um rural abandonado à hora de construir umha barragem hidroelétrica, de atravessar um monte com umha autoestrada ou abrir umha mina a céu aberto. Se nom há gente no rural nom há oposiçom, sem gente que viva nas aldeias nom há quem defenda o território.

Mas para conseguir que a gente emigre à cidade e se some ao carro do progresso da vida urbana foi precisa umha campanha de propaganda de desprestígio do rural que durou séculos. Além, claro está, de umhas condiçons materiais que o favorecesse: nomeadamente, nos anos 60 dá-se umha industrializaçom da produçom agrária que vêm da mão de maquinizaçom e da chegada dos produtos agroquímicos. Esta industrializaçom dá lugar a umha especializaçom gandeira que derruba em pouco tempo as formas de trabalho e entendimento da sociedade rural tradicional. Esta grande transformaçom do modelo produtivo dá-se em plena ditadura franquista, que com o apoio financeiro das democracias ocidentais (que na altura já nom tinham reparos em fazer negócios com o regime franquista), também constrói as grandes infraestruturas energéticas e de transporte que inçam o País. Este processo ficou consolidado nos anos 80 com a entrada do Estado Espanhol na CE.

A Galiza tradicional

Para entender o processo de transformaçom é preciso entender previamente como era a sociedade galega antes de dito processo.

Desde um ponto de vista antropológico, a estrutura social da Galiza tradicional consiste em um conjunto de círculos concêntricos onde os círculo som a casa, a aldeia e a paróquia. A unidade básica é casa, entendida como família, com os seus roles e as suas tarefas atribuídas em funçom do gênero e da idade das pessoas que a conformam. Um conjunto de várias casas conformam a aldeia, e um conjunto de aldeias, constituem a paróquia. Dentro destes três níveis é onde se desenvolve a pratica totalidade da vida na Galiza tradicional.

Entre as diferentes casas de umha mesma aldeia ou paróquia, há umha relaçom que oscila entre a cooperaçom e a competência, devido a dous interesses opostos, mas que se complementavam. Por um lado estava necessidade de buscar a supervivência da casa e por outro deviam ajudar à comunidade devido à tremenda interdependência que havia entre os seus membros. O trabalho comunitário atingia às tarefas agrárias: gestom do monte em mão comum, ajuda mútua nas colheitas (jeiras e torna-jeiras), gerir e construir os recursos comunitários como muinhos, canais de rego, caminhos, poços de água,… Mas além das tarefas agrárias também havia outros labores comunitários como eram, por exemplo, as escolas de ferrado, escolas autogeridas que alfabetizavam a populaçom rural. Por outra banda, muitas das decisons que escapavam ao poder do cacique eram decidias de jeito assemblear no concelho aberto.

Assim as cousas, pode ver-se que era umha sociedade autônoma e auto-organizada e que nom precisava das estruturas do Estado para sobreviver. Para o campesinado galego o Estado apenas aparecia como umha estrutura que extraia lucros e bens em forma de impostos, e de aí a sua rejeiçom a que intervise na sua vida. Esta visom do Estado bate frontalmente com a conceiçom clássica do Estado que provem da Ilustraçom e que hoje predomina no mundo urbano, que vê no Estado um ente protetor e provedor dos bens e serviços básicos.

Além do anterior, na Galiza rural nom existia umha distinçom entre o tempo de lazer e o tempo do trabalho. Ambas esferas estavam misturadas e conformavam umha unidade. Era, por tanto, umha organizaçom do tempo que nom se ajustava aos ritmos de trabalho produtivo próprios do capitalismo.

Séculos de propaganda

Como se pode apreciar, os valores da Galiza rural eram antagônicos com os valores da modernidade e do capitalismo que representava Espanha, e o Estado era consciente disto.

O capitalismo primeiro intenta roubar a identidade dos povos para posteriormente arrebatar-lhes o resto. Um recurso utilizado para eliminar a identidade de umha comunidade é articular um discurso de ódio que a própria comunidade acabe assimilando. Assim foi como se consolidou um juízo sobre a inferioridade cultural dos lavradores que no caso galego, se estende a toda a populaçom do País.

Neste adoutrinamento estava presente um desprezo constante polo mundo agrário e a gente da aldeia, quem a olhos dos ilustrados, reunia todas as qualidades negativas: ignorantes, irracionais, bárbaros, sujos, supersticiosos, brutos. Qualidades todas elas que faziam aos habitantes de Galiza imunes a qualquer processo de modernizaçom. Mas este nom era um discurso que empregasse unicamente a direita, também a esquerda espanhola botava man del. A esquerda espanhola pensava que para alcançar a igualdade social supunha rematar com as culturas atrasadas e ignorantes do rural como a galega. E mesmo a intelectualidade galega, que aparentemente defendia as expressons populares do povo galego, nas páginas do jornal O Tio Marcos d`a Portela, ou na revista Nós, por pôr apenas dous exemplos, tinha um certo tratamento paternalista do mundo rural.

Este relato contra a populaçom do rural nom era algo que atingisse unicamente o nosso País, estas eram as palavras que Engels proferia sobre os lavradores em A situaçom da classe obreira em Inglaterra: “viviam cômodos vegetando em silêncio e, de nom ser pola Revoluçom Industrial, nunca teriam deixado essa existência que, ainda sendo agradável e romântica, tampouco nom era digna de seres humanos.”

A modo de conclusom

A comunidade rural galega nom viveu placidamente subordinada ao poder, senom que foi protagonista dumha resistência civil ante um processo de modernizaçom imposta por um Estado que baniu parte da cultura e idiossincrasia galega. Foi umha comunidade que reagia decididamente quando via agredidas as estruturas básicas da sua vida e que por isso mesmo, conseguiu preservar muitos traços dumha identidade coletiva ainda reconhecível.

Por todo o exposto, nom se pode ver o abandono do rural como umha consequência inesperada do progresso, um efeito secundário que o Estado nom puidesse prever. É pola contra, um condiçom sine qua nom da grande transformaçom, da expansom da lógica mercado a todos os âmbitos da vida.