Por César Caramês /

Este sábado 2 de Dezembro, no Teatro Principal de Compostela, como acontecera na estreia da sua obra Carmiña em 1922, há ecoar de novo o nome de Joám Jesus Gonçales. Após um cheio extraordinário na apresentaçom em Cúntis, o Quinteiro do Úmia leva à capital o seu projecto mais ambicioso, O canteiro de Sebil , um documentário comunal sobre a figura do dirigente arredista fuzilado. Ao lombo, messes e messes de gravaçons, recriaçons, procura de localizaçons e montagens executadas co voluntariado como método exclusivo de trabalho, assemblearmente e sem financiamento público.

A intençom de tanto trabalho? Difundirmos umha narrativa própria, das de aqui em baixo, que percorresse a história galega no primeiro terço do século XX dum jeito diferente. Para consegui-lo, cumpriu superar duas travas permanentes ao abranger o período e que embretemam qualquer olhada nova. Por umha banda, o discurso mistificador da II República Espanhola que reduz toda dialéctica à legitimaçom histórica da esquerda espanholista e anula qualquer outra perspectiva. Pola outra, a visom intelectualista que entende a história de Galiza como história da literatura produzida maioritariamente pola classe média, ela própria enunciadora deste mesmo discurso.

Joám Jesus Gonçales constituía o recipiente perfeito para peneirar as duas distorçons. De entre a miríada de represaliados polo fascismo na nossa comarca, o seu polifacetismo apanhava o espectro inteiro do que aquela geraçom massacrada podia fornecer-nos às galegas e galegos de hoje em dia. Um agrarista que lê El Bólido (publicaçom comarcal das sociedades agrárias) e vive o agitado Cúntis rebelde da época. Um canteiro que se fai mestre estudando pola noite. Um escritor em galego e jornalista que situa as mulheres como protagonistas em coerência coa sua prática política pro-feminista. Um sindicalista combativo que acaba a carreira de direito em três anos para melhor defender os seus. Um marxista heterodoxo que unifica independência nacional e socialismo no primeiro partido socialista e soberanista do país. Um resistente que arma e dirige o povo para deter o fascismo fuzil em mao.

Para atingir o objectivo planificado, a forma resultava fundamental. A desintelectualizaçom passava também por achegar-nos a fasquias assimiláveis pola gente do comum e afastar-nos de modelos ampulosos e academicistas, adoito disfarces do pior classismo colonial. E assim jogamos ao cinema tentando implicar a vizinhança em cenas que recriassem episódios relatados polas pessoas entrevistadas. A experiência resultou enriquecedora e divertidíssima, chave imprescindível para que todo o projecto saísse adiante.

Porém, a medida que nos mergulhávamos no personagem através da investigaçom, a sua particularidade acabou-nos cativando mais e mais. O seu rosto humano virava-o ainda mais atractivo e arrastava-nos com ele além do arquétipo. Descobrimos que era um gram seareiro do Celta e um apaixonado cronista desportivo; que estava sempre alegre e gostava das brincadeiras, que era meninheiro e morria pola sua sobrinha Carme. Mas, sobre todo, batemos com Lola Mora, a sua companheira valente e livre. Assim, duas questons absorviam o interesse por cima de quaisquer outras segundo a aproximaçom crescia. A umha beira, aquela intuiçom adiantada ao seu tempo, quase profética, que compreendia a opressom nacional, a de classe e a da mulher como entrelaçadas numha olhada holística e superadora do obreirismo da esquerda da altura. À outra, o despreendimento de quem, gozando dumha posiçom privilegiada, estando no melhor momento da sua vida, mesmo a piques de casar e convertido em advogado de sona, choutou à morte coas armas na mao para evitar o triunfo do fascismo.

Foi nele mesmo, nos seus escritos e na lembrança familiar, onde atopamos respostas a estas duas perguntas que tanto engaiolavam. Ambas repousavam no mesmo lugar, no prisma desde o que Joám Jesus percebia a realidade desde pícaro. Língua e classe social resultavam inseparáveis para um canteiro de aldeia que bateu co racismo espanholista da Universidade daquele momento. A mulher como sujeito livre deduzia-se de seu para quem assistira ao seu protagonismo no movimento agrário. Nas juntas paroquiais galegas, enquanto na Europa ainda ninguém reconhecia o voto feminino, o género nom importava à hora de representar a casa, nem para falar nem para votar. Do mesmo jeito, a bravura coa que tomou as armas manifesta-se análoga à das vizinhas e vizinhos que se lançam a apagar as lapas quando um incêndio ameaça a aldeia. No universo comunal dum aldeao galego, resulta mais que compreensível sacrificar-se polos próprios contra o perigo que ameaça a comunidade. Quando se percebe o amor que sentia polos seus nas palavras da família, o entendimento agroma no momento. Que mundo lhes ia ficar a Carme, a Lola, a todas e todos se aquele gram mal triunfava?

Este sábado 2 de Dezembro, quem acudir às oito ao Teatro Principal de Compostela há poder conhecer a história a várias vozes dum anaquinho de nós. Polo meio haverá tiros, bágoas, cançons e cenas de amor. Fará-o, aliás, gratuitamente, como mandam os leis do Quinteiro, para que o exemplo se repita por todo o país até criarmos em enxámio abouxador de vozes próprias. Porque estando em inferioridade, as estratégias vitoriosas som as que entendem como arma aquilo que o inimigo nunca concebeu como tal.