Por Ismael Romero Saborido /

Como muitos outros ámbitos, o mundo do remo também está cheio de machismo. Escuita-se isso de “já tenhem mais direitos que nós” e nom é estranho ouvir um remeiro queixar-se dos “benefícios” que obtenhem as suas companheiras polo feito de serem mulheres. Entre estes benefícios está que o clube compre um jogo de remos novos para a equipa feminina quando a equipa masculina só tem três e elas até agora estavam a usar um jogo de remos reciclados que eles desbotaram logo de usa-los durante três ou quatro temporadas. Ou que as regatas femininas também sejam retransmitidas por televisom e deste jeito se mova o horário em meia hora da competiçom dos homens, quando a televisom só retransmitirá umha regata de mulheres por cada três masculinas.

Os avanços

Graças às demandas e protestos de muitas remeiras, nos últimos anos dérom-se passos importantes cara a normalizaçom da situaçom da mulher no remo. No ano 1998 ainda nom tinham permitido participar em campeonatos estatais em nenhuma das modalidades de banco fixo. Precisamente até o campeonato estatal de bateis de 1998, celebrado em Santander, as remeiras só podiam participar no que se denominava troféu FER que se disputava simultaneamente ao campeonato estatal dos homens mas no que nom se entregavam bandeiras de campeoas ou medalhas às equipas que conseguiam entrar no pódio. Nessa ediçom, as remeiras galegas de Vila de Cangas repartíom camisolas entre o resto de equipas com a legenda “nom ao troféu FER” para levarem-as ao subirem ao palco de autoridades onde se entregava o mencionado prémio. Posteriormente, subírom com uma faixa para protestar contra a discriminaçom à que estavam submetidas. Entom, os representantes da Federaçom vírom-se forçados a repartirem entre as raparigas as medalhas que estavam reservadas para os suplentes das equipas masculinas. Possivelmente este ato fosse um ponto de inflexom para o reconhecimento dos direitos das remeiras.

Anos depois já podiam competir em batel e trainheirinhas, as embarcaçons mais pequenas das três existentes na modalidade de banco fixo, mas a trainheira ainda se mantinha proibida para as mulheres. No verao de 2005, na localidade de Hondarribia (Euskal Herria) celebrou-se a primeira regata feminina de trainheiras da história, mas de forma nom oficial e sem prémio económico. Esta regata foi ganhada por umha equipa galega, Cabo da Cruz, e a pesar de carecer de transcendência mediática, foi o início das regatas de trainheiras femininas.

Em Setembro de 2008 organiza-se a primeira bandeira feminina da Kontxa, a regata de maior prestígio no mundo do remo, que se celebra na sua modalidade masculina desde 1879. Meses mais tarde, o 14 de Janeiro de 2009 presenta-se em Donostia a liga feminina de trainheiras, com o apoio da ACT (Asociación de Clubs de Traineras), e com a presença do Lehendakari Juan José Ibarretxe. Cumpre lembrar que tanto a primeira ediçom da bandeira da Kontxa como da liga som conquistadas por umha equipa galega, um combinado formado por remeiras de Cabo da Cruz, Chapela e Samertolameu de Meira.

O trabalho pendente

A situaçom do remo feminino melhorou notavelmente durante os últimos vinte anos e todos estes avanços forom importantes, imprescindíveis, para o reconhecimento dos direitos das remeiras, mas no dia a dia a desigualdade é notória; umha desportista ganhadora de três Kontxas comenta que “antes da regata masculina da Kontxa, os remeiros do meu clube, motivados, dizem em tom de brincadeira que vam ser a primeira equipa galega em ganhar essa bandeira. ‘Eu tenho três’, respostei orgulhosa. Os companheiros que estavam ao redor botarom a rir, e retrucárom ‘falamos da Kontxa de verdade’.” Outra remeira, sobre a mesma competiçom, pom outro exemplo: “classificar-se para a final da Kontxa é algo inesquecível, mas a falta de apoio é desmoralizadora. Vermos, por exemplo, que a viagem que está programada para as siareiras se pode cancelar, já que a equipa masculina nom se classificou… Dam ganas de chorar.”

Formalmente ainda resta muito por fazer: os prémios económicos de muitas competiçons som inferiores na categoria feminina, e em outras o número de embarcaçons participantes é muito inferior. Na liga feminina só permitem competir a quatro trainheiras enquanto na liga masculina há doze. Em outras ocasions nom retransmitem a regata feminina enquanto sim as regatas masculinas, mas nunca sucede ao contrário. Na prática, em caso de ter que suprimir-se a emissom de alguma regata sempre é a feminina a que fica fora.

Em questons formais, ficam cousas por melhorar, mas do ponto de vista de muitas remeiras, onde mais há que fazer é no dia a dia, nas relaçons de poder dentro dos clubes: “Nós vínhamos que ser campioas e eles nem se clasificaram para a final, mas quando o clube compra um batel novo, é para eles.” reconhece outra desportista.

No reparto do espaço também há discriminaçom, e justificado na inferioridade numérica, as mulheres saem habitualmente pior paradas; para elas os vestiários mais pequenos ou em piores condiçons; para elas os remos e o barco mais velho… Umha desportista denúncia ”quando adestrávamos no ginásio, as raparigas tínhamos que parar e deixar-lhe o sítio aos homens assim que eles chegavam. A pesar de obtermos melhores resultados que eles.”

Para além de que nom existir umha adaptaçom dos treinos às particularidades físicas das mulheres ligadas à menstruaçom “imagina-te fazer umha semana de carga (semana mais dura dentro do ciclo do treino) quando che vem a regra.” ou mesmo à gravidez, “no campeonato galego eu estava de quatro meses”, reconhece outra companheira.

Nos clubes, como espaços mistos e sem trabalho para identificaçom de atitudes machistas, o acoso por parte dos companheiros acontece frente o consentimento geralizado “algum pensará que somos surdas, há pouco que escuitei ‘mira como se lhe marcam as cachas com essas malhas!’ e todos a rir-lhe a babalhada”.

O feito de que já nas categorias inferiores haja só umha nena por cada dous ou três nenos nom é casual. Para muitos, o remo é um desporto duro, para homens com muitos pelos no peito e calos nas maos, um desmobilizador para as raparigas por questionar a ideia de feminidade. Esta mentalidade por parte ainda de muita gente provoca que as cativas sejam estimuladas para atividades mais “femininas”.
Assim com tanto trabalho que fazer por diante, cumpriria seguir a máxima de que “Os homens que desejam ser feministas nom precisam de um lugar definido dentro do feminismo. Eles devem tomar o espaço que já tenhem dentro da sociedade e fazê-lo feminista”. Pois nom nos resta pouco trabalho por diante no remo, e já estamos demorando.

Este artigo foi originalmente publicado no número de Janeiro do jornal Novas da Galiza.