Por Jorge Paços /

Em 15 de Novembro de 2002, há agora justo três lustros, o Ministério de Fomento do governo Aznar dizia numha nota de imprensa que, afortunadamente, “o petroleiro Prestige já nom perde fuel”. Na mesma jornada, o líder da extrema direita galego-espanhola, Manuel Fraga, tranquilizava a populaçom dizendo que “já passou o perigo mais grave”. Com a carragem popular a piques de combustionar, Arsenio Fernández de Mesa declarava que “todo depende da corrente e dos ventos”. Corria o dia 18 do mesmo mês, e apenas três dias depois o mesmo Mariano Rajoy que hoje preside Espanha, dava por certo que “nom se vai verquer mais um litro de fuel”. Ante a catástrofe evidente, alimentada polo despotismo e nulidade políticas, Fernández de Mesa defendia, em tom exculpatório, que ‘ninguém pode saber o que acontece a 3500 metros de profundidade’.

As citas nom componhem nenhuma recriaçom caricaturesca da direita espanhola, senom que retratam com total fidelidade a linha argumental das elites políticas naquele funesto Novembro de 2002. Inaugurárom um modelo de intervençom pública, mestura de desfachatez e desprezo pola gente do comum, que emergeria mais umha vez com motivo da crise financeira da década seguinte. A obviedade nega-se, os adversários som insultados, as vítimas merecem desprezo, e aguarda-se com insensibilidade que a tragédia se distancie para botar de novo os cálculos eleitorais.

Um ponto de inflexom.
Mas a Galiza foi naqueles dias muito mais do que os políticos que diziam querer representá-la. Apenas umha semana depois das palavras quase delirantes de De Mesa, 300000 galegos e galegas colapsavam Compostela, cidade que multiplicou por três a sua populaçom baixo a bandeira de Nunca Mais. A manifestaçom rematava no Obradoiro namentres ainda saía da Alameda, anegando um casco velho onde nunca se vira cousa semelhante. Na zona nova atrincheiraram-se forças de ocupaçom policial em cifras inauditas, encarregadas de atacar os grupos de independentistas que montavam barricadas e destroçavam sedes bancárias.

Na altura, Rodrigo Rato, hoje presunto grande delinquente económico da Espanha da crise, afirmara que ‘aqueles que quigerem levar a umha situaçom de crise à sociedade galega, baterám com a realidade’. Também se enganara, pois a mecha da indignaçom prendera, e um sentimento de fraternidade poucas vezes repetido instalara na populaçom um sentimento solidário por cima de siglas. Dias depois da manifestaçom compostelana, eram 150000 as pessoas que se congregavam na manifestaçom viguesa, e mais de 20000 numha gaiteirada, de novo na capital, contra a maré negra.

Namentres o voluntariado salvava o ainda salvável nas praias, as mobilizaçons nom deixavam tranquilas as autoridades, e cada visita oficial era recebida com ovos, pancartas ou pedras: Rajoy em Lugo, Torres Colomer em Ribeira, até mesmo o príncipe espanhol em Vigo, que tivo que sair apressadamente do Marco para evitar os impactos de objectos contundentes. Houvo, como sempre, agressons policiais, detençons e multas, mas nunca na história recente da Galiza a populaçom fixera tanta pinha para apoiar os e as retaliadas.

Entre as instituiçons e as ruas.
Até mesmo os setores críticos da política institucional temêrom o desbordamento da Galiza em revolta. Anxo Quintana, em preparaçom para liderar um nacionalismo autonomista, dixera que Madrid devia levar em conta que ‘na Galiza nom se rachara nem um cristal’. Mentia, pois nas mobilizaçons a ira desbordava o cálculo, e fora delas, a resistência galega reventara com explosivos um veículo militar e sedes do PP.

Xosé Manuel Beiras celebrara o tristemente célebre jantar de conciliaçom com Manuel Fraga e escrevera, meses depois, que o nacionalismo institucional servira como ‘dique de contençom’ contra formas de luita revolucionárias na Galiza. Na altura, a paz social abaneava e todas as forças da orde se consagrárom a reinstaurá-la.

Auto-organizaçom.
Os meses seguintes à desfeita ambiental viram um nível admirável de iniciativa popular: ediçom de meios de comunicaçom alternativos, florescimento de assembleias de Nunca Mais em todo o território, mesmo brochuras contra os meios de comunicaçom oficiais escritas por mariscadoras das Rias Baixas. Setores das elites inteletuais e académicas chegaram a insubordinar-se contra as suas burocracias: a delegaçom viguesa do CSIC pedia a demissom da central madrilena por emitir informes benevolentes com o PP; o Comité de Empresa da RTVG, como no recente caso da vaga incendiária, exigira a demissom dos dirigentes-propagandistas do órgao autonómico.

E depois?
Como é bem sabido, o PP reengraxara a sua maquinária caciquil através das subvençons na costa, amortecendo o seu declive eleitoral da altura. Incubava-se porém um bipartido que ainda demoraria mais de dous anos em chegar, e que em boa parte se nutriu do sentimento de indignaçom que pujo o povo galego na rua.

A estrutura assembleária nom perdurou, embora naquele ciclo mobilizador se curtiu toda umha nova geraçom de independentistas e ativistas sociais. Consignas tam célebres como “Com Espanha nunca mais” ou “Espanha é a nossa ruína” nasceram nas ruas mobilizadas contra as marés negras. Se a nossa Terra sofreu o maior atentado ecológico da história, também protagonizou um episódio de otimismo e dignidade que deixa memória perdurável.