Por June Fernández (traduçom do galizalivre) /

Se a semana passada falávamos das regatas de remo e como se popularizárom até converter-se num desporto federado e com miles de desportistas, hoje mostramos a outra cara da moeda. Falamos da bugalhinha, um jogo tradicional que é jogado apenas por mulheres em Carvalhedo de Ávia, e que devido ao abandono do rural está a desaparecer. Vertemos este texto ao galego, publicado no número 5 da revista Píkara, que está formado à sua vez por fragmentos dum capítulo do livro “10 ingobernables”.

O jogo é sagrado: O mesmo fai que saraive ou que o sol convide a passar a tarde na piscina. O mesmo fai que as filhas e as netas venham a visita-las. Aos domingos às cinco em punto se é Verao ou às quatro e média em Inverno (que os dias som mais curtos), as mulheres reunem-se arredor dum pequeno burato, a burata, a palavra que mais pronunciarám ao longo da tarde. Em princípio joga-se ao ar livre. Mas quando chove, que em Galiza é amiúde, toca mudar-se à sua pista coberta: o res do chao da casa do párroco, que elas mesmas reabilitárom para poder jogarem. Convém que o chao seja de terra, mas tivérom que resignar-se ao asfalto e ao cimento respetivamente. Na casa por motivos óbvios. No exterior porque o alcalde decidiu pavimentar e converter em estacionamentos o anaco no que jogavam. Desde aquela defende-no dos carros acordoando-o com macetas e botando umha capa de areia sobre o asfalto para que o terreo seja o mais natural possível.

O jogo é mais que um jogo: é resistência. Jogam cada domingo, nom obstante cada vez som menos e sem relevo geracional. Jogam cada domingo, ainda que o alcalde, que nom percebe esta actividade como património cultural, lhes plante um aparcamento na sua pista. Negociam também co párroco que fingiu cobrar-lhes a conta da luz por jogarem nas suas instalaçons quando chove. Finalmente dixo-lhes que é suficiente com que botem algumha moeda de mais no peto na missa do domingo.
O jogo entre mulheres é resistência ante o desprezo social. O agrávio entre desporto masculino e feminino traslada-se também ao ámbito dos jogos tradicionais. Os que praticam os homens som amplamente documentados, mas pola contra apenas existem publicaçons sobre os praticados por mulheres adultas. “Tenho dúvidas sobre se é que realmente nom existem ou se, polo contrário existírom e ainda existem, mas desgraciadamente nom estám recolhidos”, disse a investigadora Manuela Vázquez Coto. Ela é que está a dedicar a sua tese doutoral a este jogo tradicional, a bugalhinha, conheceu outros praticados unicamente por mulheres adultas, como as ‘birlhas’ em Campo (Huesca) ou o jogo dos bolos na comarca da Riojilla Burgalesa. Também topou outras referências de jogos de bolos praticados por mulheres em Asturias, Castilha e Leom, e Catalunya. “Todos som, em conclusom, modalidades de bolos, de birlos, enquanto a bugalhinha é umha prática que nada tem a ver, é diferente”, explica com paixom.
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De entrada, o jogo nom parece ter muito mistério. Simplificando, é umha mestura entre a petanca e as bolas. As mulheres dividem-se em duas equipas e jogam em turnos em parelhas de oponentes. Sai umha, guinda a bugalhinha desde a parede do fundo co objectivo de encaixá-la na burata, que está no terceiro quadrante (imaginário) do recinto. Se acerta, volve jogar. Se falha, toca-lhe à da outra equipa, que pode escolher entre apontar ela também à burata ou intentar golpear a bola da sua oponente.

“Arrima a unha mais à bola, Manoli! Dá-lhe mais força!”, aconselha Saladina a Manuela. “Já bota-che mal!”, rifa. As maiores som mestras severas. É um jogo de destreça, pontaria e precisom. Desde a parede toca aplicar esse slogan publicitário, a potência sem control nom serve de nada. Quando a bola ronda o burato há que esmerar-se nas distáncias curtas: golpea-na suavemente fazendo panca com a gema do dedo índice e a unha do dedo polegar.
O relógio marca as quatro e média passadas e o banco, umha trave de madeira pousada sobre tijolos e pedra, enche-se se jogadoras. A média de idade supera os setenta anos. Há balbúrdia para formarem as equipas, andam preguiceiras. Já se sabe quem som as mais destras e quem as mais desajeitadas. A situaçom lembra ao mal trago na escola quando rezas por nom ser a última em ser eligida. Mas elas já vam velhas para decepçons, fam-se as tolas até que algumha se pom resolutiva: “Entom com quem vou? Josefa, Saladina e eu?”

Saladina caminha com passo firme até a parede, dóbra-se grácil, lança, e méte-a à primeira. Na piçarra, Manuela anota 16 pontos. Custou-lhe o seu compreender o sistema de pontuaçom. “É um jogo mui original e complexo, nom no motriz, aliás porque as suas regras som únicas”, resalta, e imediatamente o comprovamos. Os tantos variam em funçom do tipo de jogada. Se anotas tanto da parede, coma neste caso, som quatro pontos. Se encaixas a bugalhinha na burata de perto, é um ponto. Se bates a bola da outra equipa a média distáncia som dous pontos. Mas há regras caprichosas para complicar o assunto. Se Saladina fixo quatro pontos, por que Manuela anota 16? Porque cada equipa nom arranca de zero, senom de doze. Doze mais quatro, dezasseis.

Saladina erra e toca-lhe à cabeza da outra equipa. Tita (pelo curto cor cobre, olhos azuis, bochechas encarnadas, nariz ancha, corpo robusto e grande dianteira) estrea-se co vigor e a porte dumha lançadora de peso rusa.

Quando há que lançar desde longe, algumha adota a postura dos bolos, cumha perna atrasada e o peso do corpo sobre a de diante. Outras abrem as duas pernas em paralelo e ligeiramente flexionadas, co cu em pompa, como umha girafa a fazer umha reverência.

Custa arrancar e muitas desfam-se em queixas e escusas. A mais socorrida e botar-lhe a culpa ao chao de cimento. A bola a vezes traça curvas imprevistas polo chao granulado. “Vou ter que graduar-me as lentes” recrimina-se Josefa, que nom começou mui fina. Com a sua melena loira cinza, silhueta de formas redondeadas, raia verde nos olhos e unhas pintadas de branco, é umha das jogadoras mais falangueiras. Consegue dar-lhe à bola da rival, a faciana ilumina-se-lhe e celebra-o cumha voz cantareira: “Sim!!”

Umha mulher de cabelo vermelho, pele oliva e gesto de ombreiros encolhidos, que até agora nom se fixera notar, estrea-se marcando quatro puntos: “Ai a virgem, assim ao parvo!”, surpreendem-se as rivais. Manoli, que assim se chama, falha a seguinte e jura, borrando a primeira impressom de mulher anódina “Me cagho na merda que a fixo! Caralho!”

Já entrarom em calor, já todas jogárom exceto umha mulher de melena castanha de raia ao médio e grampos, lentes de pasta e pano ao pescoço, que observará toda a tarde sem dizer nem chio. Isto começa a parecer-se a um partido de futebol, pola quantidade de juramentos. “Dá-lhe pa´diante palhaça! Foder machinha!” farfulha Ermitas co seu rictus irritadiço.

O jogo é alegre catarse: rim, gritam, cantarujam, maldizem, mas quase nunca se enojam. Gostam de ganhar mas nom é o mais importante. As ensarilhadas regras do jogo estám pensadas para alongar as partidas.