Por Isaac Lourido /

Mobilizaçons, acontecimentos, cidade, mar, mundo rural, rituais, retratos, povo cigano, heterotopias. Velaí as nove seçons em que se organiza o catálogo Galicia (1975-1979) da fotógrafa catalá Anna Turbau. Um conjunto heterogéneo de imagens, mas com linhas condutoras definidas e reconhecíveis, que com predomínio do preto e branco nos levam dos protestos populares contra a construçom da AP-9 para a vida quotidiana dos Ancares, as manifestaçons feministas ou o trabalho das mariscadoras das rias galegas. Também encontramos nesta série espaços convencionalmente ocultos na iconografia social do nosso país como o bairro cigano do Vao, em Poio, ou as instituiçons de reclusom psiquiátrica. Ainda, a fotografia de Anna Turbau consegue retratar romarias, rituais e outras práticas da cultura popular sem cair no olhar estereotipado e exotizante a que infelizmente estamos demasiado afeitxs.

O catálogo é resultado da exposiçom A intimidade da imaxe. Anna Turbau, que se inaugurou no Colégio de Fonseca, em Compostela, em outubro do ano passado. Organizada polo Consello da Cultura Galega e comisariada por Margarita Ledo Andión, tem origem na doaçom, por parte da fotógrafa catalá, de mais de dez mil originais (negativos ou diapositivos) ao arquivo da instituiçom. Embora a fotografia de Anna Turbau tinha sido nas últimas décadas protagonista pontual de mostras e publicaçons galegas, tanto a exposiçom como o catálogo permitem umha aproximaçom mais completa da sua breve trajetória na Galiza. Quatro anos em que Turbau, procedente de Barcelona e com parcas referências prévias da nossa sociedade e da nossa cultura, acompanhou intensamente os movimentos e conflitos sociais que caraterizárom o período da restauraçom bourbónica. Um período, aliás, partilhado com o seu companheiro Llorenç Soler, autor entre outras peças dos interessantes documentários Autopista, unha navallada á nosa terra (1977), Condenados a beber (1978) ou O monte é noso (1978).

Nas diferentes análises da obra galega de Anna Turbau, há poucas dúvidas quanto à necessidade de procurar relaçons com o tempo histórico em que foi produzida. No próprio catálogo, o historiador Emilio Grandío define, com algumhas contradiçons, o dito período transicional como um tempo em que “tudo era possível”. Quer dizer, podemos entender nós, em que determinadas lutas, conflitos e consciências estavam plenamente ativados, em que determinados caminhos de construçom social nom foram fechados, em que a fotografia de Anna Turbau era também participante e nom só testemunho. Se na reportagem publicada no Sermos Galiza Daniel Salgado falava da oportunidade de “completar o relato da Transiçom” através desta obra, nom parece descabido pensar que, mais do que completar, a fotografia de Turbau quebra, desestabiliza, abre fendas na narrativa que nos foi legada por quem já sabemos e da maneira que é bem conhecida.

Da obra de Turbau interessam também os contrapesos entre a utilidade direta e imediata do fotojornalismo – foi colaboradora nesta época de diferentes revistas e jornais, entre os quais Interviú ou A Nosa Terra – e o desenvolvimento dum estilo próprio, auto-didata, distanciado já naquela altura do neorrealismo mais previsível, e próximo no entanto do “ensaio fotográfico” (Cristina Zelich) ou, por palavras de Rebeca Prado, de um “documentalismo humanista direto”. Umha proposta profissional, artística e ética para a qual se fôrom progressivamente fechando as portas – Anna Turbau orientou a sua trajetória na década de 1980 para a docência – e que dificilmente conseguiríamos encaixar hoje no campo da imprensa comercial.

Estamos portanto perante umha fotografia que ainda nos interpela e que ainda nos serve. Em primeiro lugar porque os nossos movimentos conservam a capacidade de se reconhecerem e se empoderarem através das instantâneas de Turbau. Depois, porque é umha fotografia que di tanto sobre o foco – posto ali onde ninguém quer olhar, até em lugares incómodos ou ignorados polos movimentos sociais – como sobre a posiçom (politicamente) audaz de quem tira a fotografia. Finalmente, porque frente à diversificaçom e fragmentaçom da açom dissidente, propom umha recomposiçom dos objetivos políticos e, talvez, diríamos, umha volta a determinados conflitos estruturais: classe, naçom, género e território.