Por Jorge Paços / “Meses do inverno frios,/ que eu amo a todo amar,/ meses dos fartos rios / e o doce amor do lar. Meses das tempestades /metáforas da dor / que aflige as mocidades / e as vidas curta em flor.”

Rosalia de Castro, “Folhas Novas”

Em dias como hoje, a imensa maioria da populaçom galega reúne-se em família chamada por umha data nominalmente cristá. À margem das conviçons religiosas mais ou menos firmes, ou do ateísmo professado, o nosso país congrega-se ao chamado das áreas comerciais e do lazer televisivo. Este é o Natal do século XXI, que nom nos devesse fazer esquecer umhas raigames mais antigas, ligadas aos ciclos naturais, e também mais saudáveis.

Associaçons interessadas no património galaico estám a fazer, nos últimos tempos, um esforço importante por resgatar o que fomos. Assim acontece com a Irmandade Druídica Galaica, que no seu web nos lembra o sentido do Solstício, cristianizado como Natal.

Solstícios e equinócios eram datas rituais na civilizaçom céltica atlántica (se bem de menor importáncia que as quatro grandes celebraçons anuais). Lá onde temos testemunho escrito das velhas deidades -caso de Gales e Irlanda, em menor medida da Gallaecia- sabemos que nestes dias o povo celebrava o passeninho retorno da luz solar contra as trevas do Inverno, através do sacrifício simbólico dumha pessoa ou animal que dava lugar ao seu renascimento. Eis o senso das datas gaélicas como Matronucta (Noite Nai), o Meán Geimhridh (Meio Inverno) e Lá an Dreoilín (Dia da Carriça). Era habitual, nas terras atlánticas, a captura, apreixamento e logo libertaçom dum passarinho nestas datas de transiçom, simbolizando a continuidade do tempo cíclico. Sabemos que este costume perviviu na comarca da Marinha, concretamente em Lourençá.

O tiçom ou cachopo.
Com maior precisom documental podemos falar dumha outra tradiçom, a do tiçom ou cachopo. Tinha lugar justamente na Noite Boa, quando se prendia um cepo na lareira de cada casa. As suas origens, mui provavelmente pré-romanas, estám documentadas desde a Idade Média, e foi umha prática célebre em toda a Europa.

O tiçom consumia-se até ficarem as brasas, cuja duraçom garantia boa sorte, protecçom contra o infortúnio e fertilidade. O carvalho, a nossa árvore mais senlheira, era a espécie escolhida para o cerimonial, embora como noutras zonas da Europa estavam presentes distintas árvores do mundo atlántico.

Importantes vultos galeguistas, caso de Vicente Risco ou Eládio Rodríguez, estudárom sobre o terreno esta prática, que perviviu bem entrado o século XX, e que arraigou em comarcas tam distintas como os Ancares ou o Baixo Minho. A transformaçom da arquitectura popular, com o fim das lareiras, enfraqueceu este costume a partir da década de 60.

Arredor do tiçom a arder na lareira, que era o centro material e simbólico da morada, nom só se transmitia a memória oral: também se cria que os devanceiros estavam presentes, consonte a velha visom céltica, e em geral indoeuropeia, de esvacecerem-se as fronteiras entre pessoas vivas e mortas nas datas de grande significado religioso.

*Parte das informaçons deste artigo foram tiradas dos trabalhos da Irmandade Druídica Galaica.