Como podem secuestrar as nossas mentes: os perigos do smartphone

Por Paul Lewis (traduçom do galizalivre) /

Justin Rosenstein retocara o sistema operativo do seu computador para bloquear Reddit, deu-se de baixa de Snapchat -que ele compara com a heroína- e pujo-se limites na utilizaçom de Facebook. Mas nom era abondo. Em Agosto, este tecno-executivo de 34 anos deu um passo mais afouto para restringir a sua utilizaçom das redes sociais e outras tecnologias aditivas. Ele aduiriu um novo iphone e deu instruçons ao seu ajudante para configurar umha peneira de controlo que lhe impedira descarregar-se aplicaçons. Sentia-se abourado pola enxurrada de “gosto” de Facebook, que descreve como “cárregas deslumbrantes de pseudo-prazer”, com efeitos sedutores e efêmeros. E o seu critério nom era o de qualquer um: Rosenstein é o engenheiro que criou o botom “gosto” para Facebook. Umha década depois de ter passado a noite em branco a codificar um protótipo do que entom se qualificara como um botom “empolgante”, Rosenstei faz parte dum sector cativo, mas crescente, de apóstatas em Silicon Valley que protestam contra a chamada economia da atençom. (…)

Trata-se de desenhadores, engenheiros e gerentes de produtos que, como Rosenstein, chantárom há uns anos os alicerces dum mundo digital de cujo sarilho tencionam agora fugir. “É comum no ser humano -diz Rosenstein- fazer cousas com a melhor das intençons, a provocar consequências indesejáveis nom previstas”. Rosenstein (…) declara-se especialmente preocupado com os efeitos psicológicos sobre a gente que, como amossa um estudo, desliza os seus dedos sobre o ecrá do telefone 2617 vezes ao dia. Existe um desacougo crescente sobre o feito de, além de criar aditos, a tecnologia está a contribuir para o que se chama dissipaçom contínua da atençom, a limitar fundamente a capacidade das pessoas para se concentrarem, e até mesmo ruindo a nossa inteligência. Umha pesquisa recente demonstrou como a simples presença dum smartphone afecta as capacidades cognitivas, mesmo quando está desligado. “Todo o mundo está distraído, durante todo o tempo”, conclui Rosenstein.

Em 2007, ele fazia parte dum escolhido grupo de empregados de Facebook que apostárom por criar um atalho, mediante um só “clique”, para enviarem pequenas doses de positividade através da plataforma. O botom do “gosto” foi, como diz Rosenstein, um sucesso avassalador; a fidelidade dos usuários multiplicou-se, ao tempo que Facebook colheitava informaçom preciosa sobre as suas preferências que ia ser vendida depois aos anunciantes. A ideia foi replicada aginha por Twitter, Instagram, e todo um amplo leque de webs.

Foi a companheira de Rosenstein, Leah Pearlman (…), quem anunciou a novidade numha entrada de blogue de 2009. Pearlman, que aos seus 35 anos trabalha de ilustradora, confirmou-nos por correio electrónico que ela também se está a desapontar com os “gosto” e outros mecanismos aditivos de participaçom. Instalou um complemento no seu navegador para desabilitar os conteúdos destacados do Facebook e contratou umha gestora de redes sociais para levar a sua página pessoal. “Umha razom pola que acho importante falarmos sobre isto todo, e que poderíamos ser a derradeira geraçom capaz de lembrar como era a vida antes”, diz Rosenstein. Porventura tiver certa releváncia o feito dele, como Pearlman e a maioria da gente do seu grémio que hoje ponhem em causa a “economia da atençom”, rondam os trinta anos; som membros da derradeira geraçom com capacidade de recordar um mundo no que os telefones estavam ancorados na parede. Resulta revelador que muitos deste jovens engenheiros estejam a desvencelhar-se dos seus próprios produtos, e enviem as suas crianças a escolas elitistas de Silicon Valley na que os trebelhos mais inovadores -até os computadores- estám
aones, iPads e incluso los ordenadores portátiles están vetados.

Nir Eyal (…) autor de “Hooked. How to buil habit-forming products”, botou anos a assessorar a empresas tecnológicas, ensinando as técnicas que desenvolveu a partir da esculca do funcionamento dos gigantes de Silicon Valley: “As tecnologias que utilizamos virárom compulsons, por nom dizermos em adiçons gritantes”, escreve. “É o impulso de comprovar a notificaçom dumha nova mensagem. É a tendência a visitarmos Youtube, Facebook ou Twitter por uns minutos e descobreres-te a ti mesmo, logo dumha hora, a surfares ainda dum enlace a outro.” Nada disto é por acaso, afirma. É mesmamente o que os desenhadores pretendiam. Eyal explica as subtis armadilhas psicológicas que podem pôr-se em jogo para conseguir o desenvolvimento de hábitos na gente, como variar as recompensas que recebem os usuários para gerarem expectaçom ou explorarem as emoçons negativas que podem funcionar a jeito de “disparadores”. O aborrecimento, a soidade, a frustraçom, a confusom e a indecisom adoito aguilhoam umha sensaçom de arrelia ou dor, e provocam umha acçom quase instantánea e irreflexiva para amolecerem esse sentimento negativo. (…)

Porém, Eyal apequena as pessoas que comparam a adiçom à tecnologia com as drogas (…) “O mesmo que nom devêssemos culpabilizar o pasteleiro por nos preparar doces deliciosos, tampouco nom podemos botar a culpa os criativos das tecnológicas por apresentar-nos produtos tam bons como para querermos utilizá-los. Evidentemente, isto é o que farám as companhias. E francamente, nom podemos conceber umha outra cousa”. Ironicamente, na Habit Summit 2017, Eyal finalizou a sua palestra a oferecer o público alguns trucos pessoais para resistir o encatamento da Máquina. Explicou ao público que recorre a umha extensom de Chrome para purgar muitos dos disparadores externos dos que fala no seu livro, e recomendou umha aplicaçom chamada Pocket Points que “gratifica o usuário por ficar desligado do seu smartphone naqueles intres nos que é preciso se concentrar”. Para rematar, Eyal revelou as medidas que ele aplica para proteger a sua família; tem instalado na sua morada um temporizador ligado ao router que desliga o acesso à rede todos os dias a umha certa hora. “Trata-se de recordarmos que nom estamos indefensos, senom que temos o controlo”.

Porém, é verdadeiramente assi? Se aqueles que criárom estas tecnologias estám a tomar medidas tam radicais para se desintoxicarem, será possível o resto de nós sabermos exercer a nossa liberdade de decisom? Nega-o Tristan Harris, ex-trabalhador de Google de 33 anos, na actualidade umha voz crítica face esta indústria. “Todos estamos enganchados a este sistema; podem secuestrar as nossas mentes. Nom temos tanta liberdade de escolha como pensamos”, afirma.

Harris foi qualificado como “o mais semelhante a umha consciência que há em Silicon Valley”; ele teima em que milhares de milhons de pessoas carecemos de capacidade de escolha sobre a utilizaçom das tecnologias ubícuas, e ignoramos até que ponto um reduzido grupo de criativos estám a emoldurar as nossas vidas: “um fato de pessoas que trabalham para umhas poucas empresas tecnológicas condicionam com as suas decisons o que milhares de pessoas estám a pensar neste intre”, alertou recentemente numha palestra em Vancouver. (…) “Nom conheço problema mais urgente do que este. Está a transformar a nossa democracia, e está a alterar a nossa capacidade para escolhermos que tipo de relaçons e conversas queremos manter entre nós” (…) Harris indagou como Linkedlnn explora a nossa necessidade de reciprocidade social para espalhar as suas redes; como Youtube e Netflix reproduzem conteúdos automaticamente, obviando se os usuários querem ou nom continuar a olhar; como Snapchat criou os seus aditivos “snapstreaks”, fomentando a intercomunicaçom atreu entre os seus usuários jovens.

E as técnicas que utilizam estas companhias nom sempre som genéricas: podem personalizar-se para cada usuário mediante algoritmos. Um informe interno de Facebook filtrado neste ano, por exemplo, desvendou como a companhia pode determinar se um adolescente se sente “inseguro” ou “baixo de auto-estima” e precisa umha injecçom de confiança. Esta informaçom, acrescenta Harris, é um “modelo perfeito sobre que resortes premer para condicionar um certo indivíduo”. As companhias tecnológicas podem explorar estas vulnerabilidades para manterem a gente adita, manipulando quando as usuárias recebem “gosto” polas suas publicaçons, assegurando-se de estas chegarem quando o indivíduo se sente mais vulnerável, precisa aprovaçom, ou simplesmente se entedia.

(…) Umha amiga em Facebook contou a Harris que os desenhadores, de partida, decidírom que a icona de notificaçons que alerta os usuários sobre a actividade recente como “solicitudes de amizade” ou “gosto” devia ser azul. Concordava com o estilo de Facebook e, segundo se valorizou, iria resultar “subtil e inócuo”. “Mas ninguém o utilizava”, explica Harris, “daquela cambiárom-no polo vermelho, e a cousa mudou”. Esta icona vermelha está agora em toda parte. Quando os usuários de smartphones comprovam os seus ecrás centos de vezes ao dia, vem-se assaltados por pequenos pontos vermelhos nas suas aplicaçons, chamando por serem premidos. “A cor vermelha é um disparador”, assinala Harris, “e por isso se utiliza como sinal de alarme”.
O desenho mais aliciente, segundo o mesmo autor, aproveita a mesma susceptibilidade psicológica que fai com que os jogos de azar resultem tam aditivos: recompensas variáveis. Ao premermos com o dedo o botom vermelho, nom sabemos se vai aparecer um correio interessante, umha enxurrada de “gosto”, ou nadinha de nada. É a possibilidade dumha decepçom o que fai com que for tam compulsivo. Isso explica por que o mecanismo de “pull-to-refresh” (actualizar conteúdos a arrastar o ecrá) virou numha das inovaçons mais avassaladoras e aditivas da tecnologia moderna. “Cada vez que arrastas o ecrá com o dedo, é como jogar a umha máquina caça-níqueis. Nom sabes o que vai vir logo; por vezes umha imagem bonita, por vezes um simples anúncio…”

Loren Britcher é o desenhador que criou tal mecanismo. Diz: “agora tenho dous cativos e arrependo-me cada minuto que nom lhes presto atençom, porque o telefone tem-me absorvido. Botei horas a fio, e semanas, e meses, e anos, a reflectir se todo o que tenho feito tivo um impacto positivo na sociedade e na humanidade”. Britcher tem bloqueado certas webs, tem desligado as notificaçons, tem restringido o uso de Telegram para se comunicar apenas com a sua mulher e dous amigos, e tentou desligar-se de Twitter. “Ainda perdo o tempo alô, a ler novas absurdas que já conheço”, reconhece. Carrega o seu telefone na cozinha, ligando-o às sete da tarde, e deixando-o alô até a manhá seguinte. “Os smartphones som ferramentas úteis”, reconhece, “mas som aditivos”. O “pull-to-refresh” é aditivo, o mesmo que twitter. Algumha cousa nom vai bem; quando trabalhava nisso, nom era maduro abondo para o compreender”.

(…) Chris Marcellino foi contratado por Apple para trabalhar na ensamblagem da tecnologia de notificaçons, introduzida em 2009 para facilitar as acutalizaçons e alertas em tempo real a centos de milhares de técnicos de aplicaçons. (…) Marcellino acha-se arstor a finalizar a sua preparaçom como neurocirurgiao. Pontualiza que nom é nenhum experto em adiçons, mas diz que aprendeu abondo durante os seus estudos como para saber que a tecnologia pode afectr as mesmas vias neurológicas que o jogo ou as drogas. “som os mesmos circuítos que impulsam a gente a procura alimento, comodidade, calor, sexo”. Todas elas, sustém, som condutas baseadas na gratificaçom activada polas vias dopaminérgicas do cérebro. Marcellino por vezes abraia-se ao se ver premendo as iconas em vermelho das suas aplicaçons “apenas para as ver desaparecer”; sem embargo, nom considera ánti-ético explorar as fraquezas psicológicas da gente: “nom é mau de seu atrair o público cara o teu produto. Assim é o capitalismo”.

Velaí, com toda provabilidade, o problema. Roger Mc Namee, um investidor que se enriqueceu com as suas operaçons em Google e Facebook, rematou desenganado com ambas as companhias, pois segundo ele, os fins que perseguiam ficárom desvirtuados polas fortunas que conseguírom amassar em anúncios. Para ele, a apariçom do smartphone foi o ponto de inflexom que abriu o caminho a umha luita a ferro e lume por conseguir a atençom da gente: “Facebook e Google declaram sem se corarem que estám a dar aos usuários o que eles pedem. O mesmo se poderia dizer das companhias tabacaleiras dos narcos”.

James Williams nom crê que falar em distopia seja um disparate. Ele é um antigo estratega de Google, e foi testemunha de excepçom do funcionamento dumha indústria que descreve como “a forma mais grande, estandarizada e centralizada de concentraçom da atençom na história”. Ele conta que a sua epifania chegou há uns anos, quando se decatou de que estava rodeado duns trebelhos que lhe impediam concentrar-se nas cousas que requeriam a sua atençom. “Foi quase umha revelaçom pessoal. Que está a acontecer? Nom se supom que a tecnologia devesse servir-nos justamente para o contrário? (…) Afirma que as mesmas forças que orientárom as empresas do sector a virar aditas as suas usuárias mediante argalhadas nos desenhos, também as levárom a representar o mundo dumha forma rumada ao consumo irreflexivo. “A economia da atençom incentiva o desenho de tecnologias que apreixam a nossa atençom. Ao fazer assi, dá prioridade aos nossos impulsos por cima das nosas intençons. Privilegia-se o sensacional sem levarem-se em conta os matizes, apelando à emoçom, à raiva e à indignaçom. Os meios de comunicaçom trabalham cada vez mais ao serviço das tecnológicas, e devem ajustar-se às regras da economia da atençom e sensacionalizar, seduzir e entreter para podermos sobreviver” (…) Todo isto pode modificar o jeito em que enxergamos, virando-nos menos racionais e mais impulsivos. “As dinámicas da economia da atençom estám desenhadas a mantenta para menosprezarem a vontade humana”, adverte. (…) Se Apple, Facebook, Google, Twitter, Instagram y Snapchat estám a ruir a nossa capacidade para controlarmos as nossas próprias mentes, poderia-se chegar a um ponto no que a democracia desaparecera?

“Seremos quem de nos decatar quando isto acontecer?”, pergunta-se Williams. “E do contrário, “como saber se nom tem acontecido já?”

*A versom completa deste artigo foi publicada em “The Guardian”.