Por Cristian Vitale (traduçom do galizalivre) /

Cronista e cantor das luitas populares da América Latina, perseguido, preso e exilado nas décadas de 70 e 80, o eco de Daniel Viglietti chegou ao mundo inteiro e alimentou também o ánimo de muitos militantes galegos e galegas. Viglietti deixou-nos no passado 30 de Outubro e, como homenagem e lembrança, traduzimos umha das últimas entrevistas que concedeu, no passado mês de Fevereiro.

É Daniel Viglietti, e se é Daniel Viglietti, o que compujo fitos da música americana como ‘Canción para mi América’, ‘Declaración de amor Nicaragua’ ou ‘La Patria Vieja’, é impossível nom perguntar-lhe que pensa do novo rumo que tomou o continente. ‘Eu tenho apenas umha voz, e é complicado contestar umha pergunta tam polifónica como essa. Canto os agudos de Cuba ou os graves de Haiti? Nomeo a prisom de Milagro Sala em Jujuy ou o crime impune de Ayotzinapa, no México? Aponta ele, subtil e agudo, na prévia do seu concerto do sábado 11 de Fevereiro (…)

Mais algumha cousa sobre esta América de hoje?
Si, claro. É certo que é um turbilhom o que está a acontecer com esta mudança de rumo no continente. Nalguns países, há um tempo já, puido-se derrotar eleitoralmente a direita e trabalhou-se para mudar, acadárom-se algumhas reformas sociais. Dérom-se passos. E no Uruguay continua-se nesta tarefa. Mas o vieiro exige mudanças mais fundas, e o desánimo pode instalar-se nalgumha gente. Por exemplo, na Argentina em matéria de direitos humanos acadárom-se cousas que no Uruguay fôrom muito difíceis ou algumhas impossíveis até agora na luita contra a impunidade dos repressores. Na Argentina e na Venezuela há também exemplos do que se vinha avançando em matéria de projetos sociais. Logo xurdírom agressons e desmantelamentos diversos, nuns e noutros mapas, e nom esqueçamos o Brasil. E no meio desses jogos de contradiçons cumpre seguir apostando na uniom dos nossos povos e, por exemplo, continuarmos a defender a permanência da Venezuela no Mercosur. Cumpre cuidarmos todo o que nos permitir construir isso que ia poder chamar-se ‘os povos unidos de Latinoamérica’.

Frente à era das arrepiantes ditaduras do passado você pensa que isto é assim tam complicado?
Nom tanto. É umha cousa muito diferente, claro, mas à vez muito complexo. Enxergando essa procura de uniom continental, conto-lhe que em 1982 em Manágua, na Nicaragua sandinista inicial, ocorreu-se-me o termo ‘nuestroamericano’ na letra da minha cançom ‘Declaración de amor a Nicaragua’. Isto nasceu em mim dum sentimento de sempre que nos vem de Bolívar, de Martí, do Che, de Artigas mesmo, a ideia de unidade latinoamericana. Mas eu com o tempo decato-me de que isto nom apaga as identidades, nas suas fasquias positivas e negativas, de cada umha das nossas pátrias. Somos todos uns, somos Latinoamérica e as Caraibas, dacordo, e oxalá bem juntinhos, mas cada umha das nossas histórias é um mundo e tem as suas coordenadas de seu. Penso que cumpre lograr junguir toda essa diversidade e os logros acadados. Por exemplo, arestora, as decisons protecionistas de Trump, a um tempo que nos vam ir golpeando, bem podem unir-nos. Mas nom se trata de cairmos na teoria de o pior ser o melhor. Por seu turno, os meios de comunicaçom, o tevê e a rádio, atingem-nos e manipulam-nos numha hipnose que racha consciências, que adorminha o senso crítico. E aí, o pior é o pior. Nom é doado nem é habitual exercitarmos a contraleitura do que vemos, do que lemos, do que escuitamos dessa espécie de nova igreja inquisidora que nom os meios.

Que fazer logo, segundo você e a sua experiência artística e ‘mediática’, dados os seus trabalhos em rádio e televisom?
Trabalharmos mais nisso. Lermos mais umha vez Armand e Mattelart, que analisárom muito esses problemas da comunicaçom. Armand, o sociólogo belga, junto com o escritor chileno Ariel Dorfman, dêrom a lume aquele livro ‘Pra lermos o Pato Donald’ e hoje poderiam ajudar-nos a ler os desígnios de Donald Trump. As imagens tentam dominar o imaginário coletivo, e muitas vezes conseguem-no. E o cultural é infiltrado pola seduçom das mensagens do poder. E se um dia medrar a rebeliom popular, velaí está sempre a latejar a ameaça da repressom, do encarceramento, da tortura, e a situaçom piora, de aplicar a receita dos mísseis e as bombas, agora muitas vezes em ataques anónimos desde os sinistros drons nom tripulados.
(…)

Como translada toda esta análise ao mundo da cançom, que é o seu, além das suas inquedanças políticas, sociais ou comunicacionais?
Na realidade um sempre está a compor, porque está a matinar, a sonhar, a sofrer, a respirar a porçom de realidade que ao trovador lhe toca viver, sempre está um como afinar ideias. E de súpeto nasce a cançom, embora a gestaçom pode durar anos. Por vezes muito pouco tempo. Mas tampouco imos crer que um é umha máquina de cantos políticos. Por isso, assim como me nascem cançons de opiniom, nascem-me outras sobre a paisagem, sobre o amor, sobre seres entranháveis. Mas sempre venhem dumha sensibilidade determinada, dum jeito de conceber a vida. Umha vida o mais modesta possível, sem soberba, sem cobiça, defendendo a ledice, que nos pedia o nosso entranhável Mario Benedetti. A tenrura, o companheirismo, como tantos queremos. A defender as areas rochenses de Valizas ao cantarmos ‘El vals de la duna’, a defender o amor ao cantar ‘Anaclara’, a defender o ensino ao recordarmos a mestra uruguaia desaparecida Elena Quinteros, a questionarmos a impunidade ao cantarmos a minha música para o poema de Circe Maia ‘Otra voz canta’, a defendermos a nossa cultura quando aludimos a Violeta Parra, ou a Atahualpa, ou a Benedetti ou a Galeano, a defendermos a liberdade de pensamento quando evocamos o sacerdote colombiano Camilo Torres que, no seu momento, cambiou a sotana por um fusil, ou o Capitám Carlos Lamarca que cambiou a punteria do seu, a defendermos a memória de Salvador Allende, de Miguel Enríquez, de Víctor Jara, como no meu país a de Raul ‘Bebe’ Sendic, ou no mundo a do nosso americano que foi o argentino Ernesto Guevara.

Tivo a oportunidade de viajar polo continente recentemente: que impressom lhe causou, em geral?
O que mais me impatou é que regressei a Cuba, quando apresentei o meu recital ‘Viglietti recorda Benedetti’, em Casa das Américas. Foi um formoso reencontro com essa entranhável ilha em fervedoiro. Introduzírom-me com as suas palavras Silvio Rodríguez, e com a sua cançom ao poeta, Vicente Feliú. Como coincidia com a Feira do Livro houvo presença de muita gente, mesmo representantes do governo uruguaio. Entre os cubanos, em primeira fileira, o insigne poeta Roberto Fernández Retamar, presidente da Casa. Reencontrei músicos e poetas amigos como Miguel Barnet, Nancy Morejón, Leo Brouwer, Augusto Blanca. Algum dia hei volver apresentar na Argentina essa evocaçom de Benedetti que inclui cançons, textos e um contraponto de imagens que argalhou comigo no México o cineasta argentino Jorge Denti.

Cumpriria afundar no clímax dessa Cuba que viu, entom…
Nesses poucos dias na ilha respirei a lealdade dum povo a Fidel e a umha revoluçom que tivo o acerto de nom se crer perfeita. Agora estamos preocupados com o que vai fazer Trump, com o que foi acordado no passado ano com Obama, que nom era um santo. Mas o acordo era algumha cousa, embora o objectivo fulcrar, rematar com o bloqueio, nom se acadou ainda. Voltando à pergunta anterior, também estivem no México, onde cantei ante milhares de pessoa no enorme espaço do Zócalo capitalino, no centro histórico, num festival adicado aos exílios desta terra generosa, desde o espanhol ao latinoamericano. Ao México vou sempre com a minha companheira de vida, Lourdes, psicoanalista, que é mexicana. No que diz respeito a Venezuela, agora há um tempo que nom se deu a oportunidade de ir, porém sempre continuo a apoiar essa pátria bolivariana em diversos atos, sempre a recordar a Ali Primera, e a cantoras atuais como Cecilia Todd e Amaranta, chavistas ambas as duas, entre outros membros da valiosa escola musical venezuelana. O meu desejo de cantar de novo no Chile, no Equador, na Colômbia, na Bolívia, no Peru, no Salvador, sempre é forte, mas adia-se por razons de organizaçom, de produçom, ou por nom haver eventos que tenham requerido da minha solidariedade.

Sempre ando entre a solidariedade e a necessidade de me manter do meu trabalho. Fica claro que nom fago parte do show business… mais da metade das minhas atuaçons som por causas solidárias, como a dos desaparecidos. Por essa razom estivem a atuar até há pouco no interior do Uruguay, na inauguraçom de monumentos em memória dos desaparecidos nos departamentos de Artigas e Soriano.

Que temas históricos acha você que nom podem faltar, dado o contexto de hoje, para além dos que já mentou?
Nunca sentim que devera retirar cançons do meu repertório, ainda que admito haver algumhas que é melhor se porem em contexto. Apens digo companheiros, por exemplo, aquela que remata a invocar o sangue de Tupac, o sangue de Amaru. ‘A desalambrar’, que lembro umha vez que numha tentativa de variar o repertório nom a cantei num concerto em Madrid, e o cronista do diário ‘El País’ anotou que eu me tinha negado a cantá-la. Por outra banda, numha homenagem que me fixérom os paisanos do Paso de los Mellizos, umha vila duns centos de habitantes do departamento de Río Negro, eu cantei-a, e comentei que nom era a minha intençom deixar sem trabalho os ‘alambradores’. Porque aliás, quando chegar o tempo da reforma agrária, cumprirá alambrar muito nos repartos de terra para as maiorias. Esse verbo que eu inventara em 1966 é um símbolo que me nasceu do Regulamento de Terras que Artigas criara em 1813. Trata-se, ainda hoje e nom apenas no Uruguay, de desalambrarem-se os latifúndios. Também hei cantar a luitadora paraguaia Soledad Barrett, que conhecim incialmente na Argentina. E pensando nos Familiares, Maes e Filhos dos desaparecidos, vou incluir ‘Otra voz canta’.

O seu último disco foi ‘Trabajo de Hormiga’; que visom tem dele, e por quê há tanto tempo que nom grava?
‘Trabajo de Hormiga’ permitiu-me difundir o meu retorno ao sul com cançons novas que trazia do exílio, alguns temas históricos e vários inéditos, e algumhas versons junto a amigos cantores como Isabel e Ángel Parra, ou Chico Buarque. É certo, há muito que nom gravo. Sempre digo penúltimo disco, a pensar que virá outro. Nom sei se de estudo, como foi ‘Esdrújulo’, gravado em ION em Bos Aires, com a imelhorável achega de Coriún Aharonián. Os dous ‘penúltimos’ som gravados em vivo, ‘Devenir’ foi o anterior. Quiçais siga esse caminho ou alterne algumha cousa de estudo com algumha cousa em público. E acrescente algumha curiosidade que tenho guardada. Agora, nesse periplo argentino, hei interpretar algumhas cançons que nom levei ainda ao disco. Ou à nuvem, que espalha os materiais pensados como umha unidade, mas tem algo de generoso na sua chuva. Em qualquer caso, até novo aviso, espero que algumha cousa vaia ficar no coraçom da memória da gente. Oxalá, mais umha vez.

* A versom completa desta entrevista foi reproduzida em www.pagina12.com.ar